Tomás Amaral: A expansão da Otan e o cerco militar à Rússia

Por Tomás Amaral*

Neste segundo artigo, analisamos como o genocídio de russos étnicos em Donbass, na Ucrânia, foi uma estratégia planejada pela CIA para envolver a Rússia em uma guerra por procuração.

Integrada à mesma estratégia geopolítica que visa subjugar e fragmentar a Rússia, está a expansão da Otan.

Na década de 1990, com o fim da União Soviética e a extinção do Pacto de Varsóvia, a Otan deixou de ter razões políticas justificáveis para existir e, neste mundo pós-Guerra Fria, passou a expressar estritamente o objetivo do imperialismo estadunidense de perseguir uma ordem unipolar.

Durante a reunificação da Alemanha, em 1990, garantias à Rússia na nova ordem que se estabeleceria foram negociadas entre o presidente russo, Mikhail Gorbachev, e o governo de George H. W. Bush, com seu secretário de Estado, James Baker.

Uma das promessas dos Estados Unidos à Rússia era que, com a reunificação da Alemanha e o fim do Pacto de Varsóvia, a Otan não se expandiria nem “uma polegada” ao leste do Rio Elba (que demarca a fronteira entre a Alemanha e a Europa Oriental, a partir de sua vizinha, Polônia).

O desmentido da promessa não tardou mais do que poucos anos. Em 1997, os Estados Unidos aprovaram no Congresso e promoveram a primeira expansão da Otan, durante o governo Clinton, convidando a Polônia, a República Tcheca e a Hungria para serem incorporadas ao bloco.

Em junho daquele ano, o então senador Joe Biden fez uma palestra no think tank Atlantic Council defendendo a expansão da Otan, como forma de acossar a Rússia.

Em junho de 1997, o então senador Joe Biden defendendo a expansão da Otan em uma palestra no Atlantic Council. Imagem: Reprodução de vídeo

Um dos argumentos de Biden era que, embora os russos fossem ficar contrariados, eles nada poderiam fazer porque suas forças armadas estavam em condições decadentes e não conseguiriam “nem mesmo reconquistar a Chechênia”, que na época travava uma guerra separatista, com êxito temporário.

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Joe Biden conclui o seu discurso defendendo que a expansão da Otan ajudaria, a médio e longo prazo, a alcançar o objetivo de “democratização” e implementação de uma “economia de mercado” na Rússia.

Os termos usados pelo senador democrata estadunidense representam um eufemismo diplomático para a ideia de regime change e subjugação da soberania russa ao FMI, Banco Mundial e à cartilha política de Washington.

O estrategista de política externa, Zbigniew Brzezinski, que, na administração Carter, substituiu Henry Kissinger no cargo de conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, defendeu em seu livro, The Grand Chessboard, publicado em 1997, que a Rússia deveria ser balcanizada para evitar o surgimento de um poder contra-hegemônico que voltasse a rivalizar geopoliticamente com os Estados Unidos, como a União Soviética o fizera.

Brzezinski sugere que a Rússia deveria ser repartida em pelo menos três porções – para ficar mais fácil de os Estados Unidos a conterem –, dando origem a uma república russo-europeia, uma siberiana e uma extremo-oriental.

Além do livro de Brzezinski, diversos documentos elaborados em think tanks, como a Rand Corporation, defenderam ao longo das últimas três décadas a fragmentação da Rússia, às vezes em 5 ou 6 países.

A primeira expansão da Otan foi ratificada em 1999, dois anos depois de seu anúncio, provocando protestos do governo russo e desmanchando a arquitetura de segurança na Europa concebida no final da Guerra Fria.

Em 2004, durante o governo de George W. Bush, ocorre a segunda onda de expansão da Otan, incorporando a maioria dos países do leste europeu.

A incorporação destes países à organização modernizou as suas instalações e os seus ativos militares, inclusive nos países ex-soviéticos que fazem fronteira com a Rússia.

Foram incorporados ao bloco: Lituânia, Letônia, Estônia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Bulgária.

Mapa dos países incorporados à Otan. Foto: Otan

Putin já era o presidente da Rússia e protestou veementemente contra esta medida ofensiva que violava os tratados bilaterais e desarranjava a arquitetura de segurança do hemisfério.

Em 2009, entraram para a Otan, a Croácia e a Albânia; em 2017, Montenegro; em 2020, a Macedônia do Norte; em 2023, a Finlândia; e em 2024, a Suécia.

Além de observar com contrariedade e fazer apelos diplomáticos contra cada uma dessas ondas de expansão do bloco militar comandado pelos Estados Unidos, o governo russo protestou, ano após ano, contra as ameaças de instalações de sistemas de mísseis modernos em alguns desses países próximos à sua fronteira.

Em 2019, Putin respondeu a um jornalista ocidental, que lhe pediu para comentar sobre o fato de que líderes europeus consideravam a Rússia uma ameaça ao continente: “Não somos nós que estamos nos movendo em direção à Europa, é a Otan que está se movendo em direção às nossas fronteiras. A afirmação de que a Rússia se comporta de maneira agressiva fere a lógica”.

O ápice da tensão entre a Rússia e a Otan se consolidou com o anúncio da intenção desta de incorporar a Ucrânia e a Geórgia à aliança militar.

Moscou deixou claro, em inúmeras declarações do presidente Putin, do ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e de outros porta-vozes, que não aceitaria mais esta violação dos tratados de segurança, que colocaria em risco sua segurança nacional.

Da mesma forma que os Estados Unidos jamais aceitariam que a Rússia instalasse uma base militar no México, a Rússia traçou sua linha vermelha quanto à incorporação da Ucrânia e da Geórgia à Otan, que completaria um cerco militar ao seu território.

A primeira vez que os Estados Unidos anunciaram tal intenção, que foi acatada pelos demais integrantes da Otan, foi em abril de 2008, na cúpula de Bucareste, na Romênia.

Desde então, os EUA vieram escalando a tensão com Moscou, progressiva e deliberadamente, marchando na direção de cruzar, conscientemente, a linha vermelha estabelecida pelo governo russo.

O discurso de Joe Biden, em 1997, já revelava a intenção do establishment estadunidense de ignorar as interpelações de Moscou e avançar unilateralmente na estratégia de acossar a Rússia.

As entrevistas de Angela Merkel e François Hollande, mencionadas noprimeiro artigo desta série, também confirmam que a guerra contra a Rússia já estava planejada unilateralmente e com sua estratégia posta em ação, sem depender do comportamento e da intenção do governo russo.

A obsessão das oligarquias europeias (e de suas ramificações que migraram para os Estados Unidos) em exterminar a Rússia remonta a séculos de história.

O golpe de Estado na Ucrânia, em fevereiro de 2014, representou uma ofensiva agressiva nesta direção.

O genocídio de russos em Donbass redobrou a tensão do Ocidente Coletivo com Moscou.

A Europa e os Estados Unidos vêm obstinadamente escalando as provocações à Rússia, violando as leis internacionais (o que inclui a promoção de um golpe de estado e de um genocídio), enquanto o governo russo, sob a liderança de Vladmir Putin, veio pacientemente respondendo a cada uma destas provocações pela via diplomática e dentro da legalidade.

Mas para a mídia ocidental, que integra o aparato imperialista, Putin é o agressor.

O genocídio da população russa em Donbass é uma estratégia planejada pela CIA e executada pelos governos ucranianos alçados ao poder por um golpe de estado – primeiro, o de Poroshenko e, depois, o de Zelenski.

Paralelamente ao genocídio em Donbass, esses governos fantoches avançaram, junto aos Estados Unidos, nos trâmites de adesão da Ucrânia à OTAN.

Zelenski, eleito em 2019, começa a participar, desde então, de diversas cúpulas no Ocidente onde anunciava que o processo de incorporação estava em marcha.

Ao longo dos anos que sucederam o golpe na Ucrânia, ficou cada vez mais claro para os russos de que a estratégia de cercar a Rússia militarmente não seria interrompida por acordos diplomáticos.

No dia 12 de junho de 2020, a Ucrânia é admitida pelos membros da Otan como “membro parceiro” – um primeiro passo dado em direção à sua incorporação total.

Em 7 de agosto de 2020, um acordo de “cooperação científica” entre a Ucrânia e a Otan é assinado.

Em dezembro de 2021, tropas militares dos Estados Unidos desembarcam em solo ucraniano e começam a fazer exercícios militares conjuntos com as forças ucranianas.

Como os Estados Unidos reagiriam se a Rússia começasse a fazer exercícios militares em Cuba?

Em fevereiro de 2022, a inteligência russa obteve documentos (e os apresentou ao público) com provas de que o regime de Kiev estava planejando uma operação militar de força total em Donbass, com o objetivo de limpeza étnica.

Esse foi um dos motivos que levaram a Rússia a lançar sua Operação Militar Especial para liberar Donbass e confrontar o aparelhamento militar da Ucrânia por parte da Otan.

Junto a isto, outra gota d’água para tal decisão foi o anúncio feito por Zelenski, na Conferência de Munique, em fevereiro de 2022, de que a Ucrânia, além de aderir à Otan, pretendia sair do protocolo do Memorando de Budapeste.

O Memorando de Budapeste, assinado em 1994, regulamenta a segurança no espaço pós-soviético, obrigando a adesão das ex-repúblicas soviéticas ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Em outras palavras, a Ucrânia estava anunciando unilateralmente, com a retaguarda de Washington, que iria aderir à Otan e que poderia, a partir de então, desenvolver armas nucleares.

Só um país sem capacidade de defesa observaria passivamente o cerco militar comandado por uma potência militar hostil em torno de si, com o anúncio de bases militares com armas nucleares em suas fronteiras, sem reagir.

Este não é o caso da Rússia, que, a partir da chegada de Vladmir Putin ao poder, reestruturou seu aparato militar, se consolidando, hoje, como a maior potência militar do planeta.

Desde a Conferência de Munique em 2007, Putin vem propondo aos Estados Unidos e à Europa a discussão de uma nova arquitetura de segurança para evitar a guerra – exatamente o que os Estados Unidos e a Europa nunca quiseram.

A Rússia lançou sua operação militar na Ucrânia com os objetivos de livrar suas fronteiras da presença do inimigo e desmantelar o aparato militar que ele ali construiu.

O objetivo da Rússia nunca foi destruir a Ucrânia, como os Estados Unidos fizeram no Iraque ou na Líbia.

A Rússia tem a capacidade bélica de transformar Kiev em terra arrasada em uma semana, se quiser. Mas este não é o seu objetivo.

O presidente Putin declarou que os ucranianos são povos irmãos que estão sendo instrumentalizados pelo Ocidente numa guerra contra a Rússia.

Portanto, a Rússia trava uma guerra de liberação de um território com a preocupação, expressa em sua doutrina militar, de infringir o mínimo de danos possíveis à população civil ucraniana.

Este é um dos fatores que explica o ritmo lento que a Rússia imprimiu em sua estratégia militar.

Agora, ela está perto de concluir a liberação de toda a região de Donbass, que será oficialmente reincorporada ao seu território e com ampla aprovação da população local.

Há momentos na história que, tragicamente, só a guerra consegue por fim a uma violência crônica sofrida por um povo.

A diferença entre Gaza e Donbass é que os palestinos, apesar da valiosa ajuda do Irã, não tiveram, até o momento, nenhuma potência militar para interceder por eles, expulsando seus algozes de seu território, como a Rússia está fazendo em Donbass.

A narrativa da mídia ocidental

Quando a Rússia lançou sua Operação Militar Especial contra as forças de Kiev, a mídia ocidental, em uníssono, denunciou o que seria, em sua narrativa, uma invasão russa da Ucrânia.

O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, já dizia: uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade.

Diversos analistas e supostos especialistas em política internacional frequentavam os jornais e canais de notícias na TV, explicando para o público que a razão da guerra era que Putin queria restaurar o império russo, invadir e anexar territórios adjacentes.

Mas, como apontado pelo cientista político e professor da Universidade de Chicago, John Mearsheimer, Putin nunca havia reivindicado qualquer território na Ucrânia, ou em outra parte, antes dos Estados Unidos aparelharem o regime de Kiev para atacar a Rússia.

Na verdade, ele se esforçou por anos para não ser obrigado a fazê-lo; quem sabotou sistematicamente suas iniciativas diplomáticas foram os Estados Unidos e a Europa.

Que classe de imperialista se esforçaria por oito anos seguidos para tentar frustrar pela via diplomática a sua suposta guerra anexionista?

O truque da mídia ocidental é esconder os ataques imperialistas dos Estados Unidos e levar o leitor/espectador a concluir que os que se defendem estão atacando.

Quem primeiro invadiu a Ucrânia foram os Estados Unidos, mas o fizeram de forma sofisticada: fomentando um golpe de Estado e aparelhando o governo e as forças armadas.

Quatro pontos omitidos na mídia ocidental, que jogam por terra sua narrativa, são:

1- A guerra não começou em 2022 com a Operação Militar Russa, mas em 2014 com o golpe de Estado que alçou um regime fascista para cumprir o roteiro escrito em Washington.

2- Um genocídio estava em curso na Ucrânia, com ucranianos matando ucranianos russófonos, com apoio dos Estados Unidos. Essa guerra civil durou oito anos sem que houvesse um único soldado russo em território ucraniano.

3- Putin, em pessoa, se esforçou sobremaneira, nesses oito anos, para chegar a um acordo diplomático com Estados Unidos e Europa, que pusesse fim ao conflito interno na Ucrânia e resolvesse o impasse gerado pela ameaça de incorporação da Ucrânia à Otan; mas todos os seus esforços foram sabotados pelos líderes estadunidenses e europeus.

4- A Rússia trava uma guerra de liberação e não de agressão. Há uma distinção clara entres esses dois conceitos na literatura militar; e o que comprova que o objetivo russo é o de liberação é o fato de as populações das áreas liberadas apoiarem a Rússia na guerra, e não o regime de Kiev.

Este último aspecto é cuidadosamente omitido pela mídia ocidental.

Ao dizer que a Rússia está invadindo a Ucrânia e atacando os pobres ucranianos, a mídia não pode admitir que existem duas categorias de ucranianos: os que apoiam o regime de Kiev e os que estavam sendo massacrados por este (e apoiam a Rússia).

A mídia ocidental não pode noticiar que, nos plebiscitos realizados por administrações locais de distritos liberados pelos russos, mais de 95% da população votaram para ser reincorporados à Rússia.

A mídia ocidental tem lado, e não é o lado dos ucranianos que estavam sendo assassinados pelo regime fascista de Kiev – estes nem existem em sua narrativa.

Estes ucranianos estavam sendo atacados por serem, na verdade, russos.

Entender a história de Donbass é importante para compreender por que os Estados Unidos fomentaram uma guerra civil na Ucrânia, dando suporte a um movimento fascista que visava e começou a exterminar uma parte da sociedade.

Não foi o presidente Putin que explorou o fato de a população de Donbass ser russa para reivindicar territórios históricos que estavam integrados à Ucrânia; foram os EUA que exploraram este fato para atrair a Federação Rússia para uma guerra por procuração.

*Tomás Amaral é formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ). Atua como documentarista e analista geopolítico.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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Publicação de: Viomundo

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