Água seca no Paraná enquanto Sanepar paga dividendos

O governador Ratinho Junior (PSD) decretou emergência hídrica por 180 dias no Paraná na mesma semana em que transformou a Ponte de Guaratuba em vitrine política no litoral. O decreto culpa a estiagem, mas a crise abre outra pergunta: por que um estado rico em bacias hidrográficas segue vendo a torneira secar enquanto a Sanepar distribui lucro a acionistas?

A chuva pesa. Mas a conta política não cai do céu.

O próprio decreto informa que 69% dos 291 pontos de captação monitorados operam fora da normalidade. São 52,58% em situação de “rio baixo” e 16,49% em estiagem.

O texto também autoriza medidas de contingenciamento, inclusive rodízio no abastecimento, monitoramento mais duro e campanha para reduzir consumo. Em português claro: o paranaense pode pagar tarifa alta e receber água em escala.

A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) é uma empresa de economia mista, com ações na Bolsa. O Estado do Paraná tem 60,08% do capital votante, mas só 20,03% do capital total; acionistas nacionais e estrangeiros somam quase 80% do capital total.

Esse dado muda a conversa.

A Sanepar não é uma autarquia voltada apenas ao serviço público. É uma companhia aberta, com mercado, acionista, dividendo e lógica de resultado.

Em 29 de abril de 2026, um dia antes do comunicado da emergência hídrica, a assembleia da Sanepar aprovou a distribuição de mais de R$ 585 milhões em juros sobre capital próprio e dividendos, com pagamento previsto para 26 de junho de 2026.

Juros sobre capital próprio é dinheiro pago ao acionista, parecido com dividendo, com vantagem tributária para a empresa.

A política da Sanepar prevê dividendo obrigatório de pelo menos 25% do lucro líquido ajustado. A administração ainda pode aprovar mais 25% em dividendo adicional ou juros sobre capital próprio.

A torneira do investidor segue aberta.

A torneira do consumidor, nem sempre.

O Paraná não é deserto. O Instituto Água e Terra (IAT) mapeia 16 grandes bacias hidrográficas e 12 unidades hidrográficas no estado. A própria Sanepar informa que capta água em bacias de mananciais superficiais e em aquíferos, ou seja, reservatórios subterrâneos.

Curitiba também não depende de milagre. O Sistema de Abastecimento Integrado de Curitiba é formado pelos reservatórios Iraí, Piraquara I, Piraquara II e Passaúna, segundo a própria companhia.

Se há bacias, aquíferos e reservatórios, a crise deixa de ser apenas meteorológica.

Vira cobrança sobre captação, reservação, interligação, tratamento e distribuição.

A Sanepar anuncia R$ 13,077 bilhões em investimentos para o ciclo 2026-2030, sendo R$ 2,6 bilhões em 2026. O número é grande, mas a pergunta política é simples: por que a segurança hídrica ainda chega depois da emergência?

O consumidor sente a resposta no bolso.

Em fevereiro de 2026, a Sanepar comunicou ao mercado que seu Conselho de Administração aprovou o envio de proposta de reajuste tarifário à Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar). A agência define o índice aplicado à tarifa de água e esgoto.

A disputa do precatório também mostrou a lógica em jogo. A Agepar avaliou que recursos deveriam voltar aos consumidores, enquanto a Sanepar defendia usar parte do dinheiro para reforço de caixa, redução de dívida e distribuição de dividendos.

A política da água está aí.

O governo mostra concreto na ponte. A Sanepar mostra lucro no balanço. O consumidor mostra a conta.

O problema não é São Pedro.

É escolha de gestão.

Quando a empresa trata água como ativo financeiro, a estiagem vira gatilho de crise. O risco já estava na falta de obra suficiente, na rede sem folga e na prioridade dada ao acionista antes da segurança da torneira.

Ratinho Junior colhe a fotografia da Ponte de Guaratuba, mas a emergência hídrica devolve o governo ao básico: água tratada, regular e acessível.

Sem isso, a obra no litoral vira vitrine cercada por torneiras secas.

A crise hídrica do Paraná cobra investimento, transparência e uma Sanepar menos voltada ao dividendo e mais presa ao serviço público.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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