Polícia Federal atinge aliado e Flávio Bolsonaro não esclarece chapa no Rio

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 7 de julho, a sexta fase da Operação Unha e Carne contra uma rede de postos suspeita de lavar dinheiro no Rio de Janeiro. A ação chegou a endereços ligados a Márcio Canella (União Brasil), pré-candidato ao Senado apoiado por Flávio Bolsonaro (PL), e deixou sem resposta pública a continuidade da aliança eleitoral no terceiro maior colégio eleitoral do país.

A nota oficial da Polícia Federal informa o cumprimento de 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de empresas associadas ao grupo investigado.

Segundo a investigação, a organização suspeita teria usado postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio como plataforma para lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentação superior a R$ 7,6 bilhões durante seis anos.

A Polícia Federal não divulgou os nomes dos alvos. A identificação de Canella foi publicada pela velha mídia. As reportagens também apontaram como alvo Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil fluminense. Esses veículos informam ter procurado Canella, mas não havia recebido resposta até a publicação.

Ser alvo de busca não significa culpa, condenação ou inelegibilidade. A medida serve para recolher provas dentro de uma investigação autorizada judicialmente. Canella deve ter assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

O problema imediato para Flávio Bolsonaro é político.

O apoio a Canella não nasceu de uma conversa reservada ou de uma especulação partidária. Em fevereiro, Flávio apresentou publicamente o ex-prefeito de Belford Roxo como integrante da chapa ao Senado construída pelo PL com o União Brasil e o PP no Rio. A indicação também foi divulgada em vídeos nas redes sociais de Canella.

O vínculo avançou além de um apoio protocolar. Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio Bolsonaro, foi anunciada como primeira suplente de Canella. Em maio, o próprio senador reafirmou essa composição ao negar que a mãe disputaria uma cadeira como titular.

Canella também não ocupa uma posição decorativa na disputa. Pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em 2 de julho mostrou o pré-candidato com 21,9% em um dos cenários para o Senado. Ele aparecia atrás de Benedita da Silva (PT), com 33%, e Marcelo Crivella (Republicanos), com 25,9%, mas permanecia numericamente próximo da disputa pela segunda vaga.

A operação, portanto, alcança uma escolha feita diretamente por Flávio Bolsonaro para organizar seu palanque presidencial no Rio. A pergunta não é se o senador responde pelos atos atribuídos a terceiros. Não responde. A questão é saber quais critérios políticos e jurídicos antecederam a escolha de Canella e se as informações recolhidas pela Polícia Federal provocarão uma nova avaliação da chapa.

Até a conclusão desta reportagem, não havia manifestação pública localizada de Flávio Bolsonaro sobre a manutenção ou retirada do apoio. Também não foi localizado anúncio do Partido Liberal ou da direção nacional do União Brasil sobre mudança na composição eleitoral.

O silêncio preserva formalmente o acordo anterior. Sem declaração em sentido contrário, o último posicionamento documentado de Flávio Bolsonaro continua sendo o apoio a Canella.

A pré-campanha precisa responder se considera suficiente aguardar o andamento da investigação, se fará uma verificação própria sobre os fatos e se Rogéria Bolsonaro continuará indicada para a suplência. O União Brasil deve esclarecer se mantém Canella como seu nome ao Senado e quais medidas internas adotará diante da operação.

A investigação também atinge empresas do setor de combustíveis, com suspensão de atividades e bloqueio patrimonial. Não existe, até o momento, dado oficial que permita relacionar as medidas a aumento de preços, desabastecimento ou interrupção de fornecimento. Qualquer afirmação nessa direção dependeria de informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ou das distribuidoras afetadas.

Para consumidores, empresários regulares do setor e contribuintes, a apuração interessa porque postos de combustíveis movimentam recursos privados, arrecadação tributária e contratos públicos. Para o eleitor fluminense, o efeito imediato está na qualidade do processo de escolha dos candidatos que pretendem representar o estado no Senado.

Flávio Bolsonaro construiu sua pré-candidatura presidencial com a promessa de selecionar aliados alinhados ao seu projeto nacional. A Operação Unha e Carne transforma essa promessa em uma cobrança concreta: explicar por que Canella foi escolhido e dizer, sem rodeios, se o apoio continua.

Acompanhe no Blog do Esmael as respostas de Flávio Bolsonaro, Márcio Canella, União Brasil e PL, além dos próximos atos da investigação.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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