Da esperança de ascensão social à crise política — 2000-2016
Por Fernando Nogueira da Costa*
Em um bar, na Avenida Paulista tomada por uma multidão vestida de vermelho, empunhando bandeiras brasileiras e cartazes em defesa da democracia e da reeleição de Lula, um ex-professor encontra com ex-alunos de diversas gerações.
O ex-aluno da Geração Y, nascido em 1988, levantou seu copo.
— Professor, minha geração cresceu ouvindo a recomendação de ser suficiente estudar, trabalhar e empreender para vencer na vida.
— E descobriu depois o sucesso individual depender também das oportunidades coletivas!
— Quando Lula venceu a eleição de 2002, eu tinha catorze anos. Lembro da emoção da minha família.
O professor sorriu.
— Para quem havia acompanhado as greves do ABC, a criação do PT e as derrotas eleitorais anteriores, a chegada de um ex-operário imigrante nordestino à Presidência tinha enorme significado histórico.
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— Mas ele não fez uma revolução socialista.
— Nem havia sido eleito para isso. Governou por meio de alianças, dentro das instituições democráticas, buscando combinar crescimento econômico, estabilidade inflacionária e inclusão social.
— Uma inovação social-desenvolvimentista?
— Sim. Uma experiência de conciliação entre interesses sociais distintos, com políticas públicas capazes de ampliar oportunidades para milhões de brasileiros.
O Millennial começou a enumerar:
— Bolsa Família, valorização do salário mínimo, expansão do emprego formal, crédito popular…
— E também ProUni, FIES, universidades federais, institutos técnicos, Luz para Todos, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos e a consolidação do SUS (Sistema Único de Saúde) e do SUAS (Sistema Único de Assistência Social), duas grandes políticas públicas brasileiras de proteção social, mas com focos diferentes.
— Conhecemos muitas pessoas com a sorte de serem as primeiras de suas famílias a entrar na universidade e a competência de se graduarem.
— Eis uma das mudanças mais importantes! A universidade deixou de ser, em parte, um espaço reservado aos filhos das camadas sociais mais favorecidas. Mudou a cor de seus alunos! Raça humana só existe uma: a dos descendentes do Homo sapiens.
— Mas a desigualdade e o racismo ainda não desapareceram.
— Evidentemente. Políticas de inclusão reduzem privações e ampliam oportunidades, mas não eliminam automaticamente a concentração patrimonial, as desigualdades regionais e a dependência tecnológica. É possível eliminar a pobreza absoluta, mas é quase impossível eliminar a pobreza relativa, isto é, a desigualdade entre seres humanos.
O X interrompeu:
— E a crise financeira mundial de 2008?
— Demonstrou os mercados financeiros não se autorregularem sozinhos. Quando bancos e grandes empresas ameaçaram quebrar, até os empresários neoliberais defensores do livre mercado recorreram ao Estado.
— Privatizavam os lucros e socializavam os prejuízos? — perguntou o Millennial.
— Em muitos casos, sim. É curioso: quando o Estado socorre bancos, a imprensa neoliberal chama isso de estabilidade sistêmica. Quando socorre pobres, criticam como fosse populismo!
O grupo gargalhou.
O Millennial retomou a conversa:
— Mas depois vieram as manifestações de junho de 2013. Começaram com a tarifa dos transportes e terminaram com uma indignação generalizada.
— Junho de 2013 revelou uma sociedade mais exigente, conectada e contraditória. Havia demandas legítimas por transporte, saúde, educação e representação política. Mas a mobilização também abriu espaço para discursos antipartidários e forças conservadoras. A direita perdeu a vergonha e saiu do armário onde tinha se metido desde o fim da ditadura.
— O grito era “sem partido”! A estética black bloc com as roupas pretas, lenços cobrindo o rosto e óculos de proteção marcaram a ala de ação direta contra o patrimônio corporativo e oposição física às forças policiais.
— Como se fosse possível construir uma democracia representativa sem organizações políticas. Partidos podem e devem ser criticados, renovados e fiscalizados. Mas a rejeição indiscriminada à política pode favorecer lideranças autoritárias de extrema-direita, como de fato ocorreu.
O jovem Z perguntou:
— A internet ajudou a organizar os protestos?
— Muito. Mas também acelerou a circulação de falsa indignação, boatos e simplificações ingênuas. A comunicação digital ampliou a capacidade de mobilização sem garantir a qualidade da deliberação coletiva.
O Millennial ficou pensativo.
— Depois vieram a Lava Jato, a recessão econômica, o agravamento da polarização e o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Na verdade, foi um golpe!
— Foi um processo pressuposto parlamentarista em um regime presidencialista. Seus defensores invocaram fundamentos jurídicos como fosse uma troca de “primeiro-ministro” por não dispor mais de maioria no Congresso Nacional. Seus críticos o interpretaram como uma ruptura política da legitimidade conferida pelas urnas, sem crime de responsabilidade suficientemente demonstrado.
— O senhor se posicionou contra.
— Claramente. Considerava indispensável respeitar o resultado eleitoral e resolver conflitos políticos dentro de parâmetros constitucionais consistentes.
O Millennial suspirou.
— Minha geração conheceu a esperança da ascensão social e depois a insegurança de retrocesso com uma crise econômica e política prolongada.
— E aprendeu uma lição importante: avanços sociais podem ser interrompidos. Não basta conquistar direitos. É preciso construir instituições, coalizões e condições econômicas capazes de sustentá-los.
— Professor, então a política é mais difícil se comparada à aplicação da teoria econômica?
— Muito! Na teoria, você muda uma hipótese e obtém outro resultado. Na política, se muda um ministro, arruma logo três adversários, dois aliados desconfiados e uma crise no Congresso!
Moral da estória: O desenvolvimento social resulta da interação entre crescimento econômico, políticas públicas, instituições e mobilização coletiva. A inclusão social pode fortalecer a democracia, mas sua continuidade exige negociação política, capacidade estatal e legitimidade institucional.
Publicação de: Viomundo
