DC vira consórcio de Moro e Ratinho no Paraná

A Democracia Cristã (DC) mudou de comando no Paraná em 15 de julho, retirou do empresário Tony Garcia o controle político de uma pré-candidatura criada para confrontar Sergio Moro (PL) e instalou uma direção que reúne uma prefeita ligada ao governador Ratinho Junior (PSD) com dois aliados públicos do senador. O arranjo transforma a legenda em espaço compartilhado por grupos que disputam o Palácio Iguaçu e abre uma guerra pelo destino da sigla nas convenções eleitorais.

A certidão da Justiça Eleitoral mostra que o novo órgão estadual provisório terá vigência até 14 de julho de 2027. A prefeita de Clevelândia, Rafaela Martins Losi, assumiu a presidência. Fábio Aguayo ficou como primeiro-secretário, enquanto o advogado Jorge Augusto Derviche Casagrande ocupa a primeira vice-presidência.

Rafaela Losi foi reeleita prefeita de Clevelândia pelo PSD em 2024. A entrada na DC representa, portanto, uma migração para fora do partido comandado no Paraná por Ratinho Junior.

Segundo apuração do Blog do Esmael, porém, a mudança ocorreu com a anuência do governador. A prefeita mantém relação política com o grupo governista e com o ex-secretário estadual Guto Silva, liderança do Sudoeste que chegou a disputar internamente a condição de sucessor de Ratinho, mas perdeu espaço na escolha do PSD.

Guto Silva construiu sua base eleitoral em Pato Branco e comandou as secretarias estaduais do Planejamento e das Cidades. Durante sua passagem pelo governo, assinou com Rafaela Losi instrumentos administrativos destinados a projetos de Clevelândia, o que documenta a interlocução institucional entre os dois políticos.

O outro lado da nova direção partidária conduz diretamente ao gabinete de Moro.

Fábio Aguayo aparece na relação oficial de servidores comissionados do escritório de apoio do senador em Curitiba. Em 2026, ele continua registrado pelo Senado Federal como auxiliar parlamentar pleno de Sergio Moro.

Casagrande também já declarou publicamente seu alinhamento político com Moro. Em texto publicado antes da mudança no diretório, o advogado afirmou que ele e Aguayo eram conhecidos pela “aliança e alinhamento político” com o senador e anunciou que ambos passariam a integrar a DC.

A nominata registrada na Justiça Eleitoral confirma, assim, a convivência formal de representantes dos dois campos dentro do comando estadual. Isso não prova um acordo eleitoral assinado entre Ratinho Junior e Sergio Moro, mas fornece base objetiva para a leitura de um consórcio informal na administração da legenda.

A composição ganha peso porque substitui o projeto conduzido por Ricardo Gomyde. O ex-presidente estadual havia articulado a filiação de Tony Garcia e a construção de uma pré-candidatura ao governo com discurso frontalmente contrário a Moro.

Tony afirmou que pretendia usar a campanha para “escrutinar” a atuação do ex-juiz na Operação Lava Jato. Sua presença nos debates criaria um problema específico para Moro: o senador teria de dividir o palco com um antigo colaborador judicial que passou a acusá-lo de irregularidades. As acusações de Tony são contestadas por Moro e não podem ser tratadas como fatos comprovados.

A troca do diretório reduz, ao menos temporariamente, o espaço de Tony Garcia dentro da DC. Também elimina Gomyde do centro das decisões sobre candidaturas, coligações e distribuição da estrutura partidária.

Para o grupo de Moro, o resultado imediato é favorável. Aguayo e Casagrande ganham cargos formais, enquanto a pré-candidatura dedicada a atacar o senador perde o controle da legenda.

Para Ratinho Junior, Rafaela Losi assegura uma representante de sua esfera política na presidência estadual. A prefeita poderá influenciar a convocação da convenção, a composição das chapas proporcionais e a decisão sobre eventual apoio ao governo.

O ponto de tensão está justamente nessa divisão. Moro e Ratinho enfrentam interesses incompatíveis na eleição estadual. O senador pretende disputar o Palácio Iguaçu, enquanto o governador trabalha para eleger um sucessor de seu grupo. Controlar a DC pode significar agregar apoio político, candidaturas proporcionais, presença regional e capacidade de negociação.

A nova direção precisará decidir se mantém Tony Garcia como pré-candidato, se apoia Moro, se acompanha o nome escolhido pelo PSD ou se adota uma posição independente. Cada alternativa beneficia um grupo e prejudica o outro.

O prazo para essa convivência é curto. As convenções partidárias das eleições de 2026 ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto, período em que as siglas escolhem oficialmente candidaturas e definem coligações para os cargos majoritários.

A DC virou uma espécie de condomínio político entre adversários. A certidão registra quem recebeu as chaves. A convenção mostrará quem conseguirá mandar na casa.

Acompanhe no Blog do Esmael os bastidores da disputa pelo governo do Paraná e das eleições de 2026.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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