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Augusto Cury (Avante) saltou de 2% para 11% na pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (31), assumiu isoladamente a terceira colocação e passou a ocupar um espaço eleitoral que atinge Lula e Flávio Bolsonaro; no Sul, onde chega a 10%, o resultado contrasta com a Atlas/Bloomberg, que encontrou vantagem do petista na região.
A candidatura do escritor Augusto Cury entrou em uma nova faixa da eleição presidencial de 2026. Na 12ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, Cury saiu de 2% para 11% em apenas uma semana no cenário estimulado de primeiro turno. O salto de nove pontos o colocou à frente de todos os candidatos da chamada terceira via e transformou sua candidatura em fator relevante para a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
O movimento ocorreu simultaneamente à queda dos dois líderes. Lula recuou de 41% para 39%, enquanto Flávio Bolsonaro caiu de 37% para 33%. Romeu Zema (Novo) também perdeu espaço, passando de 3% para 1%. Ronaldo Caiado (PSD) permaneceu com 5%, e Renan Santos (Missão), com 3%.
A fotografia produzida pela Nexus revela, portanto, uma mudança importante na distribuição do voto. Cury sozinho passou a ter mais intenção de voto do que Renan Santos, Caiado e Zema somados. A terceira via deixou de ser uma disputa pulverizada entre quatro nomes e passou a ter um candidato dominante.
O dado mais expressivo está na origem do crescimento. Segundo a própria Nexus, Lula perdeu dois pontos na comparação da rodada, Flávio quatro e Zema dois. O instituto avalia que Cury avançou sobre uma parcela do eleitorado insatisfeita com a polarização entre lulismo e bolsonarismo.
A leitura do diretor de pesquisa da Nexus, André Jácomo, reforça a dimensão do movimento. No primeiro turno, Cury cresceu nove pontos. Na simulação de segundo turno entre Lula e Flávio, entretanto, parte desse eleitorado retorna aos dois polos: 23% dos eleitores de Cury migram para Lula, 46% para Flávio e 29% dizem que votariam branco ou nulo.
Isso ajuda a explicar por que o fenômeno é mais perigoso para a polarização do primeiro turno do que para a definição imediata do segundo. Cury ainda não ameaça matematicamente a passagem de Lula e Flávio, mas já interfere na quantidade de votos disponíveis para os dois principais candidatos.
A geografia do voto torna o movimento ainda mais relevante.
No Nordeste, principal território eleitoral de Lula, Cury chega a 14%. Na região, Lula aparece com 48%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 25%. No Sudeste, onde Flávio alcança 31% contra 40% de Lula, Cury registra 10%. No Sul, o escritor também marca 10%, enquanto Flávio chega a 47% e Lula a 28%.
O avanço simultâneo no Nordeste e no Sudeste é especialmente significativo porque Cury não está crescendo apenas em uma área ideologicamente homogênea. O candidato do Avante aparece com dois dígitos tanto no Nordeste lulista quanto no Sudeste, onde a direita bolsonarista tem uma base eleitoral mais forte.
O Sul oferece um capítulo à parte.
Na Nexus, Cury tem 10% na região. É praticamente o mesmo desempenho registrado no Sudeste e fica cinco pontos acima de sua média nacional. O dado chama atenção porque o Sul aparece como a região mais favorável a Flávio Bolsonaro na pesquisa telefônica: 47%, contra 28% de Lula.
O resultado contrasta com a nova Atlas/Bloomberg. No levantamento divulgado nesta segunda-feira (31), Lula aparece com 46,9% no Sul, enquanto Flávio Bolsonaro registra 32,5%. A Atlas, portanto, desenha uma região muito mais favorável ao petista do que a Nexus.
A diferença metodológica é relevante. A Nexus entrevistou 2.005 pessoas por telefone entre 28 e 30 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro BR-08900/2026. A Atlas/Bloomberg ouviu 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto por recrutamento digital aleatório, com margem de erro de um ponto e registro BR-07972/2026.
Mesmo com métodos diferentes, há uma convergência nacional entre os dois levantamentos: Cury avançou para a terceira posição. Na Atlas, ele passou de 1,6% para 7,8%, enquanto Lula aparece com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7%.
A diferença está na intensidade. Na Nexus, Cury chega a 11%, seis pontos acima da Atlas. É uma distância grande demais para ser tratada apenas como arredondamento, embora os institutos utilizem metodologias e amostras distintas.
O avanço também muda a relação de forças dentro do campo que tentava ocupar o espaço à direita da polarização. Renan Santos continua em 3%, Caiado em 5% e Zema caiu para 1%. Cury, com 11%, passa a ter mais do que o dobro de Caiado e quase quatro vezes a pontuação de Renan Santos.
O fenômeno, portanto, não significa que Cury tenha absorvido toda a direita. Os próprios números mostram que Caiado e Renan permaneceram estáveis. Mas a ascensão do escritor reduz drasticamente o espaço disponível para esses candidatos e interrompe a tentativa de construção de uma terceira via pulverizada.
Há ainda um dado que ajuda a dimensionar o potencial eleitoral de Cury: na espontânea, quando o entrevistado não recebe a lista de candidatos, ele saltou de 1% para 8%. A evolução é particularmente relevante porque indica que o crescimento não aparece apenas quando o nome é apresentado ao eleitor.
A Nexus também registra que Cury foi o candidato mais buscado no Google na semana anterior e conquistou mais de 2 milhões de novos seguidores nas redes sociais.
A eleição, entretanto, ainda está longe de ter uma nova configuração consolidada. O segundo turno entre Lula e Flávio permanece praticamente intacto na Nexus: 46% para o petista e 45% para o senador, exatamente os mesmos números da rodada anterior.
É justamente aí que está o paradoxo de Cury: ele cresce fortemente no primeiro turno, mas boa parte desse eleitorado ainda retorna aos dois polos quando a escolha fica restrita a Lula e Flávio.
O risco para os dois líderes está, portanto, menos no segundo turno imediato e mais na capacidade de Cury continuar convertendo visibilidade em voto. Se o escritor mantiver dois dígitos, a eleição deixa de ser uma simples disputa pela liderança entre Lula e Flávio e passa a incluir uma terceira candidatura capaz de retirar votos dos dois lados.
A próxima rodada será decisiva para saber se os 11% representam uma onda passageira provocada pela exposição recente ou o nascimento de uma candidatura nacional competitiva.
Leia, compare os números e acompanhe a disputa presidencial de 2026 no Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
