A disputa pelo Governo do Paraná entrou nesta quinta-feira (18) no terreno judicial: uma ação popular questiona o contrato de R$ 583.800,00 firmado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) com a IRG Pesquisas e abre uma nova frente de desgaste para o governador Ratinho Junior (PSD), para a estrutura do Palácio Iguaçu e para a narrativa de crescimento de Sandro Alex (PSD) na sucessão estadual. A consequência política é direta: Sergio Moro (PL), principal adversário do grupo governista nas pesquisas, ganhou uma pauta jurídica contra o chamado DataRatinho.
A ação popular, protocolada na Vara da Fazenda Pública de Curitiba pelo advogado Jorge Augusto Derviche Casagrande, pede medida liminar para suspender execução, liquidação ou pagamento do contrato e exige a apresentação de documentos administrativos, justificativas técnicas e critérios de escolha da empresa. No papel, o alvo formal é o contrato entre Ipardes e IRG; na política, o tiro atravessa o instituto e chega ao comando do governo.
O arroz doce azedou para Ratinho Junior porque a contratação da IRG foi formalizada em 12 de junho, “Dia dos Namorados”, ironizou o deputado estadual Paulo Gomes (PL), para levantamento sobre percepção de serviços públicos de saúde e segurança, enquanto o mesmo instituto divulgou, no mesmo ambiente pré-eleitoral, pesquisa sobre o Governo do Paraná em que Sandro Alex aparece com desempenho muito superior quando associado ao governador. O dado que incendiou o debate foi o cenário com padrinhos políticos: Moro com apoio de Flávio Bolsonaro marcou 39,1%, Sandro Alex com apoio de Ratinho Junior chegou a 27,5%, e Requião Filho com apoio de Lula ficou com 20,8%.
Sem os padrinhos no enunciado, a mesma pesquisa colocou Moro com 38,2%, Requião Filho com 18,6%, Sandro Alex com 14,4% e Rafael Greca com 11,7%. A pesquisa ouviu 1.000 eleitores entre 10 e 13 de junho, tem margem de erro de 3,1 pontos percentuais e foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número PR-07149/2026. O Blog do Esmael já havia mostrado que o levantamento movia a torcida do Palácio Iguaçu porque Sandro saía da terceira posição e virava segundo colocado quando o nome de Ratinho Junior entrava na pergunta.
A defesa institucional do Ipardes é conhecida: a autarquia publicou nota afirmando que não realiza pesquisas eleitorais e que suas pesquisas oficiais têm caráter estatístico, sem vínculo com partidos ou candidaturas. A nota, porém, não encerra a controvérsia aberta pela ação popular, porque a discussão não é se o Ipardes registrou pesquisa eleitoral, mas se dinheiro público, contratação administrativa e instituto com atuação eleitoral produziram vantagem política no mesmo período.
O Ipardes é vinculado à Secretaria de Estado do Planejamento (SEPL), cuja função oficial é produzir estudos sobre a realidade econômica e social do Paraná para subsidiar políticas públicas. Esse dado desloca a pergunta para a cadeia decisória: quem pediu a pesquisa, quem justificou a contratação externa, quem definiu o valor, quem chamou a IRG, quem fiscaliza a execução e quem se beneficia politicamente do resultado eleitoral divulgado pelo mesmo instituto.
A IRG é polo passivo na ação, mas o problema mais sensível para o Palácio Iguaçu está no fluxo administrativo. O termo de credenciamento de 2023 informa que a empresa estava apta a prestar serviços ao Ipardes, mas também registra que o credenciamento não gerava obrigação de assinatura de contrato. Em português claro: estar na lista não explica sozinho por que a empresa foi chamada, nesse valor e nesse momento.
Embora Sergio Moro não seja parte na ação popular, ele é o principal beneficiário político do desgaste imposto ao Palácio Iguaçu. Um aliado do pré-candidato do PL afirmou ao Blog do Esmael que o ex-juiz deve usar o caso para abrir uma frente permanente contra Ratinho Junior, o Ipardes e a cadeia de decisões que levou ao contrato de R$ 583,8 mil com a IRG Pesquisas. A leitura no entorno de Moro é simples: se a empresa contratada disser que apenas prestou o serviço, a pressão sobe para quem escolheu, autorizou, empenhou e fiscalizou a despesa.
É aí que a porca torce o rabo. Se a empresa contratada alegar que não escolheu a fila, o cronograma nem a decisão de contratar, o foco tende a subir para os ordenadores de despesa e para os gestores que autorizaram a contratação. A ação popular, portanto, pode deixar de ser uma briga sobre pesquisa e virar investigação sobre método de governo, comunicação institucional e uso da máquina em ano pré-eleitoral.
A Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) também entrou no caso. Um pedido de informações solicita à SEPL e ao Ipardes a justificativa técnica da contratação, os estudos preliminares, a modalidade usada, o detalhamento do valor, a metodologia, a amostra prevista, a economicidade e a eventual utilização dos resultados em campanhas institucionais de comunicação governamental. O documento cobra ainda se a pesquisa tem finalidade estritamente técnica ou se poderá alimentar promoção institucional do governo.
O secretário de Estado da Comunicação, Cleber Mata, não aparece como réu na ação popular, mas é personagem político inevitável porque comanda a Secretaria de Estado da Comunicação (SECOM), estrutura responsável pela comunicação do governo. A própria página oficial da SECOM informa que a pasta tem uma Coordenação de Avaliação e Pesquisa, o que torna natural a cobrança pública sobre eventual diálogo entre pesquisa de gestão, comunicação governamental e estratégia de imagem do Palácio Iguaçu.
Para Moro, o caso abre uma avenida. O senador não precisa provar, neste momento, irregularidade administrativa para explorar a contradição política: o governo que tenta vender Sandro Alex como herdeiro competitivo de Ratinho Junior passa a ter de explicar um contrato público com o mesmo instituto que produziu o levantamento mais conveniente para essa narrativa. Não é uma sentença; é uma crise de prova, documento e transparência.
A comparação com uma “Lava Jato versão Paraná” é leitura política, não conclusão jurídica. O que existe até agora é uma ação popular, pedido liminar, cobrança de documentos e repercussão parlamentar. O que pode vir depois depende da Justiça, dos contratos, das notas de empenho, das justificativas técnicas, da execução do serviço e da eventual atuação de órgãos de controle.
A cautela jurídica é obrigatória: Estado, Ipardes, dirigentes públicos e IRG têm direito de defesa, e nenhuma decisão de mérito foi citada até agora. A pergunta jornalística, porém, já está colocada: o contrato de R$ 583,8 mil foi apenas uma contratação técnica para avaliar saúde e segurança, ou virou peça involuntária de uma engrenagem política que ajudou a turbinar Sandro Alex no tabuleiro de 2026?
O Palácio Iguaçu pode tentar tratar o caso como ruído de adversários. A dificuldade é que a ação popular transformou o ruído em processo, o pedido de informações levou o tema para a Alep e os números da IRG já entraram na guerra entre Ratinho Junior, Moro, Sandro Alex, Requião Filho e Greca. A eleição paranaense ainda está na fase de pré-campanha, mas a disputa por narrativa, contrato e suspeição já começou.
Compartilhe esta reportagem e acompanhe no Blog do Esmael os próximos passos da ação popular, a resposta do governo Ratinho Junior, a manifestação da IRG Pesquisas e os desdobramentos na Alep e na Justiça.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
