Lula ainda não responde a Trump sobre Conselho da Paz em Gaza

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não respondeu ao convite do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para integrar o recém-criado Conselho da Paz, anunciado em Davos, com foco inicial na Faixa de Gaza. O silêncio do Planalto, até aqui, virou um gesto político em si e revela cautela diante de uma iniciativa cercada de controvérsias.

Trump lançou oficialmente o órgão durante o Fórum Econômico Mundial, afirmando que o conselho atuará “em conjunto” com a Organização das Nações Unidas, apesar das críticas diretas que ele próprio faz ao sistema multilateral tradicional. O presidente americano será o dirigente vitalício do grupo e concentrará poder de veto e de convite aos membros.

Convite incômodo para o Brasil

A Casa Branca confirmou que Lula foi convidado e que Trump disse “gostar dele” e desejar um papel relevante do brasileiro no colegiado. No entanto, fontes do governo federal indicam resistência. O formato do conselho, concebido sob liderança pessoal de Trump, contrasta com a defesa histórica de Lula por soluções multilaterais, negociação sob a égide da ONU e reconhecimento do Estado palestino.

Aceitar o convite pode expor o presidente brasileiro a cobranças por coerência diplomática. Recusar, por outro lado, pode gerar ruído na relação com Washington, num momento em que Brasília tenta reduzir tensões comerciais e preservar canais de diálogo com a Casa Branca.

Lula, por sua vez, conversou com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Segundo o mandatário brasileiro, houve troca de impressões sobre a situação em Gaza e os esforços mundiais em favor da paz na região.

Quem entrou e quem ficou de fora

Cerca de 25 países já aderiram formalmente ao Conselho da Paz, entre eles Argentina, Hungria, Arábia Saudita, Israel, Turquia e Emirados Árabes Unidos. Outros, como França, Noruega e Suécia, recusaram. Potências como China, Rússia, Alemanha e Japão ainda avaliam.

O Brasil, até agora, optou pelo silêncio estratégico.

Gaza, poder e narrativa

O conselho nasce sob o discurso de reconstrução e estabilização de Gaza, mas críticos apontam o risco de esvaziamento da ONU e de concentração excessiva de poder em Washington. A ausência de representantes palestinos no desenho inicial do órgão reforça o ceticismo internacional.

Para Lula, a decisão não é protocolar. Trata-se de escolher entre manter a coerência do discurso histórico do Brasil no Oriente Médio ou acomodar-se a uma arquitetura diplomática desenhada sob medida para Trump.

O que está em jogo

O silêncio do Planalto indica que o cálculo é fino. Lula sabe que, em política externa, gesto também fala. Ao não responder, mantém margem de manobra e evita legitimar, por ora, um conselho visto por muitos como uma ONU paralela sob comando americano.

O tempo dirá se o Brasil entrará no campo de Trump ou se seguirá apostando no multilateralismo clássico, mesmo sob pressão.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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