Por Pedro Claudio Cunca Bocayuva*, no Utopias Pós Capitalistas
Por vezes podemos pensar no custo da campanha nos EUA onde as contribuições externas diminuíram, de russos, sauditas e até de chineses, na contribuição direta ou no giro da divida pública do qual participavam muitos governos. Ou seja, pelos efeitos de economia politica no orçamento e nos custos internos os ganhos com as tarifas não parecem compensar as perdas para o poder e para os grupos de arrivistas que chegam ao poder com o Trumpismo no centro.
Mas no Brasil e na America Latina têm elites que operam com evasão de dívisas e oferecem ganhos financeiros, tecendo os fios entre todos que se identificam com barrar as pressões, aqui, sobre questões fiscais e tributárias que diminuem as desigualdades -o latifúndio, os bancos, os exportadores, os sonegadores, os contraventores, os contrabandistas e os golpistas. Fraudulentos, grandes e pequenos, acabam se oferecendo como agentes subservientes, comprando apoio e proteção e, jogando com seu papel de manejo interno e externo dos circuitos para ampliar o botim sobre as riquezas e o trabalho nesta parte do Sul Global.
Os funcionários da sanha neocolonial são seguranças e agentes locais do sistema de saque e extração de mais valor e recursos naturais. Formam uma cultura que se identifica com a direita de lá agindo aqui. Todos os que apostam na desigualdade, nos negacionismos e na subordinação, todos que habitam o circuito e as rotas mobiliárias e imobiliárias das transações ilegais, que por isso acabam dispostos a pagar em moeda sonante para poderem manter sua participação no botim neocolonial permanente, ou para viver por lá, em algum tipo de gueto ou condominio com seus pares.
Estas figuras menores acabaram dispostas a se ligar aos figurantes desta nova cena trumpista, através de Igrejas e de partidos de extrema direita, através da permeabilidade de agenciamentos em que algumas centenas de pequenos acabam tecendo fios ao longo dos anos com funcionários, com politicos, com religiosos,. Identificados e misturados se tornam um tipo de máfia que lá e aqui se identifica com o individualismo possessivo, com seitas e emprendimentos de exploracão de migrantes e que acabam oferecendo negócios com ganhos extraordinários por aqui, como as concessões e as privatizações do público e do patrimônio comum.
Ao lado das agências norte-americanas que se multiplicaram e cresceram para controlar as periferias de lá e os fluxos de cá, a extrema direita em rede formou os agentes da quinta coluna miliciano-mafiosa e negacionista, que ganham fortunas intermediando transações e fluxos, como com o ouro, o combustível, as armas, os dados, as drogas, terras, empresas, finanças ou com as bets e toda sorte de pirâmide. A lavanderia Brasil acaba se expondo sem velamento em festas, viagens, conexões e nos desmandos o que explica o temor que eles tiveram por um momento. Como o que volta agora, especialmente pela repetição do que aconteceu quando tiveram medo de que o feitiço virasse contra o feiticeiro, ao acusar e atacar indiscriminadamente adversários e membros do judiciário acabaram gerando efeito inverso dado seu despudor . O que ocorre no momento em que sentem estar ante o risco de perdas por força de se verem forçados a pagar com uma fração do que retiraram.
Curiosamente o fim da globalização neoliberal das fronteiras abertas, com o efeito da competicao com a China, com os custos da divida e com as guerras acompanhou o novo fascismo e a autofagia da crise de hegemonia no sistema mundo em transição. A necropolítica avança com novos mecanismos da vontade de poder na via da supremacia, o que cobra um custo alto para os serviçais, de modo a que possam continuar a receber o apoio.
Parece que mais do que enriquecer os agentes neófitos do bolsonarismo tentam evitar virar os PC Farias do período e buscsam os recursos para pagar por proteção. Embora a direita já pense em ter outros nomes e meios diferentes para tratar de derrotar Lula. Como vemos com Tarcísio, com Zema, Caiado, Ratinho Jr. que ainda estão se dando ao luxo de disputar quem vai liderar o bloco de direita, dado o peso da chantagem parlamentar e da fragilidade dos juízes do Supremo em lidar com as pendências dos seus elos de casta e privilégios ou dada a dificuldade de Lula para montar os palanques estaduais.
Mas o fato é que a queda de Claudio Castro, os elos do PCC com a Faria Lima e o ”Bolsomaster” revelaram uma fragilidade do tipo PC Farias por parte do clã Bolsonaro . Desta vez a Faria Lima vem sendo afetada e o ventre do novo fascismo revela as entranhas de suas conexões com o crime organizado. Bombardear e cercar os pobres e a periferia, usar as crises construídas e a precariedade para ampliar a lógica da criminalização e legitimar o genocídio parece um caminho que, se repete a cada eleição “tocando o terror” para que o populismo penal midiático alimente o medo e amplie a base do BBB. Mas já não basta esse movimento para esconder o custo Bolsonaro e as formas de subalternidade e saque e os esquemas milionários que se aceleram por força do arrivismo, dos golpistas e dos desesperados, por força dos custos elevados derivados da função dos ciclos curtos e da avidez com que Trump e seus asseclas cobram suas taxas deste enorme “arrego” sistêmico.
Tudo isso repete no alto a tragédia brasileira, seguindo o que temos nas formas de domínio e extração de taxas de proteção e de participação no domínio e cerco de territórios, que parece ser um mecanismo que acompanha formas de saque como na comédia de erros da produção de um “filme”, que revela o custo da “derrama” da era Trump.
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Trump ampliou as taxas de extração, propina e arrego, como um falso César que se enrolou por todos os lados e revelou sua face mais óbvia de saqueador no assalto a Venezuela e, na trágica imagem de sua proposta de tornar Gaza um grande “resort” construído sobre os corpos das vítimas da lógica do “espaço vital” , que reaparece como efeito da banalização da crueldade sob o comando dos assassinos de Yitzhak Rabin.
O ciclo do terror é retroalimentado pela produção do inimigo na politica como guerra cujo custo se amplia com o desgaste da grande politica, reduzida aos excessos e a exceção de máquinas e agentes que visam o ganho rápido e a qualquer preço alimentando sua desmedida onde a psicologia de massas, alimentada pelo narcisismo das pequenas diferenças.
Trump, Netanyahu e os personagens tipo o inominável daqui promovem uma extraordinária regressão civilizatória, onde a barbárie se multiplica ao custo de banhos de sangue com efeitos catastróficos que ampliam a crise sob todas as suas formas.
Rio de Janeiro, junho de 2026
*Pedro Claudio Cunca Bocayuva é professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Laboratório do Direito à Cidade e Território e doutor em Planejamento Urbano e Regional.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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