Por Marcelo Zero*
Bolsonaro quer, sim, acabar com o Bolsa Família e outros programas sociais.
A direita e a extrema-direita sempre tiveram uma visão preconceituosa desse e de outros programas. Sempre afirmaram que as pessoas entram nesses programas porque “não querem trabalhar” e que esses programas estimulam a “preguiça” e geram “carência de mão de obra”.
Tariflávio, de forma hipócrita e malandra, apagou seus posts em que criticava o Bolsa Família e o chamava, pejorativamente, de “bolsa-farelo”.
Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que o Bolsa Família não impede ninguém de trabalhar.
O critério básico para entrar e permanecer no Bolsa Família é a renda familiar e não o fato de se ter ou não emprego ou ocupação.
E já há uma regra de transição para aqueles que conseguem melhorar sua renda mediante ocupação ou trabalho.
O limite de renda inicial para beneficiários do Bolsa Família é de R$ 218 por pessoa (per capita). Ou seja, toda a renda da família, dividida por todos os membros, deve ser de até este valor.
Quando a renda da família ultrapassa R$ 218 por pessoa, a família pode continuar recebendo 50% do valor do benefício que recebia antes, por um período de até 12 meses. É a chamada Regra de Proteção.
Para estar nela, a renda mensal por pessoa não pode ultrapassar o valor de R$ 706.
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Em Nota, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome esclarece que:
“O objetivo é evitar o cancelamento imediato do benefício, reconhecendo que a superação da pobreza não acontece de forma automática com a conquista de um emprego. Esse é um processo gradual, que exige um período de adaptação e estabilização”.
Curiosamente, no governo de Jair Bolsonaro houve grande aumento dos dependentes do Bolsa Família, que ele passou a chamar de Auxílio Brasil, como se o programa tivesse sido criado por aquele torpe governo.
Com efeito, como se pode observar no gráfico seguinte, há um período de crescimento sustentado do Bolsa Família, quando o programa estava sendo implantado (2004-2010), seguido de um período de estabilidade (2010-2018), e, mais adiante, por um terceiro período, que transcorreu do início de 2021 até o final de 2022, de aumento abrupto do programa.
Nesse período, o número de famílias atendidas aumentou de cerca de 14,7 milhões para cerca de 21 milhões.
Elaboração: Sergio Kelner Silveira e Carolina Beltrão de Medeiros em “A evolução do Bolsa Família (2004/2023) no Brasil e seus Impactos sobre a Pobreza e os Dispêndios”.
Por quê?
Em primeiro lugar, por que houve diminuição da renda familiar combinada com um grande aumento da fome, que chegou a afetar cerca de 33 milhões de pessoas, com o Brasil voltando para o Mapa da Fome, e com o incremento do desemprego.
De fato, de acordo com dados oficiais do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), o rendimento médio real da população brasileira encolheu 6,6% ao longo do governo de Jair Bolsonaro (2019–2022). A renda média recuou de R$ 2.712 em 2018 para R$ 2.533 ao final de 2022.
Além disso, o rendimento médio habitual do trabalhador atingiu o menor patamar da série histórica iniciada em 2012 pelo IBGE. Houve também aumento da pobreza e da extrema pobreza. Um levantamento do Cadastro Único (CadÚnico) e da FGV aponta que cerca de 2 milhões de famílias adicionais caíram na extrema pobreza entre 2019 e meados de 2021, impulsionadas pela inflação de alimentos e pelo desemprego. Na época, 17% das famílias não tinham renda alguma.
A Covid explica apenas parte desse descalabro, pois havia uma política neoliberal em curso, francamente avessa aos direitos dos trabalhadores e que desprezava a ação do Estado para promover políticas contracíclicas para combater os impactos recessivos de uma conjuntura de entraves.
Mas isso é apenas uma parte da explicação.
Houve também um amplo processo de corrupção e de desorganização do Cadastro Único que provocou um inchaço indevido no Bolsa Família, especialmente ao longo do período eleitoral de 2022.
Já em 2023 uma investigação da CGU encontrou pagamentos indevidos de R$ 3,89 bilhões e sérios problemas no cadastro do Auxílio Brasil.
Em média, mais de 800 mil famílias receberam o benefício mensalmente mesmo sem ter direito. Um Sergipe inteiro.
O pente-fino realizado pelo governo federal de Lula retirou 3,7 milhões de pessoas irregulares de programas sociais associados ao Cadastro Único (CadÚnico), informou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Havia gente com renda mensal de mais de R$ 10 mil recebendo o Auxílio Brasil. Um absurdo.
Em sentido contrário, no terceiro governo Lula houve redução dos beneficiários do Bolsa Família.
Em primeiro lugar, porque, como destacamos, houve uma limpeza no cadastro corrupto de Bolsonaro.
Em segundo, e mais importante, porque houve melhoria na vida dos brasileiros.
O Brasil saiu, de novo, do Mapa da Fome. Segundo dados do IBGE, o rendimento médio real do trabalhador brasileiro subiu cerca de 9,7% entre o início de 2023 e setembro de 2025, saltando de R$ 3.198 para R$ 3.507. A recuperação permaneceu neste ano (2026), alcançando marcas superiores a R$ 3.804, em meados do período.
Ademais, no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a taxa de desemprego atingiu os menores patamares da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE , iniciada em 2012.
A taxa média de desemprego recuou para 6,6% em 2024 (comparada a 7,8% em 2023) e continuou caindo em 2025 e 2026, com registros pontuais chegando a cerca de 5,2% a 5,3%, em meados de 2025/2026.
Também o número de pessoas ocupadas bateu recordes históricos, superando a marca de 103 milhões de trabalhadores, impulsionado pela alta no emprego com carteira assinada no setor privado e pela valorização do salário-mínimo.
Em outras palavras, no terceiro governo Lula, o povo brasileiro “empreendeu”, de verdade, muito mais que no governo Bolsonaro. Houve prosperidade para o povo.
Isso permitiu a saída de muita gente do Bolsa Família.
Segundo os dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), cerca de 5,1 milhões de famílias saíram do programa social desde 2023 devido ao aumento da renda familiar e à inserção no mercado de trabalho.
Mas não há dúvida de que Bolsonaro quer eliminar ou, pelo menos, enfraquecer o Bolsa Família.
Bolsonaro fala em “empreendedorismo”, como se o povo brasileiro não empreendesse, não se “virasse”, como se diz popularmente, para sobreviver todo o dia.
O problema é que esse “empreendedorismo”, para quem tem pouca qualificação e está, muitas vezes, no mercado informal, não assegura renda suficiente para sobreviver com dignidade e para manter os filhos na escola. Daí a necessidade de uma complementação de renda para tentar romper o ciclo da pobreza, com maior acesso à educação para as novas gerações.
Bolsonaro desconhece totalmente essa realidade e a necessidade estratégica de o governo intervir ativamente para eliminar a pobreza extrema e reduzir as desigualdades.
Flávio Bolsonaro quer desfigurar o programa e aposta na precarização do trabalho, chamada hipocritamente de “empreendedorismo”, que já existe para quem é beneficiário, como forma falaciosa de ascensão social e de melhoria de vida para as famílias brasileiras.
Ele chama o trabalho precarizado e o empreendedorismo de baixa renda de “libertação”. Gandhi, em contraste, chamava a pobreza de “a pior forma de violência”.
Além disso, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro não lembra das principais beneficiárias do Bolsa Família, que são as mulheres, e de seu trabalho invisível de cuidados das crianças e da família.
Tal trabalho invisível é fundamental para romper com o ciclo da pobreza e para garantir saúde e educação às crianças. Para as famílias pobres, que vivem na precarização, esse trabalho das mulheres só se torna viável com o Bolsa Família e outros programas sociais.
Para o educador social e representante do estado de São Paulo no Fórum Nacional de Trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS), Allan Carvalho, a proposta hipócrita de Bolsonaro: “É a precarização da precarização. Eles tornam o capitalismo ultrasselvagem, o neoliberalismo em hiper-neoliberalismo, o Estado mínimo em micro, e eles vão arrochando, arrochando sem parar”.
Para o educador, o projeto de Flávio quer reduzir a assistência social à mera porta de saída. “Acaba virando uma obsessão compulsiva que distorce a própria razão de ser da política e inviabiliza tudo aquilo que a Constituição preconizou: proteção social interrelacional”.
Não se enganem, Tariflávio não está preocupado com a prosperidade dos pobres. Quer apenas garantir a prosperidade dos ricos.
Como Milei, seu modelo, vai cortar programas sociais, políticas públicas e investimentos públicos para beneficiar oligarquias rentistas e parasitárias, que o apoiam.
Isso já foi prometido. As mentiras óbvias da campanha destinam-se somente a enganar os eleitores mais pobres e necessitados. Aqueles que dependem das políticas e dos programas que ele vai extinguir ou enfraquecer.
O sofrimento do povo já foi “precificado”.
Afinal, quem já matou 700 mil brasileiras e brasileiros pode matar outros tantos.
Sociopatas podem ser serial killers sorridentes.
Publicação de: Viomundo
