Por Fernando Nogueira da Costa*
Era uma vez um país enorme chamado Brasil, tão grande a ponto de ninguém conseguia enxergá-lo inteiro. Quem morava no Planalto Central dizia uma coisa; quem trabalhava na zona rural dizia outra; quem pegava ônibus às cinco da manhã em metrópoles com trânsito engarrafado contava uma terceira; e quem acompanhava tudo pela sua bolha na internet tinha certeza de conhecer tudo, caso fosse reverberado em sua câmera de eco.
Certo dia, convocaram três personagens para responder a uma pergunta aparentemente simples:
— Afinal, qual tipo de Estado governa este país?
O primeiro chegou vestido como coronel de outros tempos. Chamava-se Estado Natural.
O segundo apareceu carregando uma Constituição enorme debaixo do braço e uma montanha de formulários. Era o Leviatã de Papel.
Quando os dois já se preparavam para disputar quem explicava melhor o Brasil, apareceu uma terceira personagem, carregando uma carteira de vacinação, um cartão do Bolsa Família, a chave de uma casa popular e uma matrícula escolar – além de cartões de crédito e débito.
— Meu nome é Estado de Bem-Estar Social. Talvez o problema esteja nessa mania de vocês de querer explicar um país complexo com apenas duas alternativas.
A velha ordem apresenta seu argumento
O Estado Natural pediu a palavra:
— Eu cheguei primeiro. Durante séculos, o Brasil funcionou graças às relações pessoais. Terra, riqueza e poder político concentravam-se em poucas mãos. O cidadão precisava conhecer alguém capaz de conhecer alguém. Em troca de proteção, oferecia fidelidade eleitoral. Em troca de privilégios, os poderosos sustentavam a ordem com base em currais eleitorais.
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Era exatamente a lógica descrita por North, Wallis e Weingast: no Estado Natural ou Ordem de Acesso Limitado, a estabilidade depende de uma coalizão dominante capaz de distribuir rendas e privilégios entre grupos poderosos. Relações pessoais e redes de patronato ocupam o lugar dos direitos universais.
O velho personagem continuou:
— Não me julguem apenas por meus defeitos. Minha função histórica foi evitar os poderosos resolverem todas as disputas pela violência. Dei a cada um uma parte do bolo para ninguém virar a mesa.
— Mas o povo comia o quê? — perguntou o Bem-Estar.
O Estado Natural pigarreou:
— Bem… essa é outra questão.
Entra o Leviatã de Papel.
O segundo personagem bateu sua Constituição na mesa.
— O Brasil moderno sou eu! Tenho eleições, tribunais, ministérios, agências reguladoras, leis trabalhistas, regras ambientais, impostos, regulamentos e direitos escritos para todos!
O Estado Natural riu:
— Escritos…
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer: escritos no papel.
O Leviatã ficou vermelho de raiva.
Era justamente sua fraqueza. Segundo a interpretação de Acemoglu e Robinson, discutida no livro Frente Ampla Democrática contra o Neofascismo, o Leviatã de Papel possui extensa institucionalidade formal, mas capacidade desigual para fornecer serviços públicos e aplicar impessoalmente as regras.
— Tenho Direitos Universais! — protestou.
— Mas consegue garanti-los igualmente em uma metrópole, uma periferia e uma localidade distante? — perguntou o Estado Natural.
— Nem sempre.
— Sua polícia protege igualmente todos os cidadãos?
— Nem sempre.
— Educação, saneamento, moradia, Justiça e segurança chegam da mesma maneira a todos?
O Leviatã abaixou a cabeça:
— Ainda não.
O Estado Natural abriu um sorriso:
— Então você escreveu meu direito de aposentadoria, mas nessa realidade nunca consegui me aposentar…
Chega o terceiro incluído.
O Estado de Bem-Estar Social interrompeu a discussão:
— Eis o erro de vocês. Estão presos ao reducionismo binário: ou o Brasil continua dominado pelas velhas elites, ou possui um Estado formal incapaz de cumprir suas promessas.
Colocou três cadeiras diante deles com marcas: Estado — Mercado — Sociedade.
— O terceiro incluído é a Sociedade organizada. Sindicatos, associações, movimentos sociais, partidos, universidades, imprensa, organizações civis e cidadãos transformam o próprio Estado.
Essa ideia encontrava apoio curioso até nos livros utilizados pelos dois adversários: nas ordens de acesso aberto, a densidade da sociedade civil é justamente o “terceiro incluído” entre Estado e Mercado, enquanto governos maiores passam a prestar serviços e bens públicos de maneira universal e impessoal.
— E o que você trouxe nessa sacola? — perguntou o Leviatã.
— Políticas públicas.
Foi retirando-as uma por uma.
— Transferência de renda para combater a pobreza. Habitação popular. Expansão educacional. Saúde pública. Valorização da renda mínima. Inclusão bancária. Luz para Todos. Acesso Popular a Bancos e Crédito. Proteção social.
— Então você é o PT disfarçado! — gritou uma voz vinda da extrema direita da praça.
O Bem-Estar respondeu:
— Não. Sou uma forma institucional. Governos petistas ampliaram essas políticas, mas o Estado Social brasileiro também tem raízes anteriores, inclusive na Constituição de 1988, pós-ditadura militar. A questão é saber se direitos sociais serão ampliados, mantidos, modificados ou reduzidos por eventual governo neofascista.
Era justamente onde começava a disputa política.
A Esquerda e a Extrema Direita entram na praça
A Esquerda tomou a palavra:
— O mercado produz riqueza, mas não garante sozinho oportunidades equivalentes. Um cidadão pobre precisa ter educação, saúde, alimentação, moradia e renda mínima para exercer realmente sua liberdade. Políticas sociais não são esmolas: transformam direitos escritos pelo Leviatã de Papel em capacidades concretas.
O livro Frente Ampla Democrática contra o Neofascismo associa a expansão da cidadania nas ordens sociais abertas à provisão de educação, infraestrutura e seguridade social, interpretando esses mecanismos como complementares ao mercado e capazes de reduzir riscos individuais.
Então falou a Extrema Direita:
— Mas um Estado grande também pode sufocar indivíduos e empresas. Impostos, burocracia e regulamentação excessiva podem transformar proteção em tutela. Políticas distributivas podem produzir dependência, desperdício ou clientelismo. Valores tradicionais, propriedade privada, segurança, liberdade econômica e autoridade também são demandas legítimas de parte da sociedade.
O Leviatã de Papel cochichou:
— Nesse ponto, ela encontrou um dos meus defeitos…
Mas a discussão esquentou.
A Esquerda acusava a adversária de autoritarismo.
A Extrema Direita acusava a Esquerda de querer dominar o Estado.
O Estado Natural esfregava as mãos:
— Continuem! Quando adversários deixam de se reconhecer como participantes legítimos do mesmo sistema, sempre aparece trabalho para mim.
A surpresa do Estado de Bem-Estar
O Bem-Estar Social levantou-se:
— Vocês ainda não perceberam a questão principal. Democracia não exige concordância. Exige discordância sob regras comuns.
Escreveu no chão:
Estado forte demais + sociedade fraca ? risco de despotismo
Estado fraco + sociedade fraca ? Leviatã de Papel
Estado capaz + sociedade organizada ? Leviatã Acorrentado
O Leviatã perguntou:
— Acorrentado?! Parece desagradável.
— Suas correntes são eleições, Constituição, Congresso, Judiciário, imprensa, organizações sociais e alternância de poder. Elas não servem para impedir você de agir. Servem para permitir você agir sem se tornar senhor da sociedade.
Essa é a lógica do “corredor estreito”: a capacidade estatal e a mobilização social precisam avançar conjuntamente.
O Brasil não cabia nas três fantasias
O Estado Natural então perguntou:
— Afinal, qual dos três é o verdadeiro Brasil?
O Bem-Estar respondeu:
— Todos e nenhum.
Em certas relações sobreviviam privilégios, personalismo e clientelismo do Estado Natural.
Em outras, havia direitos magníficos no papel e implementação precária — território do Leviatã de Papel.
Mas havia também SUS, Previdência, assistência social, educação pública, transferência de renda e outras instituições mediante as quais direitos passavam do papel para a vida cotidiana.
— Então o Brasil virou plenamente um Estado de Bem-Estar?
— Também não. É um sistema híbrido em transformação.
O Estado Natural protestou:
— Isso estraga qualquer classificação!
— Exatamente — respondeu o Bem-Estar. — A realidade não tem obrigação de caber em nossos tipos ideais.
Chega a Frente Ampla
Quando a discussão parecia insolúvel, chegou uma quarta figura. Curiosamente, não era outro Estado.
Era uma roda formada por pessoas diferentes.
Chamava-se Frente Ampla Democrática.
Havia gente de esquerda, centro e outros campos políticos democráticos. Não concordavam sobre impostos, empresas públicas, juros, costumes, tamanho do Estado nem velocidade das reformas.
O Estado Natural perguntou:
— Como vocês conseguem permanecer juntos?
— Porque coalizão não significa identidade.
O Leviatã perguntou:
— Qual é então o acordo?
— Continuarmos podendo discordar amanhã.
A Frente Ampla surge justamente como uma propriedade emergente: antigos adversários subordinam temporariamente certas diferenças à preservação das regras comuns da competição democrática.
Ressalta a alternância de poder via eleitoral — ganhar, perder e retornar pelo voto – e não golpear — como transformação institucional relevante da democracia brasileira.
O Estado Natural resmungou:
— Péssimo negócio para mim. Prefiro quando política significa eliminar o adversário.
O Leviatã de Papel guardou alguns formulários:
— Talvez eu devesse gastar menos papel e entregar mais serviços.
O Bem-Estar Social completou:
— E eu preciso ser permanentemente avaliado, financiado e aperfeiçoado. Política social incapaz de produzir resultados vira apenas promessa.
A Frente Ampla abriu a roda:
— Então continuemos discutindo. Ninguém precisa abandonar suas ideias. Precisa apenas aceitar a existência política do outro e a possibilidade de perder eleições.
Moral da estória
Uma democracia não escolhe definitivamente entre Estado Natural, Leviatã de Papel e Estado de Bem-Estar Social. Ela transforma continuamente relações de privilégio em direitos, direitos escritos em capacidades efetivas e conflitos sociais em competição política regulada.
O “terceiro incluído”, portanto, não é apenas o Estado de Bem-Estar Social. Em sentido sistêmico mais profundo, é a sociedade organizada, capaz de exigir do Estado políticas públicas e, ao mesmo tempo, impedir sua transformação em Leviatã despótico.
A lição do apólogo é: o progresso democrático não consiste em eliminar o conflito entre esquerda e direita, mas em institucionalizá-lo. Quando adversários podem disputar projetos, perder eleições, aceitar o resultado e voltar a concorrer, a divergência alimenta a democracia. Quando qualquer campo passa a considerar o adversário ilegítimo por definição e pretende impedir sua participação futura, abre-se novamente espaço para a velha lógica do Estado Natural: poder como privilégio, adversário como inimigo e política como luta pela exclusão.
Nesse sentido, a Frente Ampla não precisaria ser entendida como unanimidade ideológica. No próprio raciocínio do livro Frente Ampla Democrática contra o Neofascismo, ela é antes um pacto sobre as regras do jogo para continuar disputando o jogo.
Download gratuito do livro digital:
Fernando Nogueira da Costa – Frente Ampla Democrática contra Neofascismo – set 2026
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
Publicação de: Viomundo
