Por Marcelo Zero*
Há um mito que está circulando nas mídias brasileiras e ocidentais, sempre bastante desinformadas, sobre o conflito na Ucrânia.
O mito é o de que a “guerra dos drones” promovida pela Ucrânia está desequilibrando o cenário do conflito a favor de Kiev e que a Rússia estaria sofrendo muitos danos “irrecuperáveis” e começando a “perder a guerra”.
Ora, se bem que é verdade que a Ucrânia está conseguindo atingir alvos dentro da Rússia, inclusive civis, e provocando danos na infraestrutura econômica russa, como em refinarias, por exemplo, os prejuízos vêm sendo grosseiramente exagerados pela mídia ocidental.
Fala-se, por exemplo, em prejuízos de mais de US$ 13 bilhões para a indústria de hidrocarbonetos russa. São números grosseiramente exagerados. Para alguns think tanks, como o conservador Carnegie Endowment, por exemplo, esses prejuízos não chegariam a um décimo desse número inflado.
Esse “catastrofismo” em relação à Rússia não é novo.
No início do conflito, a maioria das organizações econômicas internacionais acreditava que a Rússia entraria em colapso. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Goldman Sachs previram uma queda de 10% no PIB russo, em 2022. O Barclays previu 12,4%. O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) previu 15%. O mais cauteloso de todos foi o Bloomberg Economics, sob a direção de Alexander Isakov, que previu uma contração de 9%.
No entanto, para surpresa dos “analistas” ocidentais, a Putinomics floresceu em 2023-24, com os primeiros sinais de crescimento surgindo já em meados de 2022. Em apenas dois anos, o PIB cresceu 9%, enquanto a renda monetária, ajustada pela inflação, aumentou em até 15%.
Do lado oposto, contudo, as notícias continuam ruins.
A Rússia vem respondendo à campanha de drones da Ucrânia com uma chuva de mísseis balísticos e hipersônicos de alta potência e precisão. Apenas em julho, houve mais de 200 lançamentos, especialmente na região de Kiev.
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Esses mísseis vêm causando enormes prejuízos à infraestrutura de energia da Ucrânia.
Entretanto, o problema maior para a Ucrânia é o bloqueio marítimo que a Rússia está conseguindo impor no Mar Negro.
Os portos de Odessa, a espinha dorsal das exportações ucranianas, estão paralisados. Ameaçados no início da guerra, esses portos de águas profundas reabriram primeiro com um acordo de grãos intermediado pela Turquia e, em seguida, com um corredor protegido para a Ucrânia em 2023.
Mas, agora, a Rússia resolveu interromper de vez essa artéria vital para a Ucrânia, inclusive atacando navios que se movimentavam pelo Mar Negro, como foi o caso de um navio cargueiro de propriedade turca, que foi bombardeado quando saía de Chornomorsk, um dos três grandes portos da região.
O Mar Negro ucraniano tornou-se, desse modo, algo semelhante ao estreito de Ormuz. O pior é que a alternativa de usar o rio Danúbio já não existe mais, pois suas águas estão em nível muito baixo.
Essa situação está se tornando mortal para as exportações de grãos da Ucrânia.
A Ucrânia ainda tem cerca de 50 milhões de toneladas de colheitas ainda por transportar. E o transporte por via terrestre não é uma boa alternativa. Como bem afirmou Dmytro Barinov, presidente da associação Ukrport: “Um navio de 100 mil toneladas equivale a 5 mil caminhões, 5 mil motoristas e 5 mil procedimentos de fronteira”.
Caso a situação persista, a coisa pode piorar muito. Se a colheita atual não puder ser vendida, os agricultores provavelmente irão pular a temporada de plantio de inverno por completo, afirmou Alex Lisitsa, presidente do Clube Ucraniano de Agronegócios, à revista The Economist. Assim, tal situação poderia elevar as perdas na agricultura ucraniana para algo entre US$ 10 e 12 bilhões, disse ele, cerca de 5% do PIB oficial.
Isso seria desastroso para uma economia já bastante combalida.
No primeiro trimestre de 2026, a economia ucraniana já havia caído 0,5% e a inflação já estava beirando os 10% ao ano. Segundo a OCDE, desde o início da guerra, o déficit fiscal da Ucrânia se mantém em cerca de 20% do PIB.
De acordo com a OCDE, “o déficit em conta corrente aumentou para 15,0% do PIB em 2025, com o valor das importações de máquinas e equipamentos crescendo 36% em relação ao ano anterior, principalmente para uso nos setores de energia e defesa. O valor das importações de energia também aumentou a partir de outubro de 2025 devido à intensificação dos ataques à infraestrutura energética, atingindo 5% do PIB em 2025. O déficit comercial aumentou ainda mais no primeiro trimestre de 2026, impulsionado novamente pelas importações relacionadas à defesa e energia, bem como pelo aumento dos preços da energia. As importações de combustíveis e energia foram 52% maiores do que no ano anterior. As exportações de grãos também foram prejudicadas pelos danos à infraestrutura logística e pela reintrodução das tarifas e cotas da UE a partir de junho de 2025. As autoridades continuaram a intervir nos mercados cambiais para ajudar a suavizar as flutuações na demanda por moeda estrangeira. A volatilidade da taxa de câmbio aumentou após o início do conflito no Oriente Médio. As reservas diminuíram 16,5%, para US$ 48,2 bilhões (4,9 meses de cobertura de importações) entre fevereiro e maio de 2026”.
Na realidade, não fosse a ajuda externa que o Ocidente proporciona à Ucrânia (cerca de US$ 45 bilhões ao ano), esse país já teria quebrado há muito.
Quase 17% da população ucraniana estão reduzindo seus gastos com alimentação e o rendimento médio da PEA da Ucrânia está em torno de US$ 700 ao ano, muito baixo para um país europeu.
Paradoxalmente, há grande escassez de mão de obra, devido à forte emigração, aos deslocados internos, ao grande número de lesionados de guerra e ao alistamento forçado dos homens em idade ativa.
A visita recente do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscou, teve, como um dos objetivos, pedir algum alívio a Putin, para evitar complicações maiores à economia ocidental, já combalida com a derrota dos EUA no Irã e com a paralisação do Estreito de Ormuz.
Mas, enquanto a Otan continuar a apoiar o esforço de guerra da Ucrânia, é pouco provável que a Rússia ceda qualquer coisa.
Putin está sendo pressionado a adotar uma linha mais dura contra a Ucrânia. Coisa pior pode vir.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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