A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), pré-candidata ao Senado pelo Paraná, reuniu-se nesta segunda-feira (15), em Curitiba, com dirigentes do Sistema Ocepar e defendeu diálogo com o cooperativismo, setor que movimenta centenas de bilhões de reais no estado e costuma ser disputado pela direita nas eleições.
“Entre os diferenciais que fazem do Paraná uma referência nacional e mundial está, certamente, nosso sistema cooperativo”, disse Gleisi, após encontro com o presidente executivo da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), José Roberto Ricken.
A fala tem peso político porque tira Gleisi do cercado previsível da esquerda urbana e sindical e a coloca diante de um setor estratégico para o Paraná: produção de alimentos, armazenagem, crédito, agroindústria, exportação, emprego e logística.
O Sistema Ocepar reúne cooperativas que, segundo a própria entidade em balanços recentes, chegaram a R$ 202 bilhões de faturamento em 2023, com 225 cooperativas registradas e 3,6 milhões de cooperados no Paraná. O setor também registrou R$ 6,4 bilhões em investimentos e 155 mil empregos diretos naquele exercício.
Gleisi afirmou que o cooperativismo paranaense “é uma potência e um dos maiores orgulhos” do estado. “Com diálogo e união, podemos fortalecer ainda mais esse modelo cooperativista e gerar mais desenvolvimento e riqueza para nosso Estado”, declarou.
A reunião contou com a presença do presidente do Conselho Deliberativo do Sistema Ocepar, Luiz Roberto Baggio; do superintendente da Ocepar, Robson Mafioletti; do superintendente da Federação e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Fecoopar), Nelson Costa; do superintendente interino do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Paraná (Sescoop-PR), Leandro Roberto Macioski; da coordenadora de Relações Institucionais, Daniely Andressa da Silva; do diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri; e do deputado federal Zeca Dirceu (PT).
O gesto de Gleisi tem uma consequência eleitoral clara: a petista tenta disputar o voto produtivo sem abandonar a marca política nacional ligada ao governo Lula. A direita paranaense costuma tratar o agro como território fechado, mas o cooperativismo não é apenas latifúndio, exportação e commodity. Ele envolve pequenos e médios produtores, cooperativas de crédito, saúde, transporte, infraestrutura, indústria e empregos em cidades do interior.
Na conversa, Gleisi citou ações do governo federal que dialogam diretamente com gargalos do setor, como fertilizantes, armazenagem, crédito e ferrovias.
A deputada defendeu a retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR), em Araucária, como medida para reduzir a dependência brasileira de insumos importados. A Petrobras aprovou a reativação da unidade em 2024 e informou que a retomada envolve serviços de manutenção, materiais críticos e reinício operacional.
“O Brasil produz alimentos em escala global. Os grãos e produtos das cooperativas paranaenses chegam a todos os cantos do mundo, mas ainda permanecemos dependentes de insumos como os fertilizantes importados. A retomada da fábrica da Fafen em Araucária vai reduzir essa dependência externa”, afirmou Gleisi.
A pré-candidata também citou a modernização dos armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em Ponta Grossa. O projeto tem investimento de R$ 55 milhões da Itaipu Binacional, com participação da Conab e do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops), para melhorar a infraestrutura de armazenagem no Paraná e em Mato Grosso do Sul.
Segundo Gleisi, a Itaipu investe R$ 55 milhões para melhorar a estocagem de alimentos em quatro unidades armazenadoras. A unidade de Ponta Grossa é peça central porque fica em uma região estratégica para grãos, cooperativas e ligação logística com o Porto de Paranaguá.
A deputada também sinalizou disposição para atuar junto ao governo federal pela implementação do Anel Ferroviário de Curitiba e pela ampliação das ferrovias na logística estadual. O tema ganhou pressão em 2026 porque Curitiba ainda convive com trens de carga em áreas urbanas, enquanto prefeitura, governo federal e concessionária discutem alternativas dentro da renovação da concessão ferroviária.
Outro ponto citado foi a expansão do Plano Safra e a aproximação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com o Sistema Ocepar. Em março, entidades do Paraná apresentaram ao governo federal proposta de R$ 670 bilhões para o Plano Safra 2026/2027, com pedido de mais crédito, juros menores e recursos para agricultura familiar, médios produtores e demais produtores.
A leitura política é direta: Gleisi tenta mostrar que a disputa de 2026 não será apenas sobre ideologia, mas sobre quem entrega fertilizante, armazém, ferrovia, crédito e mercado para o Paraná.
Para a direita, o risco é perder o monopólio simbólico do agro. Para Gleisi, o desafio é convencer um setor que historicamente recebeu o PT com resistência, especialmente depois de anos de polarização nacional.
O encontro na Ocepar não transforma o cooperativismo em base petista. Mas sinaliza que Gleisi quer disputar uma parte do eleitorado produtivo sem pedir licença à bolha bolsonarista.
No Paraná, onde a eleição ao Senado terá duas vagas, essa movimentação importa. O voto rural, cooperativista e agroindustrial pode decidir quem cresce para além da militância.
A pergunta que fica é simples: a direita vai discutir projeto para o Paraná ou vai tentar impedir que Gleisi converse com quem produz?
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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