Um relato publicado na imprensa argentina na madrugada deste domingo, 1º de novembro, descreve um agente da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) da Argentina como articulador da saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil com destino aos Estados Unidos. Segundo o texto, o agente serviu de nexo entre a Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA) argentina, a custódia brasileira e o governo americano. O espião, ainda conforme o relato, havia trabalhado na embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires.
O mesmo texto atribui papel ao assessor presidencial Santiago Caputo, um dos homens de confiança de Javier Milei, e afirma que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, se desmarcou da operação para não entrar em choque com Lula. A descrição foi publicada com assinatura de repórter e crédito a fontes que o jornal não identifica.
A versão contraria o que Rubio disse em Atlanta, nos Estados Unidos, na tarde de sábado, 31 de outubro. O secretário negou que o governo americano tivesse ajudado o senador a deixar o Brasil: “Não facilitamos nada”. Afirmou que os Estados Unidos souberam da chegada e que a entrada foi autorizada porque o senador tinha visto anterior.
A contradição tem consequência em Brasília e em Buenos Aires. O Itamaraty convocou a Argentina a explicar a passagem do senador por território argentino, e a crise entre os dois países chegou ao ponto mais alto desde a posse de Milei. O governo brasileiro trata o episódio como assunto de segurança de Estado, não como incidente consular.
O Blog do Esmael publicou em 31 de outubro que a rota passou por Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, e que a família atravessou a fronteira por terra antes de embarcar em Puerto Iguazú. O deslocamento até a fronteira teria sido feito em cerca de 1,6 mil quilômetros entre Brasília e Foz do Iguaçu, porque o dono da aeronave alugada para o trecho aéreo recusou o contrato depois que a imprensa noticiou a ordem de recolhimento dos passaportes.
Também está documentado o que sustentou a operação: a van branca com vidros escurecidos filmada chegando ao aeroporto argentino pouco antes da meia-noite de terça-feira, 27 de outubro, o jato de matrícula LV-JQW decolando em seguida para Miami e a ausência dos passaportes entregues ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O que o relato argentino não entrega é prova. Não há documento anexado, não há identificação do agente, não há confirmação de Brasília, de Buenos Aires ou de Washington. A defesa do senador não se manifestou sobre a descrição. Um relato de fonte única, publicado sem lastro documental, não muda o status do caso: continua sendo a palavra de um jornal contra a versão oficial de dois governos.
Se a descrição se confirmar, o enquadramento muda. A saída de Flávio Bolsonaro deixa de ser a fuga improvisada de uma família apressada e passa a ser lida como operação com coordenação estrangeira, o que amplia o custo político para Milei e transforma a Argentina em parte do caso, não em cenário.
Do lado americano, o tema já chegou ao Congresso. Um grupo de parlamentares democratas protocolou pedido formal de explicações sobre o uso de canais do governo e a atuação de assessores próximos à Casa Branca, com prazo de resposta até 13 de novembro. A eleição de meio de mandato nos Estados Unidos ocorre em 3 de novembro e define o poder de investigação do Legislativo a partir de 2027.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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