Marcelo Zero: Irã, desastre anunciado
Por Marcelo Zero*
Como havia previsto, EUA e Israel atacaram o Irã.
As negociações, que vinham se desenvolvendo publicamente, eram negociações fake, destinadas unicamente a procurar desculpas para justificar o injustificável e ganhar tempo para reunir e articular as forças necessárias para o esforço de guerra conjunto.
A mídia ocidental caiu na historinha montada pelas agências de inteligência dos EUA e de Israel.
Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que essa agressão contra o Irã contraria tanto o direito internacional quanto o direito interno dos EUA, pois a autorização do Congresso estadunidense é necessária para a declaração de uma guerra como essa.
Pela Carta das Nações Unidas, os Estados só têm direito legítimo a atacar um outro país em caso de defesa contra uma ameaça iminente e concreta.
De fato, o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas reconhece o direito inerente à legítima defesa individual ou coletiva, apenas no caso de um ataque armado contra um membro da ONU.
Ora, o Irã, em nenhum momento, ameaçou concretamente os EUA.
Como no caso do Iraque, os EUA usaram o pretexto de uma ameaça fictícia, para “justificarem” o ataque.
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No caso do Iraque, foram as inexistentes armas químicas. No caso do Irã, usou-se o seu programa nuclear para fins pacíficos e seu programa de mísseis.
Ambos esses programas, frise-se, são legais, perante o direito internacional público. O Tratado de Não Proliferação sobre Armas Nucleares (TNP), em particular, assegura que é direito de todos os países desenvolverem programas nucleares para fins pacíficos.
Recorde-se que a polêmica sobre o programa nuclear iraniano poderia ter sido definitivamente sepultada, desde 2010.
Naquele ano, o Brasil e a Turquia, com o encorajamento do então presidente Obama, conseguiram um acordo “histórico” com o Irã.
Tal programa previa o envio de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido iraniano (cerca de 60% do total disponível) para o exterior, e tinha dois efeitos imediatos: a) como o acordo atual, impossibilitava a construção de qualquer artefato nuclear por parte do Irã, pois para isso seria necessário enriquecer a mais de 90% cerca de 2.500 quilos de urânio levemente enriquecido, sendo que os iranianos ficariam com apenas cerca de 800 quilos, e b) abria as portas para uma cooperação pacífica entre o Irã e as potências ocidentais.
Por isso mesmo, o acordo foi bem recebido por quem entendia do assunto. El Baradei, ex-diretor da AIEA, uma das maiores autoridades mundiais no tema, deu pleno apoio ao acordo. A maior parte dos países também.
Aliás, se houvesse uma votação na Assembleia das Nações Unidas sobre o acordo, Brasil e Turquia seriam aclamados.
Diga-se de passagem, a própria Resolução do Conselho de Segurança que impôs, pouco depois, novas sanções ao Irã, em virtude do bombardeio do acordo por parte dos EUA, elogiava o entendimento conseguido por Brasil e Turquia e o considerava uma importante medida para a “construção de confiança”.
O próprio Comandante-em-Chefe da OTAN na Europa, general James Stavridis, afirmou, na época, que o acordo era “um exemplo do que todos buscamos, um sistema diplomático que vise um bom comportamento por parte do regime iraniano”.
Gary Sick, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA durante uma década, considerado um dos maiores especialistas norte-americanos em Irã, afirmou, na época, que “ter o Brasil e a Turquia trabalhando ativamente para desenvolver uma nova abordagem da questão iraniana era uma enorme vantagem para os EUA”.
Essa ação, segundo Gary Sick, tinha “valor incalculável para progressos futuros”. Com o malogro do acordo em razão da oposição dos EUA, Gary Sick lamentou que essa “grande oportunidade tivesse sido perdida”.
O fato concreto é que esse acordo, assim como o JCPOA, obtido posteriormente em 2015, foram sempre bombardeados pelo Deep State, sempre interessado na derrubada do regime iraniano.
Outro fato concreto é que Trump foi convencido por Netanyahu que o regime iraniano, em razão das últimas manifestações públicas internas e do desmantelamento parcial ou total de aliados regionais, como o Hezbollah e o Hamas, está suficientemente enfraquecido para poder ser derrubado com um ataque militar coordenado e massivo.
A estratégia óbvia é assassinar as principais lideranças do regime, inclusive o Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, destruir estruturas críticas, tanto militares quanto civis, e provocar caos econômico e financeiro, de modo a insuflar um levante popular contra o regime e propiciar a instalação de um regime pró-Ocidente, possivelmente liderado pelo filho do ex-ditador Reza Pahlevi, que visitou Israel por diversas vezes, nos últimos meses.
Duvidamos que tal estratégia funcione.
O Irã não é a Venezuela.
Embora enfraquecido, o Irã reúne, entre forças armadas e a Guarda Revolucionária, 530 mil homens na ativa, fora os reservistas, que somam 350 mil. Ao todo são, portanto, cerca de 880 mil homens fortemente armados que poderiam ser mobilizados no curto prazo, mais de sete vezes que as forças do maluquete. Além disso, o Irã dispõe de 40 milhões de homens aptos a combater.
Na realidade, o Irã tem o exército convencional mais poderoso do Grande Oriente Médio. O Irã é a quarta força mundial em termos de lançadores móveis de foguetes e a oitava, no que tange à artilharia convencional. Possui também 1.634 tanques de combate e 165 caças.
Ainda tem, portanto, alguma capacidade de resposta militar, que, embora limitada, pode causar danos de monta em vizinhos que tenham bases militares dos EUA e em Israel.
Além disso, uma tentativa séria de derrubar o regime implicaria “boots on the ground”, uma ocupação terrestre maciça, algo que Trump não estaria disposto a fazer.
Seria um desastre. Um atoleiro muito pior do que o do Iraque.
Considere-se, adicionalmente, que o regime iraniano ainda tem muito apoio nas cidades médias e pequenas e nas zonas rurais e semirrurais. Também tem apoio entre os mais pobres e as gerações mais velhas. A oposição está concentrada em jovens de classe média que habitam os grandes centros urbanos, especialmente a grande área metropolitana de Teerã.
A maior parte da população do Irã é muito avessa a pressões externas, principalmente as vindas dos EUA e de Israel.
Bombardeios, especialmente contra alvos civis, podem ter efeitos contrários aos pretendidos e unificar um apoio ao regime atacado por potências estrangeiras.
Em particular, o assassinato, já confirmado pelo Irã, de Ali Khamenei, considerado um “homem-sagrado” pelos xiitas, pode ter o efeito de unir o povo iraniano, profundamente religioso, em sua maioria. Matar Khamenei é o equivalente, no mundo católico, a assassinar alguém como o Papa.
Mas, se a derrubada do regime iraniano é duvidosa, é certo que a agressão contra o Irã, se prosseguir, levará caos e instabilidade ao Oriente Médio e à ordem internacional.
Do ponto de vista geopolítico, o Irã é um país-chave para o domínio da Eurásia, o supercontinente cujo controle, como já previa Zbigniew Brzezinski no “Grande Tabuleiro de Xadrez”, propiciará hegemonia na ordem mundial.
China e Rússia sabem disso.
A China depende do petróleo e do gás do Irã e vem fazendo pesados investimentos naquele país. Os chineses, em contratos de centenas de bilhões de dólares, conseguiram acesso exclusivo a partes significativas dos campos de gás e óleo do Irã.
Em contrapartida, prometeram investir na infraestrutura energética do país e, mais do que isso, comprometeram-se a defender essas áreas petrolíferas contra agressões estrangeiras, “como se fossem território chinês”.
O acesso a essas jazidas iranianas, complementado por uma rede de gasodutos, permitirá à China amenizar sua dependência energética e é fundamental para a sua estratégia de constituir uma nova rota da seda.
O Irã, por sua vez, poderá bloquear o estreito de Ormuz, por onde passam os grandes petroleiros que vêm do Golfo Pérsico (25% da produção mundial, sem que isso impacte as suas exportações para a China.
Já a Rússia vê o Irã como um parceiro geopolítico muito importante no Oriente Médio. A Rússia, recentemente, aproximou-se muito do Irã. Em uma reunião entre Putin e Khamenei, realizada em novembro de 2021, o mandatário russo afirmou ao líder iraniano que a “Rússia não trairá o Irã”.
Há, portanto, muito em jogo.
Não creio que haverá algum envolvimento militar desses países no conflito. Mas haverá alguma resposta política e geopolítica, que elevará o grande tensionamento já presente no cenário mundial.
Ademais, há de se considerar as repercussões econômicas negativas de um conflito prolongado no Irã, já que esse país detém as terceiras maiores jazidas do mundo de petróleo e gás.
O Brasil, como sempre, reagiu corretamente à agressão contra o Irã. Condenou a violação do Direito Internacional e das soberanias dos países, em plena consonância com a maioria da comunidade internacional.
Há de se observar que o Brasil mantém boas relações com o Irã há décadas.
O Irã é o quinto maior mercado para os produtos agrícolas do Brasil, mesmo com o embargo comercial imposto pelos EUA. O nosso país é o principal fornecedor para o Irã de complexo de soja, milho, açúcar, carne bovina, papel e celulose. Merece ainda destaque a exportação de produtos de confeitaria, resíduos das indústrias alimentares, alimentos para animais e, por fim, veículos aéreos, automóveis, tratores e ciclos.
Pode-se não gostar do regime iraniano, mas violar o Direito Internacional e promover agressões não autorizadas pelo Conselho de Segurança, inclusive com o assassinato de um Chefe de Estado estrangeiro, não contribui em nada para a democracia, para os direitos humanos e para uma ordem mundial mais simétrica e pacífica.
Como disse bem disse Yanis Varoufakis, a agressão contra o Irã é também uma agressão à Humanidade, algo que, com Trump, está se tornando algo de frequência alarmante.
Publicação de: Viomundo
