Por Jeferson Miola, em seu blog
Em 15 de outubro de 2024 renomados/as economistas publicaram uma Carta aberta ao CMN [Conselho Monetário Nacional] pedindo mudança da meta de inflação de 3% para 4%, “de modo a permitir um crescimento mais equilibrado da economia brasileira”.
Como o tempo comprova, o CMN –órgão do governo integrado pelos ministros da Fazenda e Planejamento mais o presidente o Banco Central– preferiu não dar atenção à Carta aberta assinada por Luiz Gonzaga Belluzzo/Unicamp, Carmem Feijó/UFF, Demian Fiocca/USP, Fernando Ferrari Filho/UFRGS, Gilberto Tadeu Lima/USP, Leda Paulani/USP, Lena Lavinas/UFRJ, Luiz Fernando de Paula/UFRJ e Nelson Marconi/FGV.
Com isso, o governo segue refém até hoje de uma meta de inflação absurdamente irrealista que se autoimpôs. Apesar de ser uma meta sabidamente inviável para a realidade brasileira, Gabriel Galípolo a usa como pretexto para preservar a política de juros ao gosto do rentismo.
Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal [19/5], Galípolo sustentou que “a taxa de juros é ou está sistematicamente e estruturalmente mais alta” que outros países semelhantes porque o Brasil não cumpre regularmente a meta.
Como bom sofista, Galípolo mostrou a suas excelências apenas esse fragmento da realidade, mas escondeu a totalidade.
Ele escondeu, por exemplo, que desde a adoção do regime de metas inflacionárias, em 1999, a meta de inflação foi fixada em no mínimo 4% até 2020, chegando a ser de até 8,5%, com bandas superior e inferior de 2% em quase todos anos.
Neste período de 22 anos, a meta foi descumprida somente em três ocasiões [2001, 2002 e 2015], ou seja, em apenas 13,6% do tempo. E, por outro lado, desde que a meta passou a ser reduzida para menos de 4% a partir de 2021 até alcançar os 3% atuais, ela foi estourada em 60% do período:

Parece evidente, portanto, a existência duma relação de causa e efeito entre o descumprimento da meta e o patamar irrealisticamente baixo estabelecido pelo governo.
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Importante registrar que em 2024 a inflação foi de 4,83%, e, portanto, ultrapassou a banda superior da meta em 0,33%. Apesar da pequena ultrapassagem do limite superior da meta, a gestão Galípolo acentuou a dose cavalar de juros da diretoria de Roberto Campos Neto.
A meta de 3% que Belluzzo e coautores/as da Carta ao CMN consideraram “disfuncional” e “excessivamente baixa para uma economia com as características da brasileira”, só foi alcançada uma única vez em 27 anos: em 2017 – 2,95%, com recessão.
No período todo de 1999 a 2025, o Brasil teve uma inflação média de 6,3% ao ano, que é mais que o dobro da meta atual de 3% – realidade empírica que um acadêmico diferenciado como Galípolo jamais poderia ignorar.
A meta de inflação de 3% não traz nenhum benefício à economia e à sociedade brasileira, e só tem uma utilidade: servir como álibi para a rapinagem permanente do orçamento da União via despesas financeiras para o pagamento da dívida pública. Em 2025, a dívida consumiu quase dois trilhões de reais – mais de 35% de todas despesas do governo federal no ano.
Seguindo à risca as metas iniciadas por Campos Neto, o presidente-sofista do BC também se empenha em aprovar a PEC 65/2023, medida que transforma o BC numa sucursal da Faria Lima/PCC controlada por tecnocratas das finanças escolhidos no seio do rentismo, e que substituirão funcionários estáveis e independentes aprovados em concursos públicos – será o lobo cuidando do galinheiro.
“Se o Senado quer realmente ajudar a governança do Banco Central, pelo amor de Deus, aprova o projeto que está há dez anos na Câmara e dá autonomia para o Banco Central”, suplicou Galípolo.
Esta proposta indecente do Campos Neto, que Galípolo defende com espantosa devoção ao divino, é um caminho fértil para a proliferação de esquemas mafiosos tipo BolsoMaster.
Se viabilizada, Danieis Vorcaros da vida nem precisariam subornar funcionários de carreira – escalariam diretamente seus prepostos para missões do gênero.
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Publicação de: Viomundo
