Deltan Dallagnol afirmou no sábado, 18 de julho, que a eleição de 2026 será decisiva para a sobrevivência política do Partido Novo, enquanto Romeu Zema citou Michelle Bolsonaro como uma possibilidade para sua vice-presidência. A combinação dos dois movimentos revela o impasse da legenda: precisa ampliar votos e bancadas, mas lança uma candidatura presidencial que disputa o mesmo eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O ex-deputado federal e pré-candidato ao Senado pelo Paraná classificou o pleito como “a eleição das nossas vidas”. Segundo Deltan, o Novo poderá ter dificuldade para superar futuramente a cláusula de desempenho caso fracasse nas urnas em outubro.
A cláusula não extingue partidos. Ela condiciona o acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Em 2026, a legenda precisa eleger pelo menos 13 deputados federais distribuídos por nove estados ou alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, com votação mínima de 1,5% em nove unidades da Federação.
Deltan comparou a disputa de uma legenda sem recursos públicos ao enfrentamento de adversários fortemente armados com apenas um estilingue. A declaração transforma sua pré-candidatura ao Senado no Paraná em uma peça da operação nacional para preservar dinheiro, propaganda, estrutura parlamentar e capacidade de atrair novos candidatos.
O discurso também relativiza a imagem construída pelo Novo como partido independente dos fundos públicos. A legenda passou anos usando a recusa de recursos partidários como marca política, mas chega à eleição de 2026 tratando o acesso ao fundo como condição para competir em igualdade com as demais siglas.
O presidente nacional do Novo, Eduardo Ribeiro, apresentou um diagnóstico simultaneamente otimista e alarmante. Disse que o partido estava “morrendo” em 2022, quando chegou à eleição com aproximadamente 30 mil filiados, mas afirmou que a legenda reúne agora 83 mil integrantes, cinco deputados federais e um senador.
A expansão de filiados não eliminou o risco eleitoral. O Novo precisa transformar crescimento cadastral em votos para deputado federal, porque a eleição de senadores, governadores ou do presidente da República não conta diretamente para o cumprimento da cláusula.
No mesmo encontro, Zema abriu outro problema para a legenda. Questionado sobre interações de Michelle Bolsonaro com suas publicações nas redes sociais, o pré-candidato respondeu que ela era uma possibilidade, assim como outros nomes, e destacou a condição de ficha limpa. Não houve anúncio de convite, negociação com o Partido Liberal (PL) ou autorização da ex-primeira-dama para o uso político de seu nome.
Michelle rejeitou a hipótese horas depois. Afirmou que não definiu sequer uma eventual candidatura ao Senado, lembrou que permanece filiada ao PL e declarou que não existe possibilidade de ocupar a vice de Zema. Ela também argumentou que uma mesma legenda não poderia integrar duas chapas presidenciais concorrentes.
A negativa mantém a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro protegida dentro do PL. Também responde a uma das perguntas levantadas pelo aceno de Zema: Michelle não havia autorizado negociação, não aceitou convite e não anunciou rompimento partidário.
A conversa mais concreta do Novo ocorre com o Podemos. Eduardo Ribeiro afirmou que mantém negociações com a presidente da legenda, Renata Abreu, para uma eventual composição na vice. O partido marcou para 27 de julho a convenção destinada a homologar a candidatura presidencial de Zema, mas pretende deixar a definição da coligação aberta até 5 de agosto.
O caso ganha outra dimensão no Paraná. Flávio Bolsonaro anunciou apoio às pré-candidaturas de Deltan Dallagnol e Filipe Barros (PL) ao Senado. Deltan também divide o palanque estadual com Sergio Moro (PL), pré-candidato ao governo, num arranjo que aproxima o Novo paranaense do projeto nacional do PL.
Em maio, Deltan afirmou que a polarização entre Lula (PT) e a família Bolsonaro não deixava espaço para uma segunda candidatura competitiva da direita, citando diretamente Zema. A declaração contrasta com a estratégia oficial do partido ao qual pertence, que mantém candidatura própria à Presidência.
Não apareceu, nas declarações públicas examinadas pelo Blog do Esmael, anúncio de apoio de Deltan a Zema no primeiro turno. Também não foi apresentado documento sobre um acordo formal de voto cruzado pelo qual o Novo apoiaria Moro no Paraná enquanto o PL preservaria Deltan na chapa ao Senado.
Esse silêncio será difícil de sustentar durante a campanha. Deltan precisa dos votos da base de Flávio Bolsonaro para chegar ao Senado, mas sua legenda precisa dos votos de Zema para crescer nacionalmente. Moro, por sua vez, depende do PL e abriga em sua chapa um nome do partido que concorrerá contra o presidenciável escolhido pelo bolsonarismo.
A questão central deixou de ser se Michelle poderá ser vice de Zema. Ela própria descartou essa possibilidade. O conflito agora está dentro do Novo: a legenda admite que precisa sobreviver às urnas, mas ainda não explicou como seus candidatos estaduais conciliarão a candidatura de Zema com alianças construídas sob o palanque de Flávio Bolsonaro.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura dos palanques do Paraná e das eleições de 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
