O Instituto Sou da Paz lançou nesta terça-feira (9) a campanha Vote pela Paz e a agenda Brasil em Ação pela Paz, com propostas para empurrar a segurança pública de 2026 para fora do balcão dos slogans penais e para dentro do território das metas, do orçamento e da investigação.
A iniciativa chega em um momento de disputa dura. A direita tenta transformar medo urbano, roubo de celular, facções e violência contra mulheres em atalho eleitoral. A Câmara discute a redução da maioridade penal. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vende o chamado “modelo Bukele” como vitrine de campanha.
O Sou da Paz entrou nesse debate com outro remédio. A agenda propõe cinco eixos: proteger meninas e mulheres, fortalecer polícias, enfrentar o crime organizado, reduzir roubos e retirar armas ilegais de circulação.
O documento também cobra valorização policial, investigação criminal, uso responsável de tecnologia, integração entre instituições e combate ao tráfico de armas e munições. É uma pauta de segurança, mas também uma pauta contra a fraude política de vender cadeia como solução única.
A campanha quer pressionar candidaturas a apresentarem planos consistentes, metas e compromissos reais para reduzir a violência. A diretora-executiva do Sou da Paz, Carolina Ricardo, afirmou que a população está cansada de frases de efeito, improviso e promessas simplistas.
Os números divulgados pelo instituto ajudam a explicar a disputa. A pesquisa O que pensa a população brasileira sobre segurança pública apontou que 94% reconhecem algum grau de violência na cidade onde vivem, 53% evitam sair à noite e 31% evitam usar celular na rua por medo.
A mesma pesquisa registrou que 82% veem câmeras corporais como tecnologia que protege bons policiais e produz provas contra criminosos. Outros 73% avaliam que mais armas significam mais mortes e mais violência. Para 65%, o país não precisa apenas de mais policiais, mas de polícia melhor preparada.
No Paraná, essa agenda obriga o debate eleitoral a sair da pose. Sergio Moro (PL), Ratinho Junior (PSD), Sandro Alex (PSD), Requião Filho (PDT), Gleisi Hoffmann (PT) e Alexandre Crui (PSD) precisam dizer quais metas defendem para homicídios, roubos, feminicídio, perícia, polícia científica, câmeras corporais e investigação financeira.
O governo Ratinho Junior anunciou em 2026 a previsão de convocar 5.690 profissionais da segurança pública e também apresentou pacote de R$ 338 milhões para as forças policiais e de resgate. O tamanho do investimento aumenta a cobrança: qual indicador será entregue ao eleitor, em qual prazo e com qual fiscalização pública?
Moro, que construiu carreira política sobre a retórica da lei e da punição, terá de responder se sua proposta para 2026 enfrenta o dinheiro das facções ou se fica restrita à vitrine penal. A agenda do Sou da Paz fala em Receita Federal, Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público, polícias estaduais e cooperação internacional contra lavagem de dinheiro.
Esse ponto é decisivo. Facção não vive apenas do varejo de droga. O crime organizado avança sobre combustíveis, garimpo ilegal, contrabando, bebidas, cigarros, fraude digital e estruturas de lavagem. Segundo a agenda, essas atividades movimentaram mais de R$ 350 bilhões nos últimos três anos.
A redução da maioridade penal, por outro lado, não responde sozinha a essa engenharia financeira. Também não explica quem financia o armamento ilegal, quem lava dinheiro, quem infiltra negócios legais e quem lucra com a política do medo. Punir adolescente pobre pode render palanque. Desmontar caixa de facção exige investigação, inteligência e coragem contra gente de terno.
A pauta também atravessa Curitiba. Alexandre Curi, que tenta chegar ao Senado, terá de dizer se defende câmera corporal, controle de armas, perícia forte e metas verificáveis ou se ficará no discurso de endurecimento sem custo calculado. Requião Filho e Gleisi Hoffmann, no campo progressista, terão de mostrar como transformam crítica ao populismo penal em programa de governo.
Sandro Alex, escolhido pelo grupo de Ratinho Junior para disputar o Palácio Iguaçu, carrega o bônus e o ônus da máquina estadual. Se a segurança for usada como vitrine eleitoral, o eleitor terá o direito de cobrar números: queda de roubos, esclarecimento de homicídios, proteção a mulheres, tempo de resposta, orçamento da perícia e transparência sobre abordagens policiais.
A campanha Vote pela Paz não resolve o problema brasileiro da segurança. Mas recoloca a pergunta no lugar certo: quem quer governar em 2026 vai apresentar plano com meta, dinheiro e método ou vai repetir promessa de cadeia, arma e espetáculo?

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
