Por Fernando Nogueira da Costa*
O professor entrou na sala exatamente na hora marcada. Carregava o mesmo livro-texto usado há vários anos, desde sua pós-graduação em uma antiga Escola de Economia. Agora, estava já cheio de anotações em suas páginas amareladas. Depositou-o sobre a mesa como quem coloca um Código Civil sobre o púlpito de um tribunal.
Sem sequer dizer bom-dia, escreveu no quadro: “O Brasil cresce pouco porque poupa pouco”.
Virou-se para a turma.
— Esta é uma das leis fundamentais da Economia. Quanto maior a poupança, maior o investimento. Quanto maior o investimento, maior o crescimento.
Os alunos copiaram a frase.
Depois ele desenhou duas curvas cruzadas, uma para baixo e outra para cima.
— No eixo vertical (i), está a taxa de juros da economia. No eixo horizontal (Y), está a Renda Nacional ou o PIB. A Curva de Poupança (S) sobe da esquerda para a direita, pois quanto maior a renda ou o juro, mais as pessoas poupam. A Curva de Investimento (I) desce da esquerda para a direita, pois juros altos encarecem empréstimos e reduzem o investimento das empresas. O ponto de equilíbrio é onde a curva S cruza a curva I, cuja taxa de juro iguala o total poupado na economia com o total investido .
Fez uma pequena pausa.
— Alguma dúvida?
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No fundo da sala, um estudante levantou a mão.
— Professor, quem determina hoje a taxa Selic?
— O Banco Central.
— Então, ela resulta da decisão discricionária de um Comitê de Política Monetária (Copom)? Se é assim, não resulta do encontro entre poupadores e investidores…
O professor sorriu. — O Banco Central apenas fixa a taxa compatível com esse equilíbrio.
O aluno insistiu. — Então, se ela é de verdade, por qual razão o Copom vota?
A turma riu discretamente.
O professor respondeu: — Porque é necessário todos terem a sabedoria convencional para interpretar corretamente os fundamentos econômicos.
Outro estudante levantou a mão. — Professor, se os juros elevados estimulam tanto a poupança, por que o Brasil convive há décadas com alguns dos maiores juros reais do mundo e continua apresentando baixa taxa de poupança?
O professor caminhou lentamente pela sala. — Porque os brasileiros consomem demais.
Uma aluna abriu o notebook. — Professor, nas Contas Nacionais, a poupança não é calculada como renda menos consumo?
— Sim.
— Então dizer “o Brasil poupa pouco porque consome muito” não é apenas repetir uma identidade contábil?
O professor permaneceu alguns segundos em silêncio.
— É uma identidade… com conteúdo econômico.
Outro aluno entrou na conversa. — Mas o consumo das famílias não costuma variar relativamente menos diante da renda porque segue um padrão? O seu guru monetarista não definiu a renda permanente como o valor médio de longo prazo esperado receber por uma pessoa ao longo da vida, servindo de base estável para as decisões de consumo? Quando o PIB cresce rapidamente, como ocorreu durante décadas na China, a poupança aumenta porque a renda cresce muito mais diante do padrão estável de consumo, não?
O professor respondeu:
— Os chineses possuem elevada cultura de poupança.
Uma estudante perguntou:
— E a elevada poupança das empresas estatais? E a poupança pública? E os lucros retidos pelas transnacionais lá instaladas? São resultantes de “cultura”?!
A sala ficou silenciosa.
O professor mudou de assunto. — Vamos falar dos juros. Escreveu no quadro: “Juros maiores reduzem o consumo pelo efeito riqueza”.
Um aluno levantou a mão.
— Professor, isso vale para títulos públicos pós-fixados, a jabuticaba brasileira?
— Ah, meu manual é uma tradução do usado pelo Federal Reserve…
— Mesmo quando a Selic sobe e esses títulos pós-fixados não passam justamente a render mais?
O professor respondeu prontamente: — Todos os ativos sofrem marcação a mercado com atualização diária do preço diante do custo de oportunidade oferecido pela nova taxa de juro. Isto está escrito aqui.
O estudante retrucou. — Isto no caso de prefixados, mas o Tesouro Selic acompanha a própria taxa básica. O rentista não perde riqueza com o prefixado, mas ganha rendimentos financeiros com o pós-fixado?
O professor ajeitou os óculos. — A política monetária reduz o consumo.
— Concordo — respondeu o aluno.
— Então?
— Minha dúvida é outra. Ela reduz o consumo porque todos ficaram mais pobres ou porque o crédito ficou mais caro, os devedores pagam mais juros e parte da renda é transferida para pessoas que preferem reaplicar seus ganhos financeiros?
A turma inteira voltou os olhos para o professor.
Ele apagou metade do quadro. Escreveu um pouco diferente: “Juros reduzem a demanda agregada”.
Outro estudante perguntou:
— Professor, Keynes não dizia: o investimento multiplica a renda e a renda gera poupança? Então quem vem primeiro?
O professor respondeu:
— A poupança financia o investimento. Tá aqui no meu fiel manual.
A estudante abriu o livro de Contabilidade Nacional.
— Mas ex-post sempre observamos poupança igual ao investimento. Como saber qual causou qual?
O professor respondeu:
— Pela teoria pura, isto é, pelo método dedutivo-racional do mainstream.
Ela sorriu. — Então a teoria decide antes dos fatos?
O professor percebeu então: aquela aula estava fugindo do seu roteiro prévio. Tentou recuperar o controle.
— Vejam, toda ciência precisa de hipóteses simplificadoras.
Um aluno respondeu respeitosamente:
— Claro. Mas quando a simplificação deixa de explicar as instituições concretas do país, devemos adaptar a realidade ao modelo ou adaptar o modelo à realidade?
O professor olhou pela janela. Do lado de fora, o campus fervilhava de estudantes. Ali passavam engenheiros, médicos, sociólogos, físicos e historiadores. Nenhum deles parecia preocupado em saber se a poupança precedia o investimento ou o investimento precedia a poupança.
Voltou-se novamente para a turma. Pela primeira vez durante o semestre, fechou o livro.
— Quando eu era estudante — disse lentamente — acreditava nesta teoria como capaz de responder todas as perguntas. Por isso, eu a decorei e a repito sempre.
Fez outra pausa. — Agora, depois de muitos anos ensinando, estou descobrindo algo desconfortável.
Os alunos aguardavam.
— As boas perguntas também interrogam a teoria.
Ninguém anotou.
Talvez porque aquela fosse a única frase da aula sem risco de cair na prova.
O sinal tocou. Os estudantes saíram discutindo Marx, Keynes, Schumpeter, Kalecki, Minsky… Ficaram com o sentimento de as peculiaridades da dívida pública brasileira requisitarem uma abordagem da complexidade emergente de interações entre múltiplos fatores comportamentais, institucionais e evolucionários.
O professor permaneceu sozinho na sala.
Olhou novamente para o quadro.
Na parte superior ainda permanecia escrita sua frase inicial: “O Brasil cresce pouco porque poupa pouco”.
Pegou o apagador.
Hesitou.
Em vez de apagá-la, acrescentou apenas um ponto de interrogação no fim.
Naquele instante de dúvida, mas ainda sem abandonar suas eternas convicções, talvez tivesse dado a melhor aula de Economia de toda a carreira.
Porque descobrira uma universidade não existir para produzir respostas definitivas, mas para ensinar: nenhuma teoria deve ser poupada das perguntas difíceis.
Moral da estória: Essa situação rendeu uma crônica intelectualmente honesta porque não transformou o professor ortodoxo em um “ignorante”, mas apenas em um expositor de uma teoria superada da Velha Ciência Econômica. Ao ser confrontada com as peculiaridades institucionais brasileiras, passou a enfrentar perguntas para as quais o manual convencional oferece respostas insatisfatórias. O humor nasce do contraste entre a segurança inicial do professor e a curiosidade crítica dos alunos.
*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
Publicação de: Viomundo
