Roberto Amaral: A vitória das urnas e a nova hegemonia

Por Roberto Amaral*

Na vigésima quinta hora, o Brasil se salvou.

Salvou-se (uma segunda vez) das ameaças do neofascismo, entre nós entreguista e profundamente corrupto, pois essas são as características da famiglia que por muito pouco não recuperaria a locação do Palácio do Planalto.

Trata-se de uma súcia politicamente primária e geneticamente corrompida. Seu representante no pleito é investigado pela polícia, acusado de laços com a delinquência: sua “folha corrida” registra desde as “rachadinhas” de salários com funcionários de seu gabinete parlamentar à suspeita de ligação com milícias, e matadores de aluguel, lavagem de dinheiro em casas de apostas, crimes financeiros, crimes contra a administração pública e associação com o gangster que operava a partir do Banco Master, uma azeitada empresa voltada à corrupção, nas barbas do Banco Central.

E ainda precisará explicar como um advogado sem causas comprou em Brasília uma mansão avaliada em 6 milhões de reais.

Uma súcia de delinquentes bem sucedidos, porque aqui beneficiados pela comprometida tolerância dos poderes que deveriam cuidar das leis: o Congresso e o Poder Judiciário, ativos na proteção do andar de cima.

Há, pois, o que comemorar. Mas não podemos jogar para debaixo do tapete a consciência de que no pleito recém encerrado, o representante do chorume da política – agora um covarde foragido da polícia– só na undécima hora foi impedido de instalar-se no Palácio do Planalto.

Quando as instituições pareciam inertes, os partidos políticos sem vez e sem voz, o movimento sindical silente, a Nação, em movimento de autêntica autodefesa, acordou, e de pé passou a comandar o processo social, dando ao pleito a etiqueta de fato histórico.

O que se viu, o que vimos e o que vivemos nos últimos 10-15 dias do pleito encerrado no dia 25, não foi obra de partidos, os quais, aliás, se revelaram incapazes de entender o processo político.

Refiro-me, claramente, às siglas que compõem a frente de centro-esquerda, de uma forma e de outra jungidas pelo garrote do partido majoritário, tropeçando na dificuldade de subordinar o tático ao estratégico (para não antecipar uma discussão que no entanto precisa ser feita, reflitamos sobre os erros cometidos no primeiro turno em São Paulo, Minas, Rio Janeiro e Rio Grande do Sul, quatro Estados que somam 45% do eleitorado nacional e 57% do PIB).

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O PT, o maior e mais importante partido de nosso campo, a quem tanto devem a democracia e o processo social, dá sinais de fadiga, e corre o risco de perder-se sob a doença senil do burocratismo, a que sucumbiram outras organizações de nosso campo, igualmente relevantes, como o PCI e o PCF, deixando tanto italianos quanto franceses à míngua de um projeto que nos tempos de hoje possa sugerir a retomada do avanço das grandes massas, reacendendo a utopia socialista.

Mas, lamentavelmente, este não é o único desafio: o PT e a esquerda em geral têm pouco tempo para cuidar da sucessão de Lula, e todos sabemos que a construção de uma liderança próxima de sua relevância requer maturação, e acima de tudo está condicionada ao processo social.

O mundo mudou, e mudou o Brasil, que não mais se recorda das históricas jornadas das greves do ABC, que não tem notícia dos comícios da Vila Euclides. Vivemos sob o avanço da internacional neofascista que avança sobre o chamado Ocidente, esta fantasia em que vivemos. Seu castelo forte são os EUA, ainda a maior economia do mundo. Sob seu comando a mancha sinistra se alastra na América do Sul.
Somos o dique político que a contém.

Sentindo-se desamparado, acicatado pela iminência de uma hecatombe política – a emergência de um passado torpe impedindo a promessa de futuro – o Brasil reagiu.

Este é o grande fato novo da política brasileira. A vitória que a Nação comemora foi uma conquista do que há de mais belo na democracia: o povo nas ruas, desta feita sob o chamado da juventude, numa mobilização cívica que nos lembra os idos das passeatas de 1968 e a campanha das Diretas Já (1983-1984), mas superando-as em muito, não só pelas multidões reunidas, não só por haver percorrido praticamente todo o território nacional, mas, certamente, pela sua espontaneidade.

O levante que empolgou o país, acordando-o, alterou a qualidade política do pleito e foi decisivo para o resultado eleitoral; não atendeu ao chamamento de partidos ou de organizações fora do meio estudantil; não careceu, sequer, do chamamento de nosso candidato, e de recursos quaisquer, logísticos ou não.

Reputo a emergência dos jovens, acordando as vontades adormecidas pelos nossos erros na campanha do primeiro turno, como o fenômeno político mais importante de nossa República, desde a queda da ditadura.

E o mais alvissareiro se revela na intrínseca promessa de futuro com que nos acena o caráter de fenômeno de profundo significado pedagógico, e cujos efeitos caminharão para muito além do dia 25 passado. Se tivermos competência para estimular a continuidade da mobilização daquele fenômeno que meu saudoso amigo Arthur José Poerner bem denominou de “poder jovem”.

Colhidas as flores, tratemos dos muitos desafios.

A Faria Lima e os especuladores da Bolsa de Valores reagiram de imediato. A FSP, já no dia 27, gritaria: “Bolsa cai 14% e dólar e juros futuros despencam depois da reeleição de Lula”. Depois do “aviso”, o “mercado” passa a dar as ordens anunciando, pelos jornalões de praxe, o que deve ser a política econômica do próximo governo, e mesmo dita o que deve ser o perfil dos novos ministros.

À resistência e às pressões das Faria Lima de todo o país, soma-se o quadro hostil representado pela configuração do novo Congresso, e a penca de governos estaduais, os mais ricos, entregues à direita.

O caminho já foi dado pelas ruas, quando alteraram o percurso do pleito. Para tal precisamos construir e levar a cabo um programa de governo que caminhe muito além da conciliação pela conciliação, quadro de hoje, que abandone o retrovisor, e finalmente promova, mediante amplo debate com a sociedade e o povo nas ruas, as reformas estruturais que esqueceu, embora continuem indispensáveis e prementes. Precisa avançar politicamente na construção de uma nova hegemonia, a direção política do país como resultado de uma nova maioria.

O trumpismo de há muito já nos disse o que dele se deve esperar. Nada de novo quando, repetindo irresponsavelmente as aleivosias e as deslavadas mentiras do candidato derrotado, argui descosidas suspeitas sobre a legitimidade do pleito brasileiro, logo ele que manipula o frágil e anacrônico sistema eleitoral norte-americano, para tentar escapar de provável derrota nas eleições parlamentares de novembro próximo.

Associado ao pulha que governa a Argentina, engendrou a rota de fuga de seu pupilo brasileiro, que, para não faltar à sua gênese, fugiu para Miami (onde foi recebido “com serviço VIP”) em um jato de luxo da empresa argentina Baires Fly, segundo a FSP envolvida em escândalo de corrupção e lavagem de dinheiro no governo Milei.

Assim, o país que já ousou apresentar-se ao mundo como um baluarte da democracia, exemplo a ser imitado, se transforma em valhacouto de bandidos que assestam suas armas contra a ordem constitucional de seus países.

O Brasil provou ao mundo – e em particular ao povo estadunidense, que vai às urnas em novembro – que é possível derrotar a extrema direita no voto, detendo a metástase fascista.

Este artigo foi publicado originalmente no site de Carta Capital em 30/10/2026.

*Roberto Amaral foi presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula. É autor do livro História do presente – conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle).

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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