O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou nesta sexta-feira, 17 de julho, que concluiu a sexta noite consecutiva de ataques contra o Irã, com aviões, drones e navios lançando munições contra dezenas de alvos. A escalada já elevou o petróleo em quase 12% na semana e voltou a ameaçar o transporte marítimo, o custo dos combustíveis e a importação de fertilizantes pelo Brasil.
Segundo o Centcom, a ofensiva atingiu sistemas de defesa aérea, instalações de vigilância costeira, estruturas logísticas militares e capacidades navais iranianas. O comunicado representa a versão das Forças Armadas norte-americanas e não apresentou uma avaliação independente dos danos nem informações sobre vítimas civis.
A Associated Press informou que os bombardeios também alcançaram pontes, instalações de energia e uma torre usada para controlar o tráfego no Porto de Chabahar. Autoridades de saúde do Irã atribuem aos ataques americanos pelo menos 38 mortes e mais de 400 feridos desde a retomada da ofensiva. Os números foram divulgados pelo governo iraniano e ainda dependem de verificação independente.
Teerã respondeu com mísseis e drones contra instalações ligadas aos Estados Unidos em países do Golfo. A agência estatal iraniana Irna publicou declarações da Guarda Revolucionária que alegam danos a bases, radares, depósitos e centros de comando no Bahrein, Kuwait, Omã e Síria. Washington não confirmou a extensão dos prejuízos reivindicados pelo Irã.
A cobertura independente confirmou ataques iranianos contra Qatar, Bahrein e Kuwait. No Qatar, destroços de uma interceptação atingiram uma criança, segundo as autoridades locais. No Kuwait, um ataque danificou uma instalação de geração de energia e dessalinização de água.
A guerra de versões não elimina o dado concreto: o conflito avançou da disputa militar para infraestruturas que sustentam portos, energia, transporte terrestre e abastecimento de água. Esse movimento aumenta o risco de uma guerra regional mais ampla e dificulta qualquer retomada das negociações entre Washington e Teerã.
O Estreito de Ormuz permanece no centro da crise. A Organização Marítima Internacional (IMO) afirma que aproximadamente 20 mil marítimos, trabalhadores portuários e tripulantes de plataformas estão sendo afetados pela instabilidade. A entidade preparou a retirada de cerca de 6 mil pessoas, mas o plano de evacuação foi suspenso após novos ataques contra navios.
Dados citados pela Associated Press mostram que a movimentação semanal de cargas pelo estreito caiu quase 25% no começo de julho, antes da sequência mais recente de bombardeios. Parte dos petroleiros desligou os sistemas de localização por segurança, enquanto outras embarcações permaneceram ancoradas para evitar a travessia.
A interrupção ocorre depois de mais de cem dias de instabilidade marítima. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) registrou que o número diário de navios pelo estreito, que superava cem antes da guerra, caiu para perto de zero nos momentos mais críticos. A entidade alerta que a normalização dos fretes e das cadeias logísticas demora mais do que o ajuste das cotações de energia.
O petróleo já reagiu. O Brent era negociado a US$ 84,30 por barril na manhã de 17 de julho, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) estava em US$ 79,11. Os dois contratos acumulavam alta próxima de 12% na semana, segundo a Reuters.
A cotação não permite afirmar automaticamente que gasolina e diesel subirão no Brasil. O preço interno também depende da política comercial da Petrobras, do câmbio, de impostos, da mistura de biocombustíveis e dos estoques disponíveis. A alta internacional, porém, aumenta o custo potencial das importações e alimenta expectativas de inflação.
No Paraná, o impacto mais sensível está nos fertilizantes. O Brasil importou o recorde de 45,5 milhões de toneladas desses insumos em 2025. Levantamento da Infra S.A. aponta que as compras externas chegaram a representar 91% da demanda brasileira em 2024.
Os portos de Paranaguá e Antonina receberam 2,2 milhões de toneladas de fertilizantes no primeiro trimestre de 2026, ante 2,7 milhões no mesmo período de 2025. Mesmo que o produto não venha diretamente do Irã, energia mais cara, restrições marítimas e aumento do frete podem atingir contratos provenientes de outros mercados.
Isso alcança cooperativas, produtores de soja, milho, trigo e café, transportadoras e indústrias paranaenses. O fertilizante mais caro aumenta o custo do plantio; o diesel mais caro eleva o frete; e atrasos portuários comprimem a janela de entrega antes da safra.
Os dados disponíveis não autorizam afirmar que haverá desabastecimento de fertilizantes ou combustíveis no Paraná. Também não sustentam atribuir qualquer oscilação diária do real exclusivamente à guerra. O risco comprovado está na alta semanal do petróleo, na redução do tráfego marítimo e na dependência brasileira de insumos importados.
O Ministério das Relações Exteriores (MRE) condenou os ataques iniciais dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, e pediu respeito ao Direito Internacional, máxima contenção e medidas para evitar uma escalada regional. A sexta noite de ofensivas torna mais urgente uma manifestação diplomática sobre os novos ataques, as retaliações iranianas e a segurança da navegação comercial.
O comunicado militar americano dura algumas linhas. A conta pode percorrer milhares de quilômetros até chegar ao tanque do caminhão, ao contrato da cooperativa e ao desembarque de fertilizantes em Paranaguá.
Acompanhe no Blog do Esmael os efeitos da guerra no Golfo sobre petróleo, diesel, agricultura e logística no Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
