Da Redação
O Viomundo publica nesta terça-feira, 5/5, o primeiro dos dois artigos da série “As razões da guerra na Ucrânia”, escritos pelo documentarista e analista político Tomás Amaral.
Nele, autor discorre sobre o massacre de russos étnicos da região de Donbass pelo regime de Kiev.
No segundo artigo, que publicaremos na sexta-feira, 8 de maio, analisará a expansão da Organização do Tratado do Atlântico (Otan) em direção à Rússia.
Segue a íntegra do primeiro artigo.
O genocídio em Donbass
Já abordamos as razões da guerra na Ucrânia em outro artigo aqui no Viomundo, Síria e Ucrânia, fronts de uma mesma guerra.
A mídia ocidental, porém, continua alimentando narrativas distorcidas. Por isso, resolvemos retomar o tema.
Podemos entender a razão da Operação Militar Especial russa, lançada em fevereiro de 2022, como resposta a duas provocações combinadas dos Estados Unidos: o genocídio da população russa em Donbass e a expansão ilegal da Otan em direção às fronteiras russas.
Estas duas estratégias combinadas estavam a serviço de um objetivo maior, expresso na literatura do governo estadunidense e de seus estrategistas, desde a década de 1990: aniquilar, enfraquecer e fragmentar a Federação Russa.
Donbass: uma Faixa de Gaza na Eurásia
“Donbass” é uma espécie de expressão acrônima russa que significa “bacia do Donets”. O rio Donets nasce no planalto central da Rússia, entra no leste do ex-território da Ucrânia, faz uma curva e volta ao sudoeste russo.
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No entanto, o termo Donbass se refere, desde o século XIX, especificamente à região (no ex-leste da Ucrânia) banhada pelo rio e seus afluentes, onde se situam as províncias (oblasts, em russo) de Donetsk e Lugansk – nas quais estão as cidades homônimas (Donetsk e Lugansk).
No mapa acima, as regiões disputadas por Rússia e Ucrânia, a partir da Operação Militar Especial lançada em 2022: as províncias de Lugansk e Donetsk, que formam a região de Donbass, as províncias de Zaporizhzhia e Kherson, e a província da Crimeia, reincorporada à Rússia em 2014. Foto: Wikimedia Commons
No século XIX, época em que o termo Donbass se popularizou, este território pertencia à Rússia. E o nome Donbass passou a ser utilizado para se referir a esta região que era, industrialmente, a mais avançada do império russo.
Em 1922, Lenin assinou um decreto que anexava Donbass à província da Ucrânia, incorporando também a cidade portuária de Odessa (que está ao sul da Ucrânia, a oeste de Kherson) – construída pelo império russo em 1794 –, para formar uma república, sob a administração da União Soviética.
Lenin teve o intuito de formar uma província soviética equilibrando a economia agrária da antiga província chamada Ucrânia (“terra estrangeira” em russo), ao oeste do rio Dniepre, onde se situa Kiev, com o polo industrial de Donbass, ao leste do Dniepre, onde havia indústrias de ferro e fábricas de carvão.
Em 1991, com a desintegração soviética, manobrada pelos Estados Unidos, a região de Donbass passou a estar separada, pela primeira vez em séculos, do território russo.
Um novo país então se formou: a Ucrânia, uma ex-república soviética, que abrigava cerca de 20% de russos étnicos, nas suas primeiras três décadas de história – até a atual guerra que vem redefinindo suas fronteiras.
Russos e ucranianos são povos irmãos, descendentes principalmente de eslavos (vindos da Europa Oriental), dos vikings (vindos da Escandinávia) e dos magiares (ancestrais dos húngaros, que vieram dos Montes Urais, na Rússia).
A Rússia, devido à sua dimensão continental, abriga evidentemente uma diversidade étnica muito maior, mas pode-se dizer que há uma base cultural e genética comum entre russos e ucranianos, de modo geral.
As próprias línguas russa e ucraniana são próximas, como o português e o espanhol.
Russos étnicos e ucranianos conviviam bem na sociedade ucraniana até a guerra híbrida fabricada em Washington alterar para sempre o destino deste novo país.
No final de 2013, o aparato de guerra híbrida a serviço da Casa Branca, incluindo a CIA, políticos, ONGs, think tanks e a mídia, financiou e dirigiu uma revolução colorida (Euromaidan) que culminou na deposição do presidente ucraniano, Víktor Yanukóvytch.
O objetivo dos Estados Unidos era romper os laços históricos e a integração político-econômica entre os dois países, e poder utilizar a Ucrânia em uma campanha bélica contra a Rússia.
Após o golpe, os Estados Unidos compuseram um novo governo, escolhendo nomes para ocupar os cargos estratégicos.
Em uma gravação telefônica vazada ao público, a então Secretária de Estado Adjunta para Assuntos Europeus e Eurasiáticos, Victoria Nuland, em conversa com o então embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, indica os quadros ucranianos que ela desejava que ocupassem os ministérios no novo governo.
Este novo governo passa a abrigar setores ultranacionalistas e fascistas; dá início a uma política de rompimento diplomático com a Rússia; e proíbe o uso da língua russa nas repartições e instituições do país, provocando uma marginalização e opressão de mais de um quinto de sua população.
Os governos das províncias de Donetsk e Lugansk, assim como o da Crimeia, outra província no então sudoeste da Ucrânia, tentaram resolver diplomaticamente o impasse, mas não conseguiram.
Eles romperam, portanto, com o governo de Kiev, não aceitando a nova legislação fascista e discriminatória, que proibia o uso de sua língua materna.
Os russos étnicos começam a ser oprimidos na Ucrânia, assim como os palestinos na Palestina ocupada.
Imediatamente, o governo de Kiev organiza uma ofensiva militar, com tanques, aviações e milícias para invadir as províncias de Donbass, e também a Crimeia.
Uma guerra civil sangrenta tem início, resultando em mais de 15 mil mortos, entre 2014 e 2022.
Donbass se torna uma Faixa de Gaza na Ucrânia.
Donbass, julho de 2014: Cidadão desconhecido, suspeito de separatismo, é detido e torturado pelo Batalhão Azov, milícia neonazista a serviço do governo ucraniano. Foto: Wikimedia Commons
As tratativas diplomáticas da Rússia
Os governos locais de Donetsk e Lugansk, assim como o da Crimeia, com o apoio pleno de suas populações, travam uma guerra de autodefesa, levantam bandeiras separatistas e, por serem russos, pedem formalmente ao Kremlin uma intervenção para os salvarem de um massacre.
O presidente Vladmir Putin concorda em dar salvaguarda militar e endossa o movimento separatista da Crimeia.
Um plebiscito é realizado pela administração local e com ampla participação popular, no qual mais de 97% da população vota por uma incorporação à Rússia.
A Crimeia havia sido incorporada à república soviética à Ucrânia, em 1954, por um decreto de Nikita Kruschev, que era ucraniano. Até hoje os historiadores desconhecem o motivo deste decreto.
A partir do momento em que a Crimeia é reincorporada à Federação Russa, em 2014, os ataques das forças armadas do regime de Kiev à sua população cessaram.
Pois, se estes continuassem, estariam alvejando a partir de então, diretamente, alvos em território russo, o que provocaria uma resposta. A população da Crimeia foi instantaneamente salva de um massacre.
Ao apoiar o processo de reincorporação da Crimeia à Rússia, além das razões humanitárias e do dever nacionalista de defender russos étnicos, mesmo além de suas atuais fronteiras, o governo russo levou em conta, no xadrez geopolítico, um objetivo estratégico.
Um dos objetivos do golpe de estado perpetrado pelos EUA na Ucrânia era cortar as relações políticas da Ucrânia com a Rússia e privar esta do acesso ao Mar Negro – o que seria uma situação inédita em séculos de história.
A Rússia sempre utilizou os portos em Odessa, no sul da Ucrânia, e em Sebastopol, na Crimeia, para estacionar parte importante de sua frota naval, tanto por motivos de defesa, criando um cordão naval de defesa ao sudoeste, quanto para ter acesso ao Mar Negro, que a conecta com o Mar Mediterrâneo, a Europa, a África e o Oeste Asiático (Oriente Médio).
Mesmo depois do fim da União Soviética, a Rússia continuou tendo acesso a estes portos, por meio de acordos com os governos ucranianos, pagando uma espécie de aluguel para isto; mas a política antirrussa do novo governo de Kiev, a serviço dos EUA, ameaçou cortar o seu acesso milenar ao Mar Negro.
Entendendo o objetivo geopolítico do golpe na Ucrânia, Putin reagiu e interveio para reintegrar a Crimeia à Rússia, livrando a população de um genocídio e garantindo acesso ao porto de Sebastopol, um ativo histórico da Rússia.
Diferentemente da forma como este feito é noticiado pela mídia ocidental, a Rússia não precisou invadir a Crimeia: ela foi formalmente convidada pelo governo local para mediar e salvaguardar o processo separatista.
Foi a própria população da Crimeia que organizou, primeiro, sua resistência militar aos ataques de Kiev; e, depois, um plebiscito para aprovar a sua reintegração à Rússia.
O governo russo só precisou mobilizar suas tropas para transmitir a mensagem ao governo ucraniano de que, se este tentasse intervir no processo separatista, ele reagiria.
O processo de reincorporação da Crimeia se deu por autodeterminação popular, e não por intervenção militar, de fora para dentro.
A única reclamação que o Ocidente poderia fazer é que a Rússia não consultou a ONU para apoiar o processo separatista.
Mas os EUA também não consultaram a ONU para dar um golpe de estado na Ucrânia e nem para financiar uma guerra civil contra russos étnicos, que provocou o processo separatista.
Já no caso de Donetsk e Lugansk, o governo russo não acolhe, num primeiro momento, os apelos das administrações locais por seu apoio a processos separatistas, e opta por uma intervenção diplomática.
Inclusive, Putin chegou a ser criticado por deputados e analistas russos por ter escolhido um caminho legalista, que protelou o enfrentamento direto à Otan.
Outros analistas avaliam que esta estratégia deu tempo à Rússia de se preparar para o confronto, que se revelaria incontornável.
Putin se engaja em uma campanha diplomática que resulta no Acordo de Minsk, assinado em setembro de 2014, na Bielorrússia, com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, François Hollande, convidados por Putin, como observadores signatários que endossavam o pacto.
O acordo estabelecia doze pontos como condições para um cessar-fogo entre o governo de Kiev e as províncias do Donbass.
Entre estes pontos, estava o estabelecimento de um status de autonomia administrativa das províncias, que poderiam ter sua própria legislação – incluindo o uso de sua língua nativa (o russo), sem se separar territorialmente da república ucraniana.
No entanto, assim como Israel nunca respeitou qualquer convenção ou legislação internacional, o governo ucraniano não respeitou este acordo, do qual foi signatário, e continuou bombardeando Donbass.
A continuidade da guerra levou o governo russo a realizar uma nova cúpula em Minsk, na Bielorrússia, estabelecendo o Acordo de Minsk II, em fevereiro de 2015. Novamente, o acordo nunca saiu do papel.
O que estava sendo atacado, em última análise, era a população russa, a língua russa e a cultura russa dentro de um território histórico russo, mas que por um arranjo que se seguiu ao fim da União Soviético, havia se separado da Rússia.
O objetivo do extermínio de russos étnicos na Ucrânia, tal qual o genocídio palestino em Gaza, não era mera casualidade, mas parte de uma estratégia de arrastar a Rússia para uma guerra contra a Otan, usando a Ucrânia.
O governo russo continuou, por oito anos seguidos, fazendo intervenções diplomáticas para tentar por fim ao genocídio em Donbass.
Já a partir de 2014, a guerra civil na Ucrânia, planejada e financiada pelos Estados Unidos e a Europa, torna-se uma guerra por procuração encoberta da Otan contra a Rússia, em território ucraniano.
Em 2022, depois de esgotadas as tratativas diplomáticas, a Rússia lança a sua Operação Militar Especial com o objetivo expresso de interromper o genocídio em Donbass, desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia.
O significado dos termos “desnazificar” e “desmilitarizar” implica desmantelar a estrutura construída pelos investimentos clandestinos da Otan em armas e em batalhões mercenários antirrussos no país vizinho.
Quando a operação é lançada, Putin anuncia que o seu objetivo era liberar o território de Donbass e que não pretendia travar uma guerra contra a Ucrânia. O governo russo calculava que, diante de sua superioridade militar, o governo ucraniano seria obrigado a recuar.
Em março de 2022, uma cúpula para discutir a paz foi realizada nas cidades de Istanbul e Antália, na Turquia, entre representantes dos governos russo e ucraniano.
O governo ucraniano havia concordado com os termos impostos pela Rússia para um cessar-fogo, mas o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, após conversar com representantes da Casa Branca e do Parlamento Europeu, mudou a sua decisão, rechaçou a proposta de paz e declarou guerra à Rússia.
Este é um detalhe importante, pois os que culpam a Rússia pela guerra omitem o fato de que sua Operação Militar Especial não visava empreender uma guerra de longa duração com o regime de Kiev.
O objetivo russo era interromper o genocídio em Donbass e impor um acordo de paz pela força, depois de suas tentativas diplomáticas terem sido sabotadas.
Quem não deixou o governo ucraniano aceitar os termos de paz, que teriam poupado centenas de milhares de vidas, foram os Estados Unidos e a Europa.
A partir de então, Europa e Estados Unidos passaram a fornecer armas e a financiar a guerra por procuração contra a Rússia. O primeiro país a enviar armas à Ucrânia foi a Alemanha.
A guerra já estava planejada há muitos anos, como veremos mais adiante.
Em entrevistas a jornais em 2022, Angela Merkel e François Hollande admitiram, textualmente, que só assinaram os acordos de Minsk para enganar Putin e dar tempo da Ucrânia se armar para uma guerra contra Rússia.
Pelo fato de a Rússia ser, hoje, a maior potência militar do mundo, os países da Otan não tiveram colhões para uma declaração de guerra direta a ela; traçaram, portanto, uma estratégia de guerra por procuração, usando a Ucrânia, para desgastá-la militarmente e isolá-la no sistema financeiro internacional, por meio de sanções.
A mídia ocidental, a serviço do imperialismo estadunidense, inverte o fato e apresenta Putin como o agressor – como um novo Hitler que quer expandir seu império e ameaça tomar toda a Europa.
A direita e a esquerda liberal ocidentais, sempre de mãos dadas com o imperialismo e o eurocentrismo, compartilham do temor e da russofobia.
Os acadêmicos franceses, por exemplo, supostamente de esquerda, que atacam Vladmir Putin são os mesmos que não soltam uma nota de protesto quando o governo de seu país tenta assassinar dezenas de vezes o presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, que lidera a revolução que está tirando as garras do imperialismo francês de seu país.
Muito pelo contrário, quem deu suporte financeiro, tecnológico e militar a Burkina Faso foi o governo de Vladmir Putin.
Em 2023, Putin anunciou que a Rússia estava perdoando mais de US$ 23 bilhões de dívidas de países africanos.
Em 2026, durantes o acirramento do cerco econômico a Cuba, imposto pelo governo de Donald Trump, a Rússia furou o bloqueio naval estadunidense, inúmeras vezes, com petroleiros para abastecer a ilha com milhões de barris de petróleo doados.
Putin foi amigo e parceiro estratégico de esquerdistas como Hugo Chávez e Fidel Castro.
A suposta esquerda eurocêntrica (em todo o ocidente) que reproduz as difamações da mídia ocidental contra Putin é composta por acadêmicos idealistas, que trocam os fatos concretos (ou nem os pesquisam) por divagações teóricas e que dificilmente apoiam algum movimento anti-imperialista no mundo real.
No segundo artigo, analisaremos como a expansão da Otan para o leste integrou a estratégia estadunidense de engendrar um conflito com a Rússia.
*Tomás Amaral é formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ). Atua como documentarista e analista geopolítico.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
Publicação de: Viomundo
