A TV Globo cancelou na noite desta quinta-feira, 1º de outubro, o último debate entre candidatos à Presidência da República antes do primeiro turno. A emissora atribuiu a decisão a duas determinações judiciais recebidas poucas horas antes do programa, mas o cancelamento ocorreu depois das desistências dos dois candidatos que concentram a disputa presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
O resultado prático é uma mudança completa na disputa pela audiência política da noite. Lula manteve a entrevista ao Flow Podcast, marcada para começar às 20h45, enquanto o debate da Globo estava previsto para as 21h30. Sem o confronto televisivo, a entrevista do petista ficou sem a concorrência direta do principal evento eleitoral programado pela emissora.
A Globo informou que recebeu duas intimações antes de decidir pelo cancelamento. Uma decisão da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a emissora de manter no cenário um púlpito vazio identificado com o nome de Lula e de permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente.
A outra decisão partiu do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a inclusão de Renan Santos, candidato do Missão, no debate. Mendes entendeu que a exclusão produziria dano irreversível porque uma decisão posterior não devolveria ao candidato a possibilidade de participar do confronto nem ao eleitor a oportunidade de ouvi-lo.
A ordem de Gilmar alterou uma sequência de decisões sobre a participação de Renan. O candidato havia enfrentado decisões desfavoráveis antes de obter a determinação do ministro do STF poucas horas antes do horário previsto para o programa.
A Globo apresentou justamente essa sucessão de decisões judiciais como fundamento para retirar o debate da programação. Segundo o comunicado divulgado pela emissora, mudanças determinadas pouco antes da transmissão provocaram “insegurança jurídica” e interferiram na liberdade dos veículos para organizar debates eleitorais.
A justificativa jurídica é o fato oficialmente apresentado pela Globo. A disputa de audiência com o Flow, porém, acrescenta um componente político e televisivo impossível de ignorar na leitura do episódio.
Lula havia comunicado à Globo ainda na quarta-feira, 30 de setembro, que não participaria do debate. Em vez do confronto entre candidatos, escolheu uma entrevista individual no Flow Podcast, programada para a mesma faixa da noite. A conversa começa às 20h45 e colocou uma plataforma digital em concorrência direta pela atenção do eleitorado que acompanharia a reta final da eleição pela televisão.
A escolha também significava que Lula encerraria o primeiro turno sem participar de debate direto com os adversários. No debate da Band, o petista optou por uma entrevista individual à Record. Outro encontro organizado por um conjunto de veículos também acabou cancelado diante das ausências.
Flávio Bolsonaro ainda poderia sustentar o debate da Globo como principal contraponto ao presidente. Isso mudou poucas horas antes da transmissão.
O candidato do Partido Liberal anunciou às 19h46 que também não compareceria. Flávio Bolsonaro atribuiu sua desistência à decisão do TSE que impediu a Globo de exibir o púlpito vazio de Lula. O candidato classificou a medida como “censura imposta ao evento”.
Com Lula no Flow e Flávio Bolsonaro fora da Globo, o debate perderia justamente o confronto entre os dois candidatos que haviam transformado a noite em uma disputa paralela de estratégias de comunicação.
Permaneceriam no programa Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e, por determinação de Gilmar Mendes, Renan Santos (Missão). A decisão judicial ampliava o número de participantes, mas não substituía a ausência de Lula e Flávio Bolsonaro no confronto que a Globo havia preparado.
A legislação estabelece participação obrigatória nos debates para candidatos de partidos ou federações com representação mínima de cinco parlamentares no Congresso Nacional. Outros concorrentes podem ser convidados conforme regras previamente estabelecidas.
A própria composição do debate já havia sofrido intervenção judicial anteriormente. Romeu Zema conquistou o direito de participar após decisão relacionada ao cálculo da representação parlamentar. Renan Santos obteve sua vaga por decisão de Gilmar Mendes nesta quinta-feira.
Decisão judicial vira saída para uma disputa também de audiência
Não há elemento público que permita afirmar como fato que a Globo cancelou o debate por medo de perder audiência para o Flow. Essa é uma leitura editorial possível a partir da sequência objetiva dos acontecimentos.
A cronologia ajuda a explicar o conflito: Lula recusou o debate e marcou o Flow; Flávio Bolsonaro desistiu poucas horas antes do programa; Gilmar Mendes determinou a entrada de Renan Santos; Estela Aranha derrubou a regra do púlpito vazio; finalmente, a Globo cancelou a transmissão alegando insegurança jurídica.
A entrevista de Lula já havia adquirido dimensão própria antes mesmo do cancelamento. Para o Blog do Esmael, a presença do presidente no Flow colocava o YouTube diretamente na disputa pela atenção do público durante a noite reservada ao último debate presidencial.
O cancelamento eliminou essa comparação simultânea.
Não haverá mais debate da Globo contra entrevista de Lula no Flow. Haverá apenas a entrevista do presidente como principal evento presidencial programado para aquela faixa de horário entre as atrações que estavam em confronto direto.
É nesse ponto que a decisão de Gilmar Mendes, embora apresentada pela Globo como parte da insegurança jurídica que inviabilizou o programa, produziu um efeito político paradoxal.
A ordem garantia espaço a mais um candidato e ampliava o confronto eleitoral. Depois da desistência de Lula e Flávio Bolsonaro, Renan Santos poderia inclusive ganhar maior protagonismo diante de Caiado, Cury e Zema.
A Globo preferiu cancelar.
A emissora sustenta que as decisões tomadas na última hora comprometeram a organização previamente negociada e configuraram interferência indevida na liberdade dos veículos de comunicação. Essa é a justificativa oficial e não deve ser confundida com a interpretação sobre audiência.
Mas televisão também é audiência.
E o cenário que existia às 20h desta quinta-feira era substancialmente diferente daquele para o qual a Globo havia preparado seu último grande debate presidencial do primeiro turno.
Sem Lula, sem Flávio Bolsonaro e diante de uma entrevista exclusiva do presidente numa das maiores plataformas digitais do país, a Globo teria colocado no ar um debate sem os dois principais protagonistas da disputa política da noite.
A intervenção de Gilmar Mendes ofereceu o fundamento institucional para o cancelamento. A desistência de Lula e Flávio Bolsonaro já havia retirado do programa seu principal conflito eleitoral.
A consequência é objetiva: a Globo saiu da disputa televisiva daquela noite e o Flow ficou sozinho com Lula na arena presidencial.
O primeiro turno será realizado no domingo, 4 de outubro. O prazo para realização de debates e para a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão termina nesta quinta-feira, 1º de outubro.
A eleição presidencial perdeu, portanto, sua última oportunidade de confronto televisivo entre candidatos antes das urnas.
A noite que deveria terminar com o tradicional debate da Globo terminará com Lula falando no Flow.
Leia também no Blog do Esmael e acompanhe a cobertura da reta final das eleições de 2026.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael

