Barros admite Moro e mede dificuldade de Sandro em Curitiba

Ricardo Barros, deputado federal pelo Progressistas do Paraná e articulador da federação União Progressista, abriu nesta segunda-feira (29/6) uma porta que embaralha a sucessão estadual: depois de ajudar a empurrar Sergio Moro para fora do bloco, admitiu que o ex-juiz ainda pode receber apoio no Paraná. A fala atinge diretamente Sandro Alex, candidato de Ratinho Junior ao Palácio Iguaçu, porque Barros localizou o problema no ponto mais sensível da disputa: Curitiba.

“Sem Curitiba não se faz governador”, disse Barros em entrevista à Gazeta do Povo/Tribuna. A frase não é apenas diagnóstico eleitoral. É recado ao Palácio Iguaçu, ao PSD e ao próprio Sandro Alex, que carrega a máquina estadual, mas ainda precisa provar que tem voto urbano próprio na capital e na Região Metropolitana de Curitiba.

Barros foi direto ao ponto ao avaliar a equação governista. Segundo ele, Sandro Alex tem dificuldades em Curitiba e disputará espaço contra três nomes com presença mais reconhecida na capital: Sergio Moro (PL), Rafael Greca (MDB) e Requião Filho (PDT). O cálculo é simples e incômodo para o governo: Sandro vem de Ponta Grossa, foi secretário de Infraestrutura de Ratinho Junior e tenta se apresentar como herdeiro administrativo do atual governador, mas a eleição passa por uma cidade em que obras, tarifa, saúde, escola, segurança e transporte metropolitano pesam mais do que fotografia de palanque.

A contradição política está no próprio Ricardo Barros. O mandachuva do Progressistas ajudou a bloquear Moro dentro da federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas (PP). Agora, o mesmo Barros admite que a federação pode conversar com todos, inclusive com o ex-juiz. O gesto mostra que a saída de Moro da federação resolveu um problema interno de comando, mas não eliminou o peso eleitoral do senador na disputa estadual.

Barros disse que a federação ainda não definiu posição no Paraná e que há correntes favoráveis a Moro, a Ratinho Junior, a Greca e até a candidatura própria, com nomes como Belinati ou Cida Borghetti. Traduzindo do idioma do centrão: ninguém foi descartado porque ninguém ainda mostrou força suficiente para fechar a conta sozinho.

Para Sandro Alex, esse é o dado perigoso. O candidato de Ratinho Junior precisa de uma aliança ampla, mas parte dos aliados não se sente obrigada a entrar no barco sem preço, espaço e viabilidade. Barros afirmou que o grupo de Ratinho preteriu peças políticas que não se submeteram à escolha de Sandro, citando Rafael Greca. A fala atinge o coração da estratégia governista, porque Greca não é apenas um nome do MDB. Ele governou Curitiba, tem recall na capital e ocupa um território eleitoral que Sandro ainda tenta alcançar.

Moro, por sua vez, transforma o paradoxo em vantagem. Foi rejeitado como candidato da federação, migrou para o PL e agora pode ser cortejado pelo mesmo bloco que antes não queria homologá-lo. Barros não entregou apoio, mas reconheceu que Moro passou a dialogar com a classe política de modo mais compatível com o que a federação esperava desde o início. Para quem vendeu a imagem de outsider da Lava Jato, depender do balcão partidário paranaense é uma ironia que a eleição de 2026 não deixará passar barato.

Requião Filho entra nessa conta por outro caminho. Ele não disputa o eleitor conservador de Curitiba nos mesmos termos de Moro e Greca, mas aparece como polo de oposição ao ciclo Ratinho Junior e pode explorar a fragmentação do campo governista. Quanto mais Sandro, Greca e Moro disputarem o mesmo eleitor urbano de centro e direita, mais espaço Requião Filho terá para falar com servidor, trabalhador metropolitano, juventude precarizada e eleitor que associa o governo estadual a pedágio, privatização e serviços caros.

A fala de Barros também desmonta a ideia de que a máquina estadual resolve tudo. Ratinho Junior pode entregar prefeitos, estrutura e tempo político, mas Curitiba cobra presença, memória e proposta. Sandro Alex ainda precisa explicar, com números e compromissos verificáveis, o que fará sobre a tarifa do transporte coletivo, a integração metropolitana, as filas da saúde, a segurança nos bairros, a escola pública e as obras urbanas que afetam a vida cotidiana de quem mora, trabalha ou circula pela capital.

O desafio não é apenas aparecer em Curitiba. É ser reconhecido como alguém capaz de governar Curitiba sem ter governado Curitiba. Greca tem passado administrativo na cidade. Moro tem lembrança nacional e base conservadora. Requião Filho carrega sobrenome político e discurso de oposição. Sandro tem Ratinho Junior, obras e o PSD. A pergunta de Barros é cruel porque organiza a dúvida que os aliados ainda evitavam dizer em voz alta: isso basta?

Ao admitir Moro como hipótese, Barros não trai necessariamente Sandro Alex. Ele apenas faz o que o centrão costuma fazer antes de fechar palanque: mede força, cobra espaço e evita embarcar cedo demais em candidatura que ainda não provou tração na praça decisiva. O problema é que, quando um aliado começa a medir publicamente a fraqueza do candidato governista, a dificuldade deixa de ser bastidor e vira fato político.

No Paraná, a eleição de 2026 deixou de ser uma disputa simples entre máquina estadual e voto de oposição. Virou uma briga de território. Curitiba será o teste de realidade. Quem não tiver resposta para a vida urbana da capital pode ter palanque, partido e padrinho, mas continuará sem a peça que Barros chamou de indispensável para fazer governador.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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