Por Nelice Pompeu*
Não adianta a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) fazer post bonito no 1º de Maio, com homenagem nas redes sociais e discurso sobre a importância de quem faz a educação acontecer, se na prática segue desrespeitando quem sustenta a escola pública todos os dias e o prefeito ainda trata a categoria com ironia.
É contraditório celebrar os trabalhadores da educação enquanto se impõe arrocho salarial, precarização e abandono nas escolas. Se houvesse respeito de verdade, a categoria não estaria em greve.
A greve foi decretada porque o governo ignorou as reivindicações da categoria e respondeu com descaso a uma pauta que vai muito além de salário.
Estamos falando de valorização profissional, condições dignas de trabalho, saúde do servidor, respeito à carreira, concurso público, combate ao assédio, enfrentamento da violência nas escolas e defesa da educação pública.
Seguimos trabalhando sob violência, assédio, sobrecarga e adoecimento.
Vivemos o avanço da precarização, o abandono das condições de trabalho e o desrespeito com quem mantém a rede funcionando.
Somos profissionais da educação, mas nesta gestão estamos sendo tratados como sobreviventes.
A categoria decretou greve por tempo indeterminado em 28 de abril porque o governo apresentou uma proposta inaceitável: 3,51% de reajuste parcelado, sem resposta sobre o retroativo do descongelamento, sem posicionamento sobre o confisco dos aposentados, sem previsão de concurso público, sem chamadas para aprovados que seguem aguardando nomeação e sem medidas concretas para enfrentar o adoecimento e melhorar as condições de trabalho.
Hoje existem duas realidades: a das escolas e a das redes sociais da SME.
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Nas escolas, faltam profissionais, sobram sobrecarga, violência, assédio, adoecimento, arrocho salarial e abandono.
Faltam professores, AVEs (Auxiliares de Vida Escolar) e ATEs (Auxiliares Técnicos de Educação) nas unidades, enquanto os aprovados em concursos públicos seguem aguardando chamadas e a rede continua funcionando no limite. Nas redes sociais da SME, tudo vira marketing, propaganda e tentativa de maquiar a realidade.
A rede real é a das escolas sem estrutura.
A rede real é a dos profissionais adoecidos.
A rede real é a de quem trabalha sem condições, sem reconhecimento e sem valorização.
Não adianta lacrar nas redes falando da importância dos profissionais da educação se, na prática, diretores são afastados de forma arbitrária, professores readaptados têm corte salarial, faltam professores, ATEs e AVEs, as escolas recebem menos recursos, as condições de trabalho pioram, a carreira é desmontada, profissionais em estágio probatório são impedidos de se remover, a aposentadoria é atacada e os salários seguem sem repor a inflação, aumentando o endividamento.
É desumano o que esta gestão faz com os profissionais readaptados. Muitos adoeceram justamente pelas condições de trabalho impostas pela própria rede e, depois de anos de sobrecarga, violência, assédio e desgaste físico e mental, são punidos com redução salarial. A gestão adoece seus trabalhadores e depois penaliza quem adoeceu tentando sobreviver ao próprio trabalho.
Também é grave impedir a remoção de profissionais em estágio probatório, obrigando trabalhadores a permanecerem em locais muitas vezes adoecedores, incompatíveis com sua realidade ou inviáveis para sua permanência. Em vez de garantir condições mínimas de permanência e dignidade, a gestão impõe mais desgaste, mais sofrimento e mais adoecimento.
A escola pública é a escola do filho da classe trabalhadora e, por isso, deveria ser prioridade. Mas o que se vê é abandono.
O que está em curso não é só o desmonte da rede. É o desmonte de uma carreira inteira.
Uma carreira construída com luta, organização e compromisso com a escola pública. Uma carreira que agora está sendo atacada, esvaziada e jogada no ralo por uma gestão que desvaloriza seus profissionais, trata a educação pública com desprezo e responde com ironia a quem exige respeito.
Como se não bastasse o arrocho, o abandono e o desmonte, a SME ainda autorizou a entrada da produtora Brasil Paralelo nas escolas públicas para gravar imagens e produzir conteúdos depreciativos, repletos de distorções e ataques contra a própria escola pública e seus profissionais.
A própria Secretaria abre as portas da escola pública para quem ataca a educação pública, desmoraliza seus profissionais e tenta transformar a realidade das escolas em peça de propaganda ideológica.
Valorização de verdade se faz com salário digno, concurso público, condições de trabalho, respeito à carreira e investimento real na escola pública.
Trabalhador não precisa de homenagem.
Precisa de respeito.
E respeito se prova na prática, não em post de rede social.
Por isso a greve continua.
E a mobilização precisa crescer.
Portanto, quarta-feira,10h, todos em frente à Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na rua Borges Lagora.
*Nelice Pompeu é professora, promotora legal popular e integrante do Movimento Escolas em Luta
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
