A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos depois da derrota na eleição presidencial acelerou um movimento dentro das Forças Armadas: integrantes da chamada “família militar” passaram a apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como herdeiro político do bolsonarismo. A informação é de relatos publicados pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (2), com base em entrevistas de oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica sob anonimato.
Segundo esses relatos, a saída do país sem reconhecer a derrota nem dar satisfação aos eleitores foi tratada como “abandono de tropa”. Um oficial-general que atuou no Congresso Nacional e em diferentes governos disse que o gesto corresponde ao do comandante que abandona sua tropa, atitude considerada imperdoável para um militar. Outro oficial afirmou que a indignação não é política, mas de valores como caráter, honra e lealdade.
Um ex-comandante de Força resumiu o sentimento com uma frase: “Menos Janja, mais Alckmin. Menos Bolsonaro, mais Tarcísio”. A avaliação é que Tarcísio reúne o perfil conservador da “família militar” e a experiência de quem serviu a três governos diferentes.
Tarcísio é capitão da reserva do Exército. Formou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), e atuou em uma companhia de engenharia na Minustah, a missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti. Oficiais lembram que ele deixou a farda pela porta da frente, por concurso público, enquanto Jair Bolsonaro saiu pela porta dos fundos.
O governador já era o nome favorito dos militares para uma candidatura presidencial. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, disse que considera tentar o Palácio do Planalto ao fim do novo mandato, em 2030. Também elogiou o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, benquisto na caserna pelo trabalho de pacificação das relações civis-militares.
Tarcísio comandou o estado mais rico e populoso do país e é apontado pelos entrevistados como o político mais alinhado aos valores conservadores da “família militar”. A avaliação é que ele reúne o perfil ideológico do grupo e a experiência de gestão necessária para um voo presidencial.
A adesão ocorre apesar do antipetismo que domina a caserna. Integrantes das Forças Armadas votaram em peso em Flávio Bolsonaro no segundo turno, como já tinham votado em Jair Bolsonaro em 2022. Mesmo oficiais que reconhecem os dois primeiros mandatos de Lula como o melhor momento orçamentário das Forças Armadas no passado recente escolheram o candidato do PL.
Em 2022, Jair Bolsonaro deixou o país sem reconhecer a derrota, e muitos militares criticaram o gesto. Quatro anos depois, a “família militar” voltou a votar no candidato do PL, até porque o adversário era Lula e o antipetismo segue inabalável na caserna. A diferença é que a nova fuga e a carta golpista ampliaram a decepção entre os fardados.
O número de militares e policiais de forças de segurança eleitos em 2026 cresceu e retomou o nível recorde atingido no governo Bolsonaro, segundo a Folha. A militarização da política segue como realidade, mesmo com os atuais comandos tentando coibir manifestações políticas de militares da ativa.
A revolta com o Supremo Tribunal Federal (STF) também pesa. Dos 29 condenados na trama golpista, 21 são militares. Uma queixa recorrente é a de que o 8 de Janeiro não teria sido uma tentativa de golpe, mas uma “baderna”. Outra é a dosimetria das penas, considerada excessiva mesmo por oficiais que defendem punição aos colegas envolvidos.
Tarcísio ainda evita confrontar publicamente o padrinho político. Militares apostam que o rompimento se dará no próximo ciclo eleitoral. A avaliação é que os radicais da “família militar” continuarão com os Bolsonaros, mas a maioria deve aderir ao governador de São Paulo se a cisão se concretizar.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que obriga militares da ativa a irem para a reserva ao registrarem candidatura continua parada no Congresso Nacional. A proposta tem forte resistência na caserna.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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