O Partido dos Trabalhadores (PT) publicou nesta segunda-feira (8) a carta do IV Encontro Nacional de Evangélicos do partido e abriu uma disputa política difícil: transformar um aceno nacional ao eleitorado evangélico em agenda concreta no Paraná, onde a campanha de 2026 já envolve Lula, Gleisi Hoffmann e Requião Filho.
O documento fala em fé, democracia, justiça social e soberania nacional. Também rejeita o uso da religião como instrumento de manipulação política. A frase mira um terreno ocupado pela direita bolsonarista nos últimos anos: igrejas, periferias, grupos de mulheres, lideranças comunitárias e redes locais de assistência.
A carta afirma que evangélicos não formam bloco político único. O recado é relevante porque o bolsonarismo tratou esse eleitorado como patrimônio eleitoral próprio desde 2018. O PT tenta dizer que há evangélicos de esquerda, evangélicos progressistas e evangélicos que votam por renda, moradia, cuidado, comida na mesa e defesa da democracia.
O texto cita programas do governo Lula (PT), como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular, Pé-de-Meia, Sistema Único de Saúde (SUS), Política Nacional de Cuidados e Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio. A escolha desloca a conversa religiosa para políticas públicas que chegam à vida cotidiana de famílias pobres.
A carta também evita temas que costumam incendiar a guerra cultural. O documento não trata de aborto, direitos da população LGBTQIA+ e questões de gênero. A ausência mostra cálculo político: o PT quer entrar na conversa evangélica por justiça social, não por confronto direto em pautas usadas pela extrema direita para produzir medo.
No Paraná, o teste será menos retórico. A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), pré-candidata ao Senado, e o deputado estadual Requião Filho (PDT), pré-candidato ao governo do Paraná, terão de mostrar se a carta vira agenda pública, comitê, encontro municipal, conversa em bairros, diálogo com pastorais e aproximação com lideranças evangélicas progressistas.
Sem isso, o documento fica em Brasília. Com isso, pode abrir uma frente nova na disputa estadual, sobretudo em Curitiba, Região Metropolitana, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa e cidades médias onde igrejas evangélicas têm presença social diária em territórios abandonados pelo poder público.
A direita paranaense não deve assistir calada. O senador Sergio Moro (PL) e o campo bolsonarista tratam segurança pública, costumes e antipetismo como atalhos para falar com parte desse eleitorado. A carta do PT tenta furar esse bloqueio com renda, cuidado, combate à fome, moradia e defesa da vida.
A pergunta concreta é quem fará essa tradução no chão do Paraná. Sindicatos falam com trabalhadores. Pastorais falam com comunidades. Lideranças evangélicas progressistas falam com fiéis que não se reconhecem no bolsonarismo. Mas campanha se ganha com organização, presença e linguagem compreensível, não apenas com documento nacional.
Para Gleisi, o tema mexe diretamente com a corrida ao Senado. A eleição majoritária exige voto fora da militância tradicional. O eleitor evangélico de periferia pode rejeitar a tutela bolsonarista, mas também não será convencido por discurso partidário fechado em siglas, seminários e linguagem de diretório.
Para Requião Filho, o desafio é estadualizar a conversa. O Paraná tem disputa sobre escola pública, pedágio, saúde, tarifa, emprego, moradia e segurança. A carta evangélica só terá peso eleitoral se essas pautas aparecerem como compromisso local, com nome, município, proposta e cobrança ao governo Ratinho Junior (PSD).
O limite factual é claro: até a publicação desta matéria, não há agenda paranaense pública confirmada a partir da carta do IV Encontro Nacional de Evangélicos do PT. O fato confirmado é o documento nacional. A leitura política é que ele só terá efeito real se virar ação organizada no Paraná.
A esquerda já sabe que não vence 2026 falando apenas para si mesma. A carta evangélica do PT coloca essa constatação no papel. O próximo passo dirá se Gleisi, Requião Filho e o campo progressista terão coragem política, método e capilaridade para disputar um eleitorado que a direita tentou transformar em curral religioso.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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