A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo, 16 de agosto, mas PT e PL já colocaram dinheiro na disputa digital. Levantamento da Folha, feito a partir da Biblioteca de Anúncios da Meta, identificou R$ 2,3 milhões em impulsionamentos do Partido dos Trabalhadores (PT) e R$ 835,5 mil do Partido Liberal (PL) entre 1º de maio e 4 de agosto. O dinheiro revela duas estratégias distintas: o PT promove ações do governo Lula, enquanto o PL usa anúncios para desgastar o presidente e defender Jair Bolsonaro.
A distância financeira é de quase três vezes. O PT gastou aproximadamente R$ 1,46 milhão a mais que o PL no período analisado. Somadas, as duas siglas movimentaram cerca de R$ 3,14 milhões em publicidade política nas plataformas da Meta antes da abertura oficial da campanha.
O levantamento analisou 3.082 anúncios com conteúdo político-eleitoral impulsionados no Facebook, Instagram e WhatsApp. No caso do PT, foram quase 1.800 anúncios, com 53% deles direcionados a usuários de São Paulo. As peças destacaram programas federais, mobilidade urbana, agronegócio e incentivos à indústria.
O PL adotou outra linha. Segundo a análise, a legenda gastou cerca de R$ 35 mil em anúncios que associavam Lula ao Banco Master e também patrocinou conteúdos que relacionavam o presidente e o PT aos descontos ilegais de aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Outras peças exploraram a associação de Lula com a advogada Deolane Bezerra e defenderam Jair Bolsonaro como vítima da Justiça.
Flávio Bolsonaro aparece em 23 dos 89 anúncios financiados pelo PL identificados na análise. Em parte das peças, porém, o foco não está diretamente no candidato presidencial, mas na construção de uma narrativa contra Lula e na defesa política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
É justamente aí que começa a zona de conflito da guerra digital.
A legislação eleitoral permite o impulsionamento de conteúdo político-eleitoral na pré-campanha, mas impõe condições. A Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizada para 2026, exige que o serviço seja contratado por partido, federação ou pré-candidato diretamente com a plataforma, que não exista pedido explícito de voto e que os gastos sejam moderados, proporcionais e transparentes.
A regra também determina transparência sobre os anúncios. A plataforma que oferece impulsionamento deve manter repositório público com o conteúdo, os valores, os responsáveis pelo pagamento, o período de veiculação, o alcance e os critérios de segmentação da publicidade.
A propaganda eleitoral propriamente dita, inclusive na internet, começa em 16 de agosto. A partir dessa data também está autorizado o impulsionamento pago de propaganda eleitoral na internet, até 1º de outubro, segundo o calendário oficial do TSE.
Isso não significa que tudo o que foi pago antes de 16 de agosto seja ilegal. A própria Justiça Eleitoral admite impulsionamento na pré-campanha, desde que respeitadas as condições previstas na resolução. O problema aparece quando o dinheiro é usado para impulsionar propaganda negativa contra adversários ou quando falta a identificação exigida.
No levantamento da Folha, especialistas em direito eleitoral apontaram que diversas peças patrocinadas infringem a regra que impede o impulsionamento de conteúdo com menção a adversários. A reportagem identificou anúncios do PL associando Lula a facções criminosas e outros conteúdos de ataque político.
O TSE já consolidou entendimento de que crítica política não se transforma automaticamente em ilícito. A diferença está no uso do dinheiro para ampliar artificialmente o alcance do ataque. A legislação e a jurisprudência eleitoral restringem o impulsionamento de conteúdo negativo contra adversários.
Há um capítulo paranaense nessa história que merece atenção.
Em junho, levantamento anterior da Folha identificou sete páginas sem responsáveis claramente identificados que movimentaram R$ 1,299 milhão em anúncios contra Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Com exceção de uma página associada ao DDD 83, os demais perfis tinham números com DDD 41, do Paraná.
Os perfis tinham poucos seguidores, alguns com menos de 400 integrantes, mas financiaram anúncios com alcance muito superior à audiência orgânica das páginas. Um dos anúncios contra Flávio Bolsonaro, por exemplo, consumiu cerca de R$ 3 mil e alcançou entre 500 mil e 600 mil impressões, segundo os dados da Meta citados pela reportagem.
Esse episódio mostra por que a guerra digital não pode ser medida apenas pelo tamanho das contas ou pelo número de seguidores. O elemento decisivo é o dinheiro usado para comprar alcance e segmentar públicos.
O dado também ajuda a colocar o Paraná no mapa nacional da disputa digital. Não é possível, com os números divulgados no levantamento desta semana, atribuir uma parcela específica dos R$ 2,3 milhões do PT ou dos R$ 835,5 mil do PL ao eleitor paranaense. Essa divisão estadual não foi apresentada na reportagem nacional. O que já existe, porém, é a evidência de que páginas ligadas ao ambiente digital paranaense participaram de uma operação milionária de anúncios políticos durante a pré-campanha.
A diferença entre as estratégias também é politicamente relevante. O PT utiliza o dinheiro para associar a legenda a entregas e programas do governo federal. O PL emprega parte significativa do orçamento identificado para atacar Lula, defender Jair Bolsonaro e disputar a narrativa sobre temas como segurança pública, INSS e Banco Master.
A eleição, portanto, chega à largada formal com uma parte da batalha já travada. O eleitor começará a receber propaganda eleitoral oficialmente em 16 de agosto, mas os partidos já testaram mensagens, públicos, temas e formatos durante meses.
A pergunta que fica para o Paraná é direta: quem está pagando para falar com o eleitor paranaense e quais mensagens estão sendo entregues a cada público?
A Biblioteca de Anúncios da Meta e as regras de transparência do TSE permitem acompanhar esse dinheiro. É nesse rastro, mais do que nas declarações públicas dos candidatos, que a guerra digital de 2026 começa a mostrar seu tamanho.
O Blog do Esmael vai acompanhar os anúncios, os valores e a segmentação das campanhas para identificar como a disputa nacional chega ao eleitor do Paraná.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
