El Niño testa plano do Paraná para chuva acima da média

O El Niño já está ativo e deve provocar chuva acima da média em todo o Paraná, com maior impacto no Oeste, Sudoeste e na bacia do Rio Iguaçu. A Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) realiza nesta segunda-feira, 13 de julho, uma reunião sobre prevenção, mas o alerta climático transforma o encontro em cobrança por orçamento, obras e planos municipais antes da primavera.

A reunião “El Niño no Paraná: prevenção, cenários e desafios” foi marcada para as 9 horas, por iniciativa do presidente da Alep, Alexandre Curi (Republicanos), e do deputado Evandro Araújo (PSD). Foram convidados representantes do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), Defesa Civil, prefeituras, universidades, Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep).

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) havia calculado, em abril, probabilidade superior a 80% para a formação do El Niño no trimestre julho-agosto-setembro e igual ou superior a 90% a partir de agosto-setembro-outubro. A previsão foi superada pelos fatos: as condições do fenômeno foram identificadas em junho, e a atualização internacional de 9 de julho apontou fortalecimento durante o segundo semestre.

A discussão, portanto, não pode permanecer no terreno da hipótese. A incerteza está na intensidade e na distribuição dos eventos extremos, não na existência do fenômeno.

O Simepar prevê volumes acima da média climatológica em todas as regiões paranaenses. Oeste e Sudoeste devem registrar os maiores desvios, principalmente na bacia do Rio Iguaçu. Noroeste e Centro também podem receber grandes acumulados, enquanto Norte, Curitiba, Campos Gerais e Litoral aparecem com impacto comparativamente menor, mas ainda acima do padrão histórico.

Esse mapa precisa orientar decisões administrativas. A chuva não respeita limites partidários, mas os prejuízos aumentam quando pontes, galerias, estradas rurais, encostas e sistemas municipais de alerta chegam à temporada sem manutenção ou plano de resposta.

A convocação da Alep registra que o Paraná contabilizou cerca de 6 mil desastres naturais na última década. As ocorrências alcançaram praticamente os 399 municípios, afetaram mais de 4,5 milhões de pessoas e produziram aproximadamente R$ 32 bilhões em prejuízos.

Apesar desses números, o material divulgado antes da reunião não apresenta uma lista dos municípios mais vulneráveis, das rodovias e pontes sob monitoramento nem das obras preventivas com prazo de conclusão. Também não informa quanto o governo estadual possui disponível para prevenção, resposta e reconstrução.

O Paraná mantém o Fundo Estadual para Calamidades Públicas (Fecap), criado para ampliar a capacidade de resposta aos municípios atingidos. O Portal da Transparência permite consultar despesas e extratos do fundo, mas a reunião precisa separar saldo disponível, recursos comprometidos com desastres anteriores e dinheiro efetivamente reservado para o próximo ciclo de chuvas.

O Instituto Água e Terra (IAT) informa que monitora chuva, níveis e vazões dos rios em todas as bacias hidrográficas do estado. Monitorar, porém, não substitui executar: cada alerta precisa estar ligado a protocolos municipais, rotas de retirada, abrigos, equipes, máquinas e responsáveis por interromper estradas ou evacuar áreas ameaçadas.

No campo, o risco econômico já pode ser medido. O Departamento de Economia Rural (Deral) estimou 1,126 milhão de hectares plantados com culturas de inverno na safra 2025/2026, com produção projetada em 3,464 milhões de toneladas.

O trigo ocupa 721,9 mil hectares e tem produção estimada em 2,36 milhões de toneladas. A cevada cobre 128,9 mil hectares, com previsão de 566,4 mil toneladas. Aveia, canola, centeio e triticale completam uma safra que depende de janelas de tempo seco para manejo, maturação e colheita.

O Inmet aponta setembro e outubro como meses especialmente sensíveis para os cereais de inverno no Sul. O excesso de umidade durante floração, enchimento dos grãos e maturação pode reduzir produtividade e qualidade. A Embrapa também relaciona chuva na pré-colheita à germinação na espiga e à perda de qualidade tecnológica do trigo e da cevada.

A orientação aos produtores precisa permanecer técnica e sem propaganda comercial. Acompanhamento dos boletins do Simepar e do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), monitoramento de doenças, revisão da drenagem e planejamento de colheita, secagem e armazenagem devem ser discutidos com assistência agronômica. Nenhum produto isolado substitui manejo, previsão meteorológica e estrutura adequada.

A reunião da Alep terá utilidade pública se terminar com uma matriz aberta: municípios e bacias prioritárias, obras em andamento, estradas e encostas monitoradas, dinheiro disponível, prazo de execução e órgão responsável.

Sem esses dados, o Paraná terá registrado o aviso em ata, mas ainda não terá demonstrado que está preparado para a chuva.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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