Por Lúcia Rodrigues, no Holofote Notícias
A cena surreal captada nesta quinta-feira, 14, no momento em que documentos, que podem trazer informações sobre desaparecidos políticos da ditadura militar, são atirados do alto do prédio do IML do Rio de Janeiro, no centro da cidade, é a prova cabal do descaso com que a história do Brasil é tratada.
Imagens divulgadas nas redes sociais registram documentos sendo descartados, jogados das janelas do órgão que emitia justamente os atestados de óbito de opositores políticos assassinados pela repressão militar.
A diretora do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cecília Coimbra, lamenta o descaso e afirma que entidades de direitos humanos, entre as quais o GTNM-RJ, lançaram nota (leia ao final) criticando a irresponsabilidade da ação.
Ao ser informado do ocorrido, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) acionou a Polícia Federal para recuperar os documentos, que seriam reciclados.
A documentação jogada pela janela não voltará para o prédio do IML.
O espaço onde se encontravam os documentos está em situação precária. Ainda não foi definida a destinação para o material.
Cecília explica que o IML é o elo que fecha a cadeia dos órgãos de repressão que atuavam para a ocultação dos cadáveres da ditadura militar.
Eram os médicos legistas ligados ao regime que emitiam os atestados de óbito com a falsificação de nomes e da causa mortis dos presos políticos assassinados.
As mortes sob tortura eram identificadas na maioria dos casos, como ocorridas em tiroteio, segundo ela.
Apoie o VIOMUNDO
A ativista de direitos humanos recorda que durante o governo Nilo Batista (PDT), na primeira metade dos anos 1990, teve acesso aos arquivos do IML.
As informações obtidas com a pesquisa levaram à localização de 14 presos políticos que haviam sido enterrados no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, na região da Vila Militar, na zona norte do Rio.
“Descobrimos que presos políticos desaparecidos pela ditadura militar tinham sido enterrados lá”, enfatiza.
O cemitério Ricardo de Albuquerque foi utilizado pela ditadura para ocultar as mortes de ativistas contrários ao regime entre os anos de 1970 e 1974.
Como não foi possível identificar as ossadas, foi erguido um memorial em homenagem aos mortos pela ditadura militar para depositar seus restos mortais.
No ano passado, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos esteve no memorial e o encontrou em condições degradantes, com gotejamento, caramujos e insetos circulando no local.
Também foram encontrados fragmentos de remanescentes ósseos espalhados pelo chão, além de ossadas deterioradas pela umidade do ambiente insalubre.
Fungos foram detectados em ossos, que se desmancham com um simples toque.
Em 2014, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade possibilitou a localização do 15º desaparecido.
Outro órgão do Rio que poderia ajudar a esclarecer os crimes da ditadura é o Instituto Carlos Éboli, de acordo com ela.
“Por ter muitas fotos de mortos e desaparecidos politicos da ditadura. O fotógrafo registrava todas as marcas de tortura nos corpos”, ressalta.
Ecos da ditadura – Na última quinta, 14, Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, torturador do DOI-Codi do Rio, que agiu na repressão aos opositores políticos do regime ditatorial, foi ao lançamento da biografia do repórter policial Luarlindo Ernesto, que ocorreu no salão nobre da ABI, a Associação Brasileira de Imprensa.
A não punição de torturadores como o Capitão Guimarães é que permitem imagens como a verificada abaixo, em que ele age na certeza da impunidade ao frequentar ambientes que nao são destinados a perpetradores de direitos humanos.
O articulista de Holofote, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, destacou em seu artigo mais recente, que mais de seis décadas após o golpe militar, ainda não se sabe exatamente quando a ditadura terminou… Clique aqui para ler o texto.
O torturador Capitão Guimarães observa o autógrafo do repórter policial Luarlindo Ernesto, no salão nobre da ABI, a Associação Brasileira de Imprensa
Leia a seguir a íntegra da nota divulgada por entidades de direitos humanos.
“Nota Pública
Sobre o descarte ilegal e irresponsável de documentos no prédio do antigo IML do Rio de Janeiro
É com perplexidade e revolta que recebemos o vídeo compartilhado nas redes sociais de documentos oficiais das Polícia Civil do Rio de Janeiro sendo jogados pela janela do prédio onde funcionou o Instituto Médico Legal do Estado do Rio de Janeiro, na Rua dos Inválidos, no 152, na Lapa. Além disso, foi removido mobiliário por meio de um caminhão que também pode conter documentação relevante.
O prédio do antigo IML abriga documentos históricos produzidos pela Polícia Civil e pela Polícia Técnico-científica (Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal), assim como documentação administrativa, em condições de degradação, com fezes de animais, janelas quebradas, acúmulo de sujidade etc.
Qualquer documento no interior do prédio deveria ter seu descarte considerado em diálogo com o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), e se realizado o descarte estritamente de acordo com o procedimento legal. A regulamentação prevê a formalização da seleção da documentação, a informação prévia e publicada em Diário Oficial e a possibilidade contestação ao descarte.
A documentação de interesse histórico já foi reconhecida por pareceres dos arquivos públicos (APERJ e Arquivo Nacional) e está em processo de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), assim como por decisão judicial que versa sobre a posse do edifício e foi proferida em 26 de março de 2026, pela 15a Vara Federal. Assim, essa documentação foi objeto de acordo de recolhimento pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ) no Inquérito Civil n.º 1.30.001.001121/2024-50 do Ministério Público Federal. Esse acordo envolve o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) e a Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro, além dos movimentos sociais e entidades Coletivo RJ Memória Verdade, Justiça e Reparação, Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, Coalizão Brasil Memória Verdade Justiça e Democracia e representantes das religiões de matrizes africanas.
Denunciamos o descaso, a ilegalidade a irresponsabilidade do que assistimos e que pode gerar a destruição de informações históricas de interesse público e já reconhecidas por ampla gama de instituições estatuais e federais.
Pela rápida ação dos movimentos sociais, do MPF, do APERJ e do IPHAN foi possível a vitória da mobilização para o retorno dos documentos, mesmo não se sabendo se houve alguma perda.
Exigimos que a Secretaria de Polícia Civil se responsabilize pelo cumprimento dos procedimentos legais em diálogo com as instituições de patrimônio e com o Ministério Público Federal.
Sem Memória Não Há Democracia!
Rio de Janeiro, 15 de maio de 2026
Assinam está nota as seguintes organizações:
– Coletivo RJ MVJR
– Grupo Tortura Nunca RJ
– Coalizão Brasil MVJR
– Asé Ile Omim Odara
– Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – BH/MG”
Leia também
Roberto Amaral: As forças do atraso não improvisam
Reforma Sanitária em movimento: Jovens criam núcleo do Cebes em Juazeiro (BA)
Intercept: “Estou e estarei contigo sempre”
Publicação de: Viomundo
