A pressão do Republicanos contra a hipótese de Cristina Graeml (PSD) disputar o Senado pela chapa de Sandro Alex (PSD) abre, esta semana, a primeira crise pública da engenharia eleitoral de Ratinho Junior (PSD) no Paraná. O conflito atinge Alexandre Curi (Republicanos), testa o lema “unidos e em paz” e pode empurrar parte da base governista para uma composição com Rafael Greca (MDB) em 2026.
Nem tudo são flores no reino de Ratinho no Paraná. O slogan “unidos e em paz”, lapidado na comunicação política do grupo governista pelo marqueteiro argentino Jorge Gerez, agora enfrenta prova empírica: quando a propaganda encontra a divisão real de poder, a paz precisa caber na chapa. O desarranjo surgiu com Cristina Graeml, jornalista recém-filiada ao PSD, que entrou no partido de Ratinho com ambição majoritária e passou a ser tratada como variável de risco pelo Republicanos.
Líderes do Republicanos pressionam Ratinho Junior contra a candidatura de Cristina ao Senado. A sigla quer evitar desgaste eleitoral para Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e pré-candidato ao Senado. A solução defendida por esse campo é deslocar Cristina para a vice-governadoria na chapa de Sandro Alex, preservando Curi na disputa senatorial e impedindo uma concorrência interna pelo mesmo eleitorado conservador, curitibano, antipetista e de classe média.
A crise tem origem na montagem feita pelo Palácio Iguaçu em abril. Ratinho Junior apresentou Sandro Alex como seu nome ao governo do Paraná e Alexandre Curi como seu candidato ao Senado. A operação parecia simples: Sandro herdaria a máquina, Curi seguraria a Assembleia e Cristina ajudaria a capturar uma faixa da direita urbana que se aproximou dela na eleição de Curitiba em 2024. O problema é que eleição para o Senado tem duas vagas, mas também tem dois votos, e cada voto pode virar disputa entre aliados que conversam com o mesmo público.
A primeira leitura do Palácio Iguaçu era que uma chapa com Curi e Cristina ao Senado poderia bloquear o segundo voto para Deltan Dallagnol (Novo) ou Filipe Barros (PL), dois nomes que transitam no campo da direita paranaense e disputam influência sobre o eleitorado bolsonarista, lavajatista e antipetista. A conta fazia sentido no papel: ocupar os dois espaços antes que adversários internos capturassem a segunda preferência do eleitor. O Republicanos, porém, passou a enxergar a mesma fórmula como ameaça direta a Curi.
A divergência é concreta. Para o Republicanos, Cristina não funcionaria apenas como barreira contra Deltan ou Filipe; ela poderia provocar uma canibalização interna, qual seja, virar concorrente de Curi dentro do próprio palanque governista. A jornalista tem recall em Curitiba, fala com o eleitor conservador que rejeita o PT e carrega a marca de ter chegado ao segundo turno contra Eduardo Pimentel (PSD) em 2024. Esse é justamente o eleitor que Curi precisa para transformar sua força institucional na Alep em voto majoritário no Paraná.
Ratinho tentou vender unidade, mas a unidade agora cobra preço. Se Cristina for confirmada ao Senado, Curi perde previsibilidade. Se Cristina for deslocada para vice, ela pode considerar que recebeu um prêmio menor do que o prometido na entrada no PSD. Se for empurrada para a Câmara Federal, o Palácio Iguaçu corre o risco de transformar uma aliada recém-chegada em foco de ressentimento político. A engenharia de Ratinho, portanto, deixou de ser uma soma de apoios e virou uma disputa por hierarquia.

Também pesa no desarranjo do grupo de Ratinho Junior o desconforto com o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), fiador eleitoral importante na capital, maior colégio eleitoral do Paraná. A Paraná Pesquisas mostrou Pimentel com 78% de aprovação em Curitiba, dado que transforma sua ausência no palanque de Sandro Alex (PSD) em ruído político concreto.
Até agora, o prefeito curitibano não se incorporou à linha de frente da pré-campanha governista, e aliados atribuem o distanciamento ao incômodo com a presença de Cristina Graeml, adversária direta de Pimentel no segundo turno de 2024 e hoje tratada pelo Palácio Iguaçu como peça da chapa majoritária.
O risco maior para Sandro Alex é o Republicanos concluir que a chapa governista não protege o projeto de Alexandre Curi. Nesse cenário, não está descartado um rompimento com o Palácio Iguaçu. A hipótese ainda não é fato consumado, mas já produz consequência política: obriga Ratinho a renegociar espaços, expõe fragilidade na sucessão estadual e mostra que a candidatura de Sandro depende menos de propaganda e mais de disciplina entre aliados que têm ambições próprias.
Se entrar água no chope de Ratinho e Sandro Alex, o MDB passa a observar a crise com interesse direto. Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, marcou para sábado (20), na Sociedade Thalia, o lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Paraná. Greca e Curi mantêm pontes políticas desde antes da janela partidária de março, quando a movimentação para 2026 já redesenhava o cenário estadual. Uma ruptura do Republicanos com o Palácio Iguaçu poderia transformar o MDB em alternativa para quem não aceitar a acomodação imposta por Ratinho.
Esse é o fato novo das eleições paranaenses. O Palácio Iguaçu ainda controla a máquina, tem prefeitos, estrutura partidária, Assembleia e tempo para remendar a chapa. Mas a crise envolvendo Cristina Graeml mostra que o poder de Ratinho não elimina o custo das promessas feitas a aliados. O governador prometeu Curi ao Senado, atraiu Cristina para dentro do PSD e abençoou Sandro Alex para a sucessão. Agora precisa explicar como todos cabem no mesmo palanque sem que um reduza o espaço do outro.
A pergunta que passa a organizar o jogo é se o Republicanos está apenas aumentando o preço do acordo ou se prepara uma mudança de rota. Se a pressão resultar na vice para Cristina e na preservação de Curi ao Senado, Ratinho terá contido o incêndio. Se a crise empurrar Curi para Greca, Sandro Alex perderá musculatura institucional antes mesmo das convenções. Em política, “unidos e em paz” só vale quando a divisão do poder confirma a frase.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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