Abrigo a Flávio Bolsonaro vira crise doméstica para Trump

A decisão de Donald Trump de viabilizar a saída e o abrigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos Estados Unidos virou foco de crise política em Washington. Cobrado por redes de televisão e pelo Partido Democrata, o presidente republicano viu o episódio ser tratado pela imprensa americana como escândalo, e não como caso de refúgio humanitário. O senador brasileiro aparece nas reportagens como foragido da Justiça que desobedeceu ordens do Supremo Tribunal Federal (STF).

O cálculo eleitoral é o que explica a dimensão do problema. Os Estados Unidos votam em 3 de novembro, e a eleição de meio de mandato define a maioria do Congresso. Se perder o controle das duas casas, Trump passa os dois últimos anos de mandato sem margem para aprovar projetos e vira alvo permanente de investigação parlamentar. A imagem de um aliado estrangeiro foragido sendo acomodado em solo americano às vésperas da votação entrega aos democratas um argumento pronto.

A cobertura da imprensa americana seguiu outro caminho. Em vez de discutir a condição jurídica do senador brasileiro, os veículos trataram o caso como decisão pessoal do presidente. A pergunta que se impôs foi quem autorizou a operação, quem pagou pelo transporte e por que a Casa Branca se envolveu em um processo judicial de outro país.

O calendário agrava o desgaste. O episódio ocorre a menos de uma semana da votação, quando o noticiário político já está dominado pela disputa congressional. Casos de imigração costumam mobilizar a base eleitoral dos dois partidos, e o governo Trump construiu parte do discurso eleitoral justamente sobre o controle de fronteiras e a expulsão de estrangeiros sem documentação.

A contradição é evidente: o mesmo governo que promete rigor contra imigrantes irregulares abrigou um político estrangeiro que deixou o próprio país para não cumprir decisão judicial. Não se trata de comparar situações jurídicas diferentes, mas de reconhecer o custo político de explicar as duas coisas ao mesmo eleitor.

Não há confirmação oficial sobre os termos da autorização de permanência do senador. O registro citado em reportagens indica admissão por um ano em categoria humanitária, o que não equivale a asilo e não encerra o processo brasileiro. A concessão de asilo é decisão discricionária do Executivo americano e depende de análise do Departamento de Estado e do Departamento de Justiça.

O caso também produz efeito na relação bilateral. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, acertaram um novo encontro antes da cúpula do Grupo dos 20 (G20), marcada para dezembro, em conversa durante a recepção de abertura de um encontro em Atlanta, nos Estados Unidos. A conversa ocorre em meio à tensão aberta pela fuga do senador e pelo tarifaço que os Estados Unidos mantêm sobre produtos brasileiros.

Para o governo brasileiro, o encontro serve para separar dois assuntos que a fuga do senador embaralhou: a cooperação jurídica e a negociação comercial. Para a Casa Branca, o tema é desconfortável em qualquer mesa. O Brasil tem interesse em manter o canal aberto, mas não pode aceitar que a saída de um investigado seja tratada como assunto resolvido.

A leitura mais provável é que Trump não recue. Ceder à pressão significaria devolver o senador a um processo que ele mesmo classificou como perseguição política, e o custo junto à base bolsonarista seria imediato. O caminho mais seguro para o governo é o silêncio sobre o mérito e a transferência do debate para o terreno da imigração, onde o discurso está pronto.

O senador, por sua vez, aposta no oposto. Quanto mais o caso se arrastar, maior a chance de o abrigo se consolidar como fato consumado e de a discussão sobre extradição perder urgência. A aposta depende de um cálculo que não está sob seu controle: o resultado das eleições americanas e a disposição de Trump de pagar o preço.

O Paraná observa o desenlace de longe, mas com interesse direto. A fronteira usada na fuga é a mesma que sustenta o comércio com a Argentina e o Paraguai, e a instabilidade na relação com os Estados Unidos afeta cadeias produtivas do oeste e do sudoeste do estado. Acompanhe a cobertura no Blog do Esmael.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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