Roberto Mardem: Pesquisa Datafolha, o crescimento da direita no Brasil e o desafio de defender o SUS

Por Roberto Mardem Soares Farias*

Não chega a ser uma surpresa, mas é decepcionante. E deveria nos levar a pensar, com seriedade, sobre onde estamos errando na defesa do SUS e dos serviços públicos.

Segundo pesquisa Datafolha publicada pela Folha de S.Paulo, pela primeira vez desde 2014 a direita ultrapassou a esquerda na preferência da população brasileira.

É verdade que, a meu ver, as perguntas estão mal formuladas e não permitem conclusões precisas sobre a posição ideológica das pessoas. A forma como se pergunta pode induzir respostas simplificadas para temas que são, na realidade, muito complexos.

Mesmo assim, há um dado que merece atenção especial, sobretudo para quem milita na defesa do SUS: 50% dos entrevistados preferem pagar menos impostos e contratar serviços privados de saúde e educação, enquanto 44% preferem pagar mais impostos e contar com serviços públicos gratuitos. Em 2022 havia empate. Ou seja, aparentemente, diminuiu a defesa explícita do SUS e dos serviços públicos.

Outra pergunta reforça essa visão de mundo. Ao escolher entre “quanto mais benefícios do governo eu tiver, melhor estará minha vida” e “quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida”, 65% optaram pela segunda frase.

Esses resultados não podem ser analisados de forma apressada, mas indicam uma combinação de experiências concretas, frustrações, propaganda política, percepção negativa sobre o Estado, problemas reais dos serviços públicos, influência da mídia e valores culturais. E, nesse terreno, a direita tem sido mais convincente que nós.

No caso da saúde, é possível que parte importante dessa resposta esteja menos ligada a uma rejeição consciente ao SUS e mais à conjuntura atual.

Quando uma pessoa espera meses por consulta especializada ou exame, encontra falta de médico, precisa madrugar para tentar atendimento ou se sente mal acolhida, é compreensível que pense: “se o serviço público não funciona como deveria, talvez seja melhor pagar menos imposto e tentar resolver minha vida no setor privado”.

Essa percepção é reforçada pela ideia de que o privado seria sempre mais eficiente, mais bonito, mais organizado e mais acolhedor.

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Muitas pessoas já acompanharam pacientes com plano de saúde e pacientes do SUS dentro de um mesmo hospital. Em vários lugares, a diferença é visível. A porta do plano costuma ser mais limpa, confortável e bem sinalizada. A porta do SUS, muitas vezes, é mais cheia, desgastada, demorada e sofrida.

Isso produz um efeito político e subjetivo muito forte. A pessoa compara experiências concretas.

De um lado, atendimento mais rápido, confortável e personalizado. De outro, espera, fila, incerteza e cansaço.

Mesmo que o SUS realize milhões de atendimentos, salve vidas, vacine, transplante, organize o SAMU, a vigilância sanitária e o controle de endemias, a experiência negativa na porta de entrada pesa muito na opinião das pessoas.

Há ainda a questão da liberdade de escolha. No plano privado, a pessoa pode construir seu próprio itinerário terapêutico. Se sente dor no peito, procura diretamente um cardiologista. Se tem dor na perna, marca ortopedista, reumatologista ou os dois. Se não gosta de um médico, tenta outro. Se quer mais exames, procura alguém que os peça. Essa liberdade parece, à primeira vista, uma vantagem. Mas não é necessariamente cuidado.

Buscar sozinho o próprio caminho pode significar fragmentação. Cada especialista olha uma parte do corpo, pede exames, prescreve medicamentos e, muitas vezes, ninguém acompanha a pessoa como um todo. O resultado pode ser excesso de consultas, exames e remédios, diagnósticos desencontrados e aumento da angústia.

Uma pessoa com diabetes, hipertensão, depressão, dor crônica ou várias doenças ao mesmo tempo precisa de alguém que organize o cuidado e conheça sua história, seu território, sua família e suas condições concretas de vida.

É exatamente aí que a atenção primária do SUS deveria ser mais forte. A unidade básica, quando funciona bem, não é barreira entre o paciente e o especialista. Ela organiza o cuidado, resolve a maior parte dos problemas e encaminha com critério o que precisa de outro nível de atenção.

O problema é que, quando está sobrecarregada, com poucas equipes, falta de profissionais e agendas lotadas, deixa de ser percebida como cuidado e passa a ser vista como obstáculo.

Outro desejo do paciente é escolher o “meu médico”, algo possível no sistema privado. No SUS, o vínculo com uma equipe de referência é uma virtude, porque permite continuidade e responsabilidade pelo cuidado.

Mas isso não significa que o sistema deva ser rígido a ponto de obrigar a pessoa a permanecer com um profissional ou equipe com quem não estabelece confiança. Em outros países com sistemas universais, há formas de escolha dentro de certos limites, sempre numa lógica pública, organizada e territorializada.

Isso precisa ser discutido. Defender vínculo não significa defender rigidez burocrática. Defender território não significa ignorar a experiência dos usuários. É possível combinar responsabilidade sanitária com algum grau de escolha, dando mais voz também ao cidadão.

Outro ponto central é o sistema dual de saúde. Quando um mesmo hospital atende pacientes do SUS e de planos privados por portas diferentes, com tempos, espaços e acolhimentos diferentes, transmite uma mensagem simbólica poderosa: existe uma saúde para quem pode pagar e outra para quem depende exclusivamente do SUS. Mesmo quando o procedimento técnico é semelhante, a desigualdade na experiência de acesso corrói a confiança no sistema público.

Por isso, ao contratar serviços privados para atender pacientes do SUS, o poder público deveria evitar ao máximo a chamada dupla porta. O atendimento pago com dinheiro público precisa garantir igualdade de acesso, regulação pública e padrão digno de acolhimento.

Caso contrário, o Estado financia indiretamente a ideia de que o privado é melhor e de que o SUS é uma saúde de segunda categoria.

Mesmo reconhecendo todas essas dificuldades, trocar o SUS por menos impostos, vouchers ou planos privados populares seria um erro gravíssimo. Seria, em termos sociais, uma espécie de suicídio coletivo.

A promessa parece simples: o governo cobraria menos impostos e cada pessoa usaria esse dinheiro, ou um voucher, para contratar seu próprio serviço de saúde.

O problema é que saúde não funciona como uma compra comum. Quem é idoso, tem doença crônica, deficiência, precisa de cirurgia, usa medicamentos caros ou tem maior risco de adoecer custa mais.

E o mercado tende a selecionar os mais saudáveis, cobrar mais dos mais doentes ou oferecer planos com cobertura limitada.

Na prática, a maioria da população não teria acesso a bons planos. Teria planos baratos, restritos, com rede pequena, muitas negativas, coparticipação, filas internas e cobertura insuficiente. Seriam planos de segunda ou terceira categoria. A pessoa deixaria de ter um direito universal e passaria a depender de um contrato que pode excluir, limitar, reajustar, negar e expulsar indiretamente quem custa mais.

Além disso, substituir o SUS por mecanismos privados encareceria o sistema como um todo.

Sistemas baseados no mercado gastam muito com administração, publicidade, intermediação financeira, disputa judicial e remuneração de investidores. O dinheiro que poderia financiar equipes, unidades, hospitais e medicamentos passa a alimentar a engrenagem empresarial da saúde.

O SUS, apesar de subfinanciado e cheio de problemas, tem uma vantagem civilizatória imensa: parte do princípio de que saúde é direito de todos e dever do Estado.

Vacinação, urgência, tratamento de câncer, transplantes, vigilância epidemiológica, saúde mental, cuidado materno-infantil e atenção básica não podem depender da capacidade de pagamento individual. Dependem de uma decisão coletiva de sociedade.

O desafio, portanto, não é defender o SUS como ele está. É defender o SUS que precisa existir.

Precisamos de mais SUS, não de menos SUS.

“Mais SUS” significa mais equipes de atenção primária, menor número de pessoas por equipe, mais médicos, enfermeiros, dentistas, agentes comunitários e profissionais de saúde mental.

Significa consultas em tempo oportuno, exames regulados com transparência, atenção especializada ampliada, programas como o Mais Especialistas, menos burocracia e mais capacidade de resolver os problemas das pessoas.

Significa também mais humanização. O usuário não pode ser tratado como alguém que pede favor. Ele é cidadão, titular de um direito. Precisa ser informado, acolhido, escutado e acompanhado. Muitas vezes, o sofrimento não vem apenas da demora, mas da sensação de abandono e da falta de clareza sobre o próximo passo do cuidado.

Por fim, defender o SUS exige enfrentar a privatização e os subsídios ao setor privado.

Não se trata de negar que, em certas situações, o SUS possa contratar serviços complementares. Isso está previsto no próprio sistema.

Mas contratar complementarmente é diferente de transferir a lógica, a gestão e o sentido do cuidado para o mercado. Quando o público financia o privado sem controle, transparência, metas públicas e igualdade de acesso, quem perde é o cidadão.

A defesa do SUS precisa sair do discurso abstrato e entrar na vida real das pessoas: na consulta, na cirurgia e no exame que acontecem na hora certa; no remédio que não falta; na equipe que acompanha; no atendimento que respeita.

A resposta à insatisfação popular não pode ser entregar cada pessoa à própria sorte no mercado. Deve ser melhorar concretamente o SUS, para que a população perceba, na prática, que o sistema funciona, acolhe e resolve.

É aí que se disputa a consciência da população.

É aí que se defende, de verdade, o direito à saúde.

E é aí que, pelo menos em relação à saúde, podemos transformar a experiência concreta das pessoas em maior compromisso com a igualdade, a solidariedade e a defesa do público. Ou seja, mais esquerdista.

Temos um longo caminho pela frente.

*Roberto Mardem Soares Farias é médico pediatra e sanitarista

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