Gleisi reivindica o Paraná para ampliar voto ao Senado

A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) abriu uma nova fase de sua pré-campanha ao Senado com uma peça destinada a enfrentar uma vulnerabilidade eleitoral concreta: a distância entre sua projeção nacional e a identificação direta com o Paraná. Em vídeo publicado nas redes sociais, a petista se apresenta como “filha desta terra” e adota a expressão consagrada pela música “Bicho do Paraná”, de João Lopes.

“Eu sou filha dessa terra, sou bicho do Paraná”, afirma Gleisi na gravação. A deputada também sustenta que trabalhou em Brasília para garantir investimentos nos 399 municípios paranaenses e anuncia que pretende fazer mais pelo estado como senadora. A mensagem troca o debate nacional por uma apresentação biográfica, territorial e municipalista.

A referência a João Lopes não foi escolhida ao acaso. A canção “Bicho do Paraná” tornou-se uma espécie de hino informal do estado ao associar pertencimento regional, vida no interior e orgulho paranaense. Gleisi tenta incorporar esse símbolo à campanha para reduzir a imagem de dirigente ligada principalmente a Brasília, ao governo Lula e às disputas nacionais do Partido dos Trabalhadores (PT).

A publicação não representa o lançamento da pré-candidatura, formalmente apresentada em ato político realizado em Curitiba em 30 de maio. A peça marca uma mudança de linguagem: sai a dirigente nacional do PT, ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais e ex-presidente do partido; entra a candidata que reivindica nascimento, trajetória e entregas vinculadas ao Paraná.

O movimento coincide com uma etapa decisiva do calendário eleitoral. Desde 5 de julho, pré-candidatos podem realizar propaganda intrapartidária voltada às convenções, programadas entre 20 de julho e 5 de agosto. Essa publicidade deve ser dirigida aos participantes do processo interno dos partidos. Nas redes sociais, a legislação permite mencionar a pré-candidatura, apresentar projetos e exaltar qualidades pessoais, desde que não exista pedido explícito de voto.

A leitura política da peça está nos números da pesquisa Vox Brasil divulgada em 3 de julho. Alvaro Dias (MDB) lidera a disputa ao Senado com 40,2% das intenções consolidadas. Gleisi aparece numericamente em segundo lugar, com 19,1%, seguida por Deltan Dallagnol (Novo), com 15,4%, e Filipe Barros (PL-PR), com 12,8%. Como o Paraná elegerá dois senadores, cada entrevistado pôde indicar até dois nomes.

A vantagem numérica de Gleisi na disputa pela segunda cadeira convive com um obstáculo: 40,2% dos entrevistados declararam que não votariam nela de maneira alguma. A margem de erro de 2,2 pontos percentuais também mantém a petista e Deltan em faixas sobrepostas. A campanha precisa, portanto, preservar o eleitorado de esquerda e conquistar um segundo voto fora da base tradicional do PT.

É nesse ponto que o “Bicho do Paraná” ganha função eleitoral. A peça não tenta convencer o eleitor sobre uma votação no Congresso ou uma controvérsia nacional. Ela apresenta Gleisi como uma política vinculada aos municípios, às obras federais e à identidade cultural do estado. O objetivo é transformar atuação institucional em pertencimento local.

A estratégia também dialoga com a agenda percorrida pela deputada depois de deixar o governo federal. Gleisi passou a acompanhar entregas de programas e obras financiadas pelo governo Lula, pelos ministérios e pela Itaipu Binacional. A presença ao lado de prefeitos permite apresentar recursos federais como resultado de sua capacidade de articulação em Brasília.

Essa narrativa será confrontada pelos adversários. A direita deverá explorar a rejeição ao PT e a identificação de Gleisi com Lula. A petista, por sua vez, tentará converter essa proximidade em obras, moradias, unidades de saúde, infraestrutura e dinheiro transferido aos municípios. O conflito da campanha será menos abstrato do que parece: de um lado, a rejeição ideológica; do outro, a entrega concreta reivindicada pela candidata.

Gleisi começa a disputa posicionada na faixa da segunda vaga, mas sem cadeira assegurada. O vídeo mostra qual será sua primeira resposta ao problema: antes de pedir que o Paraná reconheça sua atuação nacional, a petista quer convencer o eleitor de que nunca deixou de ser um “bicho do Paraná”.

Acompanhe no Blog do Esmael a disputa pelas duas vagas paranaenses no Senado e os movimentos dos principais candidatos nas eleições de 2026.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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