A pesquisa Quaest divulgada neste domingo (14) mostra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdendo força em grupos decisivos para 2026, enquanto Lula (PT) aparece com 44% contra 38% numa simulação de segundo turno. A queda entre evangélicos, mulheres, jovens e no Sudeste dá contexto político ao bate-boca entre Janja da Silva e Silas Malafaia: a disputa religiosa deixou de ser bastidor de igreja e virou frente aberta da eleição presidencial.
O dado mais sensível está entre os evangélicos. Segundo a Quaest, Flávio Bolsonaro caiu de 61% para 52% nesse segmento, enquanto Lula subiu de 24% para 31%. O senador segue à frente no grupo, mas perdeu nove pontos em um território que o bolsonarismo tratava como quase blindado.
A diferença ainda favorece Flávio no eleitorado evangélico, mas a direção do movimento importa. Em eleição presidencial, perder margem dentro da própria base pode custar mais do que avançar pouco em terreno adversário. O problema para o filho de Jair Bolsonaro não é apenas numérico. É narrativo.
O bate-boca começou porque Malafaia ironizou os encontros de Janja com mulheres evangélicas e disse que ela se reunia com pessoas sem “nenhum pingo de expressão” no mundo evangélico. Na segunda-feira (8), durante o 4º Encontro Nacional de Evangélicos do PT, a primeira-dama reagiu dizendo que Malafaia teve “cara de pau” e que, para ela, toda mulher é importante.
Malafaia depois alegou diferença entre dizer que alguém não tem expressão pública e chamar mulheres de insignificantes. Janja, porém, transformou a crítica em combustível político. Ao responder ao pastor, ela colocou no centro do debate um grupo que a direita costuma tratar como base natural: mulheres evangélicas de baixa renda, moradoras de periferia, frequentadoras de igrejas e responsáveis por boa parte da vida concreta das famílias.
É esse o ponto que interessa à eleição. A discussão não é apenas sobre quem venceu uma troca de frases. A questão é quem tem legitimidade para falar com a mulher evangélica quando a pauta sai do púlpito e entra no mercado, no posto de saúde, no ônibus, na escola e na renda da casa.
A direita bolsonarista construiu, desde 2018, uma ponte direta com igrejas, pastores, influenciadores religiosos e famílias de periferia. Essa ponte misturou moral religiosa, antipetismo, medo social e defesa de Jair Bolsonaro. O recorte da Quaest indica que esse pacote já não circula com a mesma potência de maio.
A disputa não cabe na caricatura “Janja x Malafaia”. A primeira-dama virou personagem porque entrou num campo em que o PT foi historicamente defensivo. Malafaia virou personagem porque o bolsonarismo sempre usou lideranças religiosas como alto-falante político. A troca pública entre os dois apenas revelou que o território evangélico deixou de ser silencioso.
Evangélicas ligadas ao PT ganharam evidência após o episódio. Elas tentam conciliar fé cristã e pautas de esquerda, rejeitam a ideia de que ser crente signifique adesão automática ao conservadorismo e querem disputar uma narrativa religiosa hegemonizada por pastores alinhados ao bolsonarismo.
Essa disputa mexe com a linguagem de 2026. Quando a religião entra na política apenas como senha moral, ela fala alto, mas nem sempre responde à geladeira vazia, ao salário curto e ao ônibus lotado. Quando a política entra na igreja sem respeito, vira caricatura e reforça o adversário.
A Quaest também mostrou Lula à frente entre mulheres, com 47% contra 33% de Flávio Bolsonaro. Esse dado conversa diretamente com o recorte religioso. A mulher evangélica não é apenas fiel. Ela é mãe, trabalhadora, cuidadora, empreendedora, usuária do Sistema Único de Saúde (SUS) e, muitas vezes, administradora da sobrevivência doméstica.
A direita terá de explicar por que perdeu fôlego nesse grupo. A esquerda terá de provar que sabe dialogar sem tratar a fé popular como atraso. Esse é o limite ético e político da disputa: eleitor evangélico não é massa de manobra de pastor, de partido, de primeira-dama ou de marqueteiro.
Entre os jovens de 16 a 34 anos, a Quaest registrou Lula com 44% e Flávio com 39%. Em maio, o senador liderava esse segmento por 45% a 38%. A virada numérica mostra que a disputa digital, cultural e religiosa também passa por linguagem geracional.
O bolsonarismo domina há anos a estética de rede, meme, culto, corte de vídeo e indignação moral. Mas engajamento não é transferência automática de voto. Jovem conectado pode compartilhar guerra cultural, mas também cobra emprego, estudo, crédito, moradia, transporte e perspectiva de futuro.
O Sudeste completa o alerta. Flávio Bolsonaro chegou a liderar Lula por margem confortável na região em pesquisas anteriores, mas agora aparece numericamente com 41% contra 39%, dentro do empate técnico. O Sudeste concentra eleitorado, mídia, economia, igrejas, periferias metropolitanas e a Faria Lima que orbitou o caso Banco Master.
O recorte aparece depois da exposição de Flávio Bolsonaro no caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro que teria buscado dinheiro com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Flávio nega irregularidade. A consequência política, porém, já entrou na pesquisa: a imagem de herdeiro disciplinado do bolsonarismo passou a conviver com desgaste fora da bolha.
No Paraná, a leitura bate direto nos palanques de 2026. Gleisi Hoffmann (PT) e Dr. Rosinha (PT) têm diante de si um eleitorado evangélico que não pode ser tratado como apêndice do conservadorismo. A esquerda paranaense precisará falar com mulheres de igreja fora do tom acadêmico, fora do deboche e fora da propaganda para convertidos.
Do outro lado, Filipe Barros (PL), Deltan Dallagnol (Novo), Sergio Moro (PL) e os demais nomes da direita terão de responder se a aliança com o bolsonarismo entrega apenas radicalização ou também resposta concreta para a mulher evangélica da periferia, para o jovem sem renda estável e para o eleitor que rejeita corrupção seletiva.
A pergunta objetiva para o Paraná é simples: quem fala com mulheres evangélicas fora do púlpito de campanha? Não basta aparecer em culto, posar com pastor ou transformar fé em senha eleitoral. A disputa agora passa por escuta, renda, segurança, cuidado, escola, transporte e respeito à vida real dessas eleitoras.
A Quaest não diz que Lula venceu a disputa religiosa. Também não diz que Flávio Bolsonaro perdeu os evangélicos. O que ela mostra é mais preciso: a vantagem bolsonarista encolheu justamente onde parecia mais sólida.
Esse é o fato político. Quando uma base considerada cativa começa a se mover, todo palanque precisa recalcular linguagem, agenda e alianças. No Paraná, esse cálculo passa por Curitiba, Região Metropolitana, igrejas de bairro, redes de mulheres, juventude evangélica e periferias que não aparecem nos jantares da elite política.
O Blog do Esmael seguirá acompanhando os recortes da Quaest, os movimentos dos palanques no Paraná e a disputa pelo voto religioso, feminino e jovem nas eleições de 2026.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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