A audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre a proposta de tarifa de 25% contra produtos brasileiros, marcada para 6 de julho em Washington, virou um teste de soberania para a eleição de 2026. O prazo para comentários termina em 1º de julho, Flávio Bolsonaro está inscrito para falar, Paulo Figueiredo defenderá sanções individuais contra autoridades brasileiras, e a Embaixada do Brasil acompanhará a sessão sem transformar a audiência em representação oficial do governo Lula.
O conflito deixou de ser apenas comercial. A disputa passou a expor qual tipo de punição setores da direita querem ver aplicada pelos Estados Unidos contra o Brasil: tarifa que atinge empresas, exportadores e consumidores, ou sanção seletiva contra autoridades brasileiras, com foco no ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o USTR, a investigação da Seção 301 mira práticas brasileiras consideradas “não razoáveis” e capazes de restringir o comércio norte-americano. A proposta em análise prevê uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, com exceções para itens como carnes, café, energia, terras raras e peças de aeronaves. A decisão final tem prazo legal até 15 de julho.
Flávio Bolsonaro tenta ocupar a audiência como vitrine internacional. O senador do PL-RJ se inscreveu para defender a não aplicação da tarifa e apresentar a medida como risco para consumidores e produtores dos dois países. O problema político é que a ofensiva ocorre depois de visitas de bolsonaristas a Washington e da tentativa de transformar o governo Donald Trump em ator da disputa brasileira.
Paulo Figueiredo, aliado do clã Bolsonaro nos Estados Unidos, levará outro argumento. Ele dirá que a tarifa fortalece Lula, pune o alvo errado e deve ser substituída por medidas como a Lei Global Magnitsky e restrições de visto contra autoridades brasileiras. A tese desloca o conflito da economia para a punição política direta.
É aí que a audiência ganha peso eleitoral. Se Flávio Bolsonaro tenta dizer que é contra a tarifa, Paulo Figueiredo sustenta que o caminho seria pressionar autoridades brasileiras por meio de sanções dos Estados Unidos. A pergunta que sobra para 2026 é simples: quem fala em nome do interesse nacional quando a solução defendida passa por Washington?
O governo Lula decidiu não falar oficialmente na audiência. A avaliação do Itamaraty é que as negociações comerciais devem seguir pelos canais formais entre governos, com participação do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), da Embaixada do Brasil em Washington e do próprio USTR. A presença diplomática servirá para acompanhar a sessão e monitorar os discursos, não para validar Flávio Bolsonaro como interlocutor do Estado brasileiro.
No Paraná, o caso não é abstrato. O Porto de Paranaguá concentra parte decisiva da força exportadora brasileira e embarcou 4,6 milhões de toneladas de soja em grão no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Portos do Paraná e do Comex Stat. No mesmo período, Paranaguá respondeu por 70% das exportações brasileiras de óleo de soja, com 386,3 mil toneladas.
A lista de exceções do USTR reduz parte do impacto imediato sobre algumas commodities, mas não elimina o risco político e econômico. Tarifa comercial, retaliação diplomática e incerteza regulatória atingem contratos, indústria, logística, cooperativas, importadores, exportadores e decisões de investimento. O problema chega ao preço final quando cadeia produtiva, frete, insumos e crédito passam a operar sob ameaça.
A bancada federal do Paraná, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), as cooperativas e os pré-candidatos ao governo estadual não podem tratar a audiência como assunto distante. Paranaguá, agroindústria, máquinas, alimentos, proteína animal, insumos e empregos formais dependem de previsibilidade comercial. A política externa de palanque cobra conta no porto, na fábrica e no mercado de trabalho.
A direita paranaense também terá de escolher discurso. Não basta dizer que é contra Lula. Defender pressão estrangeira contra o Brasil, mesmo sob o argumento de punir autoridades específicas, cria uma fronteira delicada entre oposição legítima e aposta em intervenção externa na disputa nacional.
O governo Lula tentará enquadrar o caso como defesa da economia brasileira e da soberania. O bolsonarismo tentará vender a audiência como gesto de proteção aos exportadores, apesar da associação de seus aliados à pressão americana. A contradição será um dos eixos da campanha de 2026: quem defende empresa brasileira quando a punição vem de fora?
Para o Paraná, a pergunta prática é mais dura: a quem interessa transformar Washington em palanque enquanto Paranaguá, cooperativas, indústria e empregos ficam expostos ao custo da briga? A resposta não sairá apenas da audiência de 6 de julho. Ela terá de ser cobrada de cada parlamentar e pré-candidato que pedir voto em 2026 falando em patriotismo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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