Allan de Campos: Dúvida por quê?

Dúvida por quê?

Resistências biológicas na trama do capital

Por Allan de Campos*, na Igrá Kniga

Nesta semana, dois fatos desconexos e de aparente pouca importância vieram a público no Brasil:

O primeiro fato aconteceu na manhã do dia 7 de maio, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) suspendeu “a fabricação, comercialização e distribuição de diversos produtos da marca Ipê”, conhecida pelo detergente mais vendido no país e por ter doado 1 milhão de reais à campanha de Bolsonaro em 2022 — uma mancha que mesmo seu lava roupas mais potente não seria capaz de remover.

Ainda de acordo com a Anvisa, devido a falhas graves da fábrica em Amparo, no interior de São Paulo, foram identificadas cepas da bactéria Pseudomonas aeruginosa, um microrganismo bastante comum no ambiente e que apresenta elevada resistência, mesmo quando exposto a certos produtos químicos.

A proibição da comercialização estaria associada à riscos à saúde humana, que ainda precisam ser melhor esclarecidos em função da quantidade da bactéria encontrada nos produtos e a patogenicidade das cepas.

Divulgação: Ipê

Isso porque, em ambientes hospitalares tem se tornado cada vez mais comum a ocorrência de cepas patogênicas de Pseudomonas aeruginosa que desenvolvem resistência a antibióticos, e por isso, são chamadas de superbactérias.

Outros fatores como forma de exposição e perfil de saúde de possíveis pessoas expostas é que vão definir se os produtos da Ipê oferecem risco ampliado à população ou não.

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De toda forma, pessoas imunossuprimidas, como pacientes em tratamento de câncer, são mais suscetíveis à adoecerem em contato com essas bactérias. Enfim, é acertada a decisão da Anvisa que preza pelo princípio da precaução em nome da saúde coletiva.

O outro fato foi relatado em reportagem de Adriana Amâncio para a série “O Agro quer tudo”, e dá conta de uma preocupação crescente entre produtores de soja:  o avanço da planta conhecida como caruru-gigante, Amaranthus palmeri, sobre áreas de monocultura de soja.

Essa erva tem se mostrado resistente à agrotóxicos como o glifosato. Como sabemos, o castelo de cartas inteiro do agronegócio da soja repousa sobre o pacote tecnológico conhecido como Roundup Ready, que faz o plantio de sementes geneticamente modificadas para resistirem ao glifosato, utilizado extensa e intensivamente para garantir que somente a soja seja capaz de nascer em seus campos de cultivo.

O tema das ervas resistentes à agrotóxicos tem sido pontuado como um forte obstáculo, a médio e longo prazo, para a capacidade de sobrevivência deste arranjo produtivo.

Estudos mostram como a utilização de glifosato está diretamente associada ao aumento da ocorrência de espécies de ervas resistentes à substância.

Nos últimos 10 anos no Brasil o número de espécies de ervas resistentes a agrotóxicos saltou de 39 para 61.

Caruru-gigante – um pé desta planta resistente a agrotóxicos pode produzir até 600.000 sementes

Ao menos um parágrafo aqui devo dedicar aos problemas do glifosato para a saúde humana, afinal um dos mais citados artigos que atestava a segurança do glifosato foi despublicado após 25 anos de estragos na saúde pública global.

Constatou-se que funcionários da Monsanto, que fabrica o agrotóxico, teriam escrito o artigo como autores fantasma.

No campo da saúde coletiva brasileira já existe um importante corpus crítico ao uso de agrotóxicos, como pode ser observado, por exemplo, na publicação do Dossiê Agrotóxicos e Saúde Reprodutiva, escrito por pesquisadoras do GT Saúde e Ambiente da Abrasco, ou pelos diversos trabalhos científicos publicados no âmbito do NEAST da UFMT e da FIOCRUZ.

O glifosato é provável cancerígeno e disruptor endrócrino e pode causar alterações hormonais, reprodutivas e tireoidianas.

Ilustração: Allan McDonald (UITA)

Enfim, por trás de ambos os fatos reside uma estranha trama de resistência: plantas e microrganismos manifestam a sua agência biológica nas fazendas do agronegócio e nas instalações da indústria de alimentos, tal como podemos perceber também nos casos da influenza aviária na China e nos EUA ou nas contaminações de chocolates da Kinder na Bélgica.

Isso acontece em parte porque as concepções e atitudes modernas em relação à natureza se baseiam em um mecanicismo reducionista que pressupõe um mundo confinado e sob estrito controle da tecnociência capitalista.

Suas soluções, portanto, só podem funcionar plenamente em um mundo desterrado e controlado a vácuo.

Mas, ao desprezar a capacidade evolutiva de plantas e microrganismos, a indústria capitalista, em sua dependência doentia da homogeneidade mercantil, cria mecanismos para a evolução da resistência biológica, capazes de sabotar os mesmos constrangimentos produtivos que ela deseja impor.

Isso não significa, no entanto, que a resistência biológica à homogeneidade do capital está jogando a favor de uma sociedade capaz de melhor tramar relações com plantas, microrganismos, biomas ou doenças.

Na verdade, os dois casos acima nos mostram que quando a tecnociência se vê prestes a perder o controle, acaba por duplicar a aposta no seu modelo cego e autodestrutivo — por insuficiência cosmológica e por não saber enxergar o mundo de outro jeito.

Já estamos assistindo ao aumento das doses de agrotóxicos e a novas misturas, os coquetéis, se proliferando para dar conta do cada vez menos eficiente glifosato. E as superbactérias que evoluem sob a pressão antibiótica moderna, não vão recuar quando perceberem que podem deixar seres humanos mortos pelo caminho.

Por isso, apesar da metáfora, a resistência biológica ao capital precisa das tramas humanas para dar origem a arranjos de apoio-mútuo, como preconiza o melhor da biologia anticapitalista, ao menos desde Kropotkin e Lynn Margulis. Afinal, é capaz que tenhamos mais em comum com algumas bactérias do que com CEOs das corporações do agro-químico-négocio.

Esses contra-exemplos nos mostram a verdadeira falência dos modelos explicativos e produtivos baseados numa falsa acepção de natureza morta. Nos sairemos muito melhores quando aprendermos a fazer parentes com plantas e microrganismos.

O único porém é que para isso a indústria e a forma da mercadoria como tais, terão que ser abolidas, em direção aos povos da megadiversidade, afinal, o futuro é ancestral.

Por fim, deixo um convite para participar do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, organizado pela Abrasco, a ser realizado entre 26 e 30 de maio em Cuiabá. Mais informações em: https://sibsa.org.br/

*Allan de Campos é geógrafo, pesquisador de pós-doutorado na UNESP e membro do GT Saúde e Ambiente da Abrasco.

Publicação de: Viomundo

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