Cinco documentos mostram como auditar a pesquisa Vox

A pesquisa Vox Brasil sobre a eleição do Paraná, divulgada nesta sexta-feira, 3 de julho, ouviu 2.000 eleitores entre 29 de junho e 1º de julho, declarou margem de erro de 2,2 pontos percentuais e distribuiu as entrevistas por dez mesorregiões. Os percentuais dos candidatos não informam, sozinhos, onde ocorreu a coleta, como os entrevistados foram escolhidos, quem financiou o trabalho ou quais perguntas antecederam cada resposta.

No primeiro cenário para o governo, o relatório registrou Sergio Moro com 39,6%, Requião Filho com 20,8%, Rafael Greca com 17,8% e Sandro Alex com 5%. Tony Garcia marcou 1,8%, Luiz França ficou com 0,8%, os votos brancos ou nulos somaram 6,6% e outros 7,6% não souberam ou não responderam. Esses números são o ponto de partida da leitura, não o encerramento da checagem.

O eleitor consegue realizar uma auditoria documental pelo Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O registro, porém, não representa certificado de qualidade nem aprovação prévia dos resultados. A própria resolução eleitoral informa que a Justiça Eleitoral não controla previamente os números divulgados.

1. O registro identifica quem fez, quem pagou e quanto custou. A pesquisa tem o número PR-09668/2026. O documento informa custo de R$ 50 mil, realização, contratação e pagamento pelo próprio Instituto Vox Brasil. Também registra coleta presencial em domicílios e aponta Guilherme Coelho Neves como estatístico responsável. Esses dados permitem distinguir um levantamento encomendado por campanha, partido, banco ou veículo de outro realizado com recursos próprios do instituto.

O registro também deve ser comparado com o material divulgado. Período de campo, tamanho da amostra, cargos pesquisados, empresa responsável e número do protocolo precisam coincidir. O TSE exige que metodologia, plano amostral, sistema de fiscalização, questionário completo, contratante, pagante e responsável estatístico sejam informados antes da publicação.

2. O questionário revela a ordem, os nomes e os apoios apresentados. A pergunta não é uma embalagem neutra quando altera candidatos, partidos, apoios ou informações políticas entre cenários. O leitor deve conferir quais nomes apareceram em cada disco, se a ordem foi sorteada ou fixa e quais perguntas vieram antes da intenção de voto.

A Vox apresentou cenários sem padrinhos políticos e outros que associaram Sergio Moro a Flávio Bolsonaro, Requião Filho ao presidente Lula e Rafael Greca ou Sandro Alex ao governador Ratinho Junior. A existência dessas simulações não comprova indução, mas impede que seus percentuais sejam tratados como se tivessem sido produzidos pela mesma pergunta dos cenários sem apoios.

A comparação correta deve ocorrer entre perguntas equivalentes. Quando um nome recebe uma informação adicional, o resultado mede também a reação ao apoio informado. Jornalistas, campanhas e usuários de redes precisam reproduzir a redação da pergunta antes de atribuir toda a variação exclusivamente ao candidato.

3. O plano amostral mostra como alguém entrou na pesquisa. A Vox declarou amostragem em vários estágios: sorteio de municípios, bairros ou setores censitários, ruas e residências. Dentro da casa, o critério informado foi entrevistar a primeira pessoa que atendesse a equipe, desde que fosse moradora e eleitora do município. Depois, o instituto declarou controle por sexo, idade, escolaridade e renda.

Esse procedimento exige uma pergunta concreta: quem estava disponível nos domicílios durante os horários de campo? A resposta não invalida automaticamente o levantamento, mas ajuda a avaliar se a seleção domiciliar, combinada com as cotas, representou adequadamente o eleitorado.

O registro afirma ainda que os fatores de ponderação aplicados às variáveis assumiram valor 1. Isso significa que, segundo o documento, não foram utilizados pesos diferentes para corrigir o resultado final. O perfil publicado ficou em 47,2% de homens e 52,8% de mulheres, com faixas de idade, escolaridade e renda próximas das proporções previstas no registro.

Na fiscalização do trabalho de campo, o instituto declarou treinamento de entrevistadores, acompanhamento por coordenadores e verificação posterior de 20% dos questionários. Uma auditoria mais profunda deve procurar registros dessa checagem, preservada a identidade dos eleitores.

4. A lista de municípios, bairros e setores mostra onde a amostra ocorreu. Das 2.000 entrevistas, 676 foram destinadas à mesorregião Metropolitana de Curitiba, 397 ao Norte Central, 245 ao Oeste, 132 ao Centro Oriental e 127 ao Noroeste. As demais regiões receberam entre 60 e 100 entrevistas cada. A concentração regional não configura irregularidade por si mesma; ela precisa ser comparada com a distribuição usada como referência pelo plano amostral.

O detalhe decisivo aparece abaixo da mesorregião. Duas pesquisas podem reservar a mesma quantidade de entrevistas para uma região e escolher combinações muito diferentes de municípios, bairros e setores censitários. Uma coleta concentrada em poucas cidades pode reproduzir mal diferenças entre capital, periferia metropolitana, cidades médias e pequenos municípios.

O registro reproduzido no relatório fixou 4 de julho como data-limite para editar os detalhes de municípios e bairros. Na versão divulgada em 3 de julho, esse campo aparecia como “EM ANEXO”. A resolução determina que, nas eleições estaduais, sejam informados municípios, bairros ou áreas, número de entrevistados por setor censitário e composição demográfica da amostra final.

O procedimento de serviço é consultar novamente o PR-09668/2026 no PesqEle e baixar a complementação. A lista permitirá verificar quantas entrevistas ficaram em Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa e nos demais municípios selecionados, além da distribuição interna por bairros ou áreas.

5. O relatório completo impede que a margem geral seja aplicada a qualquer recorte. A margem declarada de 2,2 pontos percentuais vale para o conjunto das 2.000 entrevistas. Ela não deve ser transferida automaticamente para resultados por mesorregião, idade, renda, religião ou escolaridade.

O Centro Ocidental recebeu 60 entrevistas. Em uma aproximação de amostra aleatória simples, esse tamanho produziria margem máxima próxima de 12,7 pontos percentuais, muito superior aos 2,2 pontos do total estadual. Na Metropolitana de Curitiba, com 676 casos, a aproximação seria de 3,8 pontos. Esses cálculos são apenas ilustrativos, pois o erro efetivo também depende do desenho amostral e dos procedimentos utilizados.

Por isso, diferenças regionais de poucos pontos não podem ser apresentadas como mudanças consolidadas sem informar o tamanho de cada base. Em grupos pequenos, percentuais de 0%, 50% ou 100% podem representar poucas pessoas.

O relatório também imprime “taxa de resposta: 100%” nas tabelas, mas o PDF público consultado não detalha quantas residências recusaram a entrevista ou quantos contatos foram necessários para completar as 2.000 respostas. Sem esse denominador, os 100% podem representar apenas a proporção de questionários válidos entre os casos tabulados, e não ausência de recusas durante o campo.

A auditoria feita pelo eleitor termina nos documentos públicos. O acesso ao sistema interno, às planilhas, aos mapas e a amostras dos questionários pode ser solicitado judicialmente pelo Ministério Público Eleitoral, candidaturas, partidos, coligações ou federações, com preservação da identidade das pessoas entrevistadas.

Antes de compartilhar qualquer gráfico da Vox, o leitor deve conferir o registro PR-09668/2026, abrir o questionário, comparar o plano com a amostra final, localizar os municípios pesquisados e verificar o tamanho das bases regionais. O placar informa quem apareceu na frente; os documentos mostram como esse placar foi produzido.

Clique aqui para ler a íntegra do relatório da Vox Brasil, recorte Paraná.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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