O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, assumiu nesta quinta-feira (4) a relatoria de três ações que levam o filme Dark Horse, a pesquisa AtlasIntel e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para dentro da Justiça Eleitoral, no momento em que a disputa presidencial de 2026 já discute abuso de poder econômico, propaganda antecipada e financiamento político indireto.
A mudança de arena é o fato novo. O caso deixa de circular apenas no inquérito policial, na delação de Daniel Vorcaro e na guerra de versões da pré-campanha. Agora, a pergunta passa a ser eleitoral: o filme sobre Jair Bolsonaro (PL) pode beneficiar o projeto presidencial do filho? A pesquisa que citou o áudio de Flávio Bolsonaro com Vorcaro induziu o eleitor? O dinheiro privado colocado na produção criou vantagem política?
Nunes Marques vai relatar duas ações relacionadas ao Dark Horse e uma terceira sobre a pesquisa AtlasIntel. As informações foram publicadas por veículos que acompanham o TSE nesta quinta-feira (4), após a distribuição dos processos na Corte.
Uma das ações foi apresentada pelo PL contra a pesquisa da AtlasIntel. A legenda sustenta que o levantamento teria influenciado os entrevistados ao incluir menções ao áudio em que Flávio Bolsonaro trata com Vorcaro de recursos para o filme Dark Horse.
Segundo a versão apresentada pelo PL, oito das 48 perguntas da pesquisa abordavam o suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. A AtlasIntel, por sua vez, afirmou que o teste com o áudio foi aplicado somente depois da conclusão e submissão integral do questionário principal pelos entrevistados.
Outra ação pede que o TSE barre a exibição do filme durante a campanha eleitoral. O argumento é que a cinebiografia política de Jair Bolsonaro, prevista para circular no ano da eleição, poderia funcionar como propaganda favorável ao bolsonarismo fora das regras de campanha.
A terceira frente pede investigação sobre possível abuso de poder econômico e político no financiamento da produção. O ponto sensível é direto: se o filme foi bancado com dinheiro privado a partir de pedido de Flávio Bolsonaro, a Justiça Eleitoral terá de decidir se isso ficou no campo cultural ou se atravessou a linha da disputa presidencial.
O detalhe político pesa. Nunes Marques preside o TSE desde 12 de maio e comandará as eleições gerais de 2026. Ele também é ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) indicado por Jair Bolsonaro em 2020. O dado não decide processo, mas aumenta a atenção pública sobre cada despacho, cada prazo e cada liminar.
No Paraná, o caso bate no palanque bolsonarista que recebeu Flávio Bolsonaro em Curitiba, em 29 de maio. Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) dividiram o ambiente político que tenta sustentar o pré-candidato presidencial no estado. A ida do caso ao TSE obriga esse grupo a responder se o Dark Horse é apenas um filme privado ou uma peça de campanha com financiamento nebuloso.
Moro tem interesse direto no tema porque a eleição de 2026 no Paraná depende do humor da direita nacional. Se Flávio Bolsonaro sangra no TSE, o palanque estadual perde força. Se o TSE rejeita as ações, o bolsonarismo tentará vender o resultado como blindagem eleitoral. Nos dois cenários, o Paraná entra na conta.
Deltan e Filipe Barros também ficam presos ao mesmo cálculo. Os dois apostam na mobilização bolsonarista para manter influência junto ao eleitorado de direita, mas o caso Dark Horse mistura Banco Master, Vorcaro, áudio, pesquisa presidencial e suspeita de abuso econômico. É material pesado para uma campanha que tenta falar em moralidade pública.
O TSE não julgará apenas um filme. Julgará o limite entre produção cultural, propaganda política, dinheiro privado e vantagem eleitoral. Essa fronteira será decisiva em uma campanha marcada por redes sociais, audiovisual, inteligência artificial, influenciadores e guerra de narrativas antes mesmo do início formal da propaganda.
Flávio Bolsonaro ainda tenta transformar a crise em ataque à pesquisa e à oposição. Seus adversários tentam transformar o filme em prova de abuso antes da urna. Caberá a Nunes Marques decidir o primeiro enquadramento institucional do caso.
O ponto central é que Dark Horse já não pertence só ao marketing bolsonarista. O filme entrou no TSE pela porta da eleição presidencial, e qualquer decisão sobre sua exibição, financiamento ou uso político terá efeito sobre a disputa de outubro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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