Por Nelice Pompeu*
Há um padrão que já não dá mais para ignorar. A produtora Brasil Paralelo escolhe seus alvos com precisão política e ideológica. E não é por acaso que mira Paulo Freire e, ao mesmo tempo, as escolas de educação infantil.
Não se trata apenas de uma disputa de ideias. É um projeto.
Atacar Paulo Freire, patrono da educação brasileira, é atacar uma concepção de escola que forma sujeitos críticos, capazes de ler o mundo antes mesmo de ler a palavra.
Em seu lugar, a produtora se ancora nas ideias de Olavo de Carvalho, referência de um pensamento que flerta com o negacionismo, despreza a ciência e transforma a educação em campo de guerra cultural.
E por que a educação infantil?
Porque ali está a base de tudo. Porque defender a obrigatoriedade da educação a partir dos 4 anos significa garantir o direito das crianças à convivência, ao brincar, à aprendizagem e à proteção.
E isso confronta diretamente a defesa do homeschooling e de uma visão de educação restrita ao ambiente privado, sem o papel social da escola.
O que vemos é uma estratégia conhecida. Os métodos se parecem muito com os do movimento Escola sem Partido e com o discurso elitista e bolsonarista das chamadas “escolas abertas”, as famosas “mamães vogue”.
O roteiro é sempre o mesmo: acusar professores de doutrinação, deslegitimar o conhecimento científico e criar pânico moral nas famílias.
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Hoje, basta um professor afirmar que a Terra é redonda ou que vacinas salvam vidas para ser acusado de ideológico. O absurdo virou método.
Enquanto isso, os problemas reais das escolas públicas seguem invisíveis para esses grupos.
Seria essa a tal “pedagogia do abandono”? Não há uma linha sobre a falta de profissionais, a ausência de materiais, as condições estruturais precárias, salas superlotadas, falta de acessibilidade, manutenção básica comprometida, ausência de laboratórios, quadras, climatização e apoio efetivo à inclusão.
Nada disso vira documentário. Nada disso interessa.
O interesse é outro. É construir uma narrativa.
E essa narrativa tem consequências concretas. Em São Paulo, vimos um caso gravíssimo em que um pai, policial, acionou PMs armados dentro de uma escola por conta de desenhos de matriz africana feitos por sua filha. Policiais permaneceram mais de uma hora dentro da unidade, diante de crianças, famílias e educadores, intimidando, constrangendo e gerando medo.
Esse ambiente de perseguição não nasce do nada. Ele é alimentado por plataformas que vivem de desinformação, ódio e exposição.
O que a Brasil Paralelo pratica está longe de qualquer compromisso com a educação.
É uma verdadeira pedagogia da indecência e do medo. Indecência ao distorcer falas, manipular contextos e expor crianças e profissionais para sustentar uma narrativa ideológica. Medo ao alimentar desconfiança, incentivar perseguições e transformar o ambiente escolar, que deveria ser de acolhimento e proteção, em um espaço de tensão e ameaça. Não é sobre educar, é sobre intimidar.
O episódio recente na EMEI Pagu escancara essa lógica. A autorização ocorreu sem que o conteúdo real da produção fosse apresentado à escola. Apenas na véspera veio a informação de que se tratava de material da Brasil Paralelo. Uma armadilha institucional. Uma tentativa de usar o espaço público para legitimar um discurso que ataca a própria escola pública.
E há um elemento ainda mais grave. Uma mãe denunciou que a fala de seu filho foi distorcida e utilizada no documentário sem respeito à sua integridade, transformando uma criança em peça de uma narrativa ideológica. Isso não é comunicação. Isso é manipulação. E pode, inclusive, violar direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege a imagem, a dignidade e o desenvolvimento de crianças.
A EMEI Monteiro Lobato também conhece esse roteiro. Já foi alvo de ataques, vídeos manipulados, ameaças e até presença policial motivada por desinformação. Em comum, a tentativa de transformar escolas em palco de disputa ideológica, expondo crianças e profissionais.
E aqui está um dos pontos mais graves. Em um momento de escalada da violência nas escolas, esses grupos escolhem expor justamente quem deveria ser protegido. Crianças viram instrumento. Educadores viram alvo.
Não é coincidência. É método.
Agora, essa ofensiva ganha mais um capítulo com o lançamento do documentário Pedagogia do Abandono, anunciado pela própria produtora como uma crítica à educação pública e ao legado de Paulo Freire. Não é difícil prever o roteiro. A tentativa é associar a escola pública ao fracasso, desqualificar seus profissionais e abrir caminho para soluções privatizantes e excludentes.
A mesma produtora que hoje tenta desqualificar a educação pública já foi denunciada por conteúdos que distorcem fatos históricos, espalham teorias conspiratórias e até atacam legislações fundamentais como a Lei Maria da Penha. O padrão é o mesmo: desinformar, confundir, desacreditar.
Diante disso, é preciso reafirmar o óbvio que tentam apagar.
A escola pública é um espaço de proteção, de convivência, de diversidade e de construção de conhecimento. Não é lugar de medo. Não é lugar de intimidação. Não é cenário para experimentos ideológicos travestidos de documentário.
Paulo Freire nos ensinou que a educação é um ato de coragem. E é exatamente isso que está sendo exigido agora.
Coragem para não se calar.
Coragem para defender a escola pública.
Coragem para enfrentar a mentira com verdade.
Amanhã, sábado, 18 de abril, às 10h da manhã, na Praça Roosevelt, em São Paulo.
Famílias, educadores e toda a comunidade estão convocados para um ato em defesa da educação pública, gratuita, laica e de qualidade.
Um ato também contra ameaças, intimidações e tentativas de silenciamento.
É na rua, com presença e união, que se defende a escola.
Nos vemos na praça. Porque quando atacam uma escola, a resposta precisa ser coletiva.
*Nelice Pompeu é professora, promotora legal popular e integrante do Movimento Escolas em Luta
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
