Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto
A disputa eleitoral de 2026 expõe o poder das plataformas privadas sobre a circulação, a recomendação e a moderação da política no Brasil.
Algoritmos, redes coordenadas, publicidade digital e inteligência artificial reorganizaram a disputa eleitoral. O TSE passou a exigir das plataformas transparência sobre recomendação, moderação e impulsionamento. Mas grande parte dessa infraestrutura continua sob controle privado e com auditoria limitada. A eleição acontece nas urnas, mas parte decisiva da circulação política ocorre antes do voto.
Antes que o eleitor vote
Ilustração: Código Aberto/IA
Em 14 de agosto, cinquenta e um dias antes de os brasileiros chegarem às urnas, o X alterou o código de seu sistema de recomendações para as eleições brasileiras. A mudança recebeu um nome burocrático, Brazil2026ElectionFilter. Sua função era impedir que contas oficiais de candidatos e as publicações feitas por elas aparecessem no feed “Para Você” de quem ainda não seguia aqueles perfis. Os posts continuariam disponíveis. O que mudava era a chance de encontrá-los sem procurá-los.
A diferença está no código, mas alcança a disputa política. Entre milhões de mensagens disponíveis, o sistema decide quais atravessam a tela de alguém que nunca pediu para vê-las. A Justiça Eleitoral determinou que contas oficiais de candidatos ficassem fora das recomendações justamente para reduzir esse tipo de vantagem. O X incorporou a regra. Pouco depois, uma investigação da Folha de S.Paulo e do Sleeping Giants Brasil identificou mais de 1.400 perfis de candidatos fora do filtro. A empresa ampliou então a lista para quase 2.400 contas. Parte das falhas também estava ligada a inconsistências nos cadastros enviados à Justiça Eleitoral. Os beneficiados pelo problema pertenciam a partidos e campos políticos diferentes.
A norma era pública. Sua execução dependia de bancos de dados, classificações, interfaces e código administrados por uma empresa privada. É nesse intervalo que uma regra eleitoral pode perder força, ganhar exceções ou produzir efeitos desiguais sem que seja necessário demonstrar intenção partidária. O caso do X mostrou, de maneira quase didática, que a circulação política passou a depender de uma camada técnica que o Estado regula, mas não opera.
O TSE reconheceu essa mudança ao editar a Portaria 463. As grandes plataformas passaram a ter de explicar os principais sinais usados para ordenar, recomendar, reduzir a distribuição ou limitar conteúdo político-eleitoral. A norma também exige informações sobre moderação, publicidade, redes coordenadas, inteligência artificial e alcance. A Justiça Eleitoral não está regulando apenas aquilo que alguém publica. Está tentando enxergar os mecanismos que decidem até onde uma publicação chega.
No próximo domingo, 4 de outubro, 158,7 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a votar. A urna registrará uma escolha individual, direta e secreta. O caminho até ela, porém, atravessou durante meses ambientes em que empresas privadas definiram regras de recomendação, publicidade, moderação e visibilidade.
A eleição termina na urna. Parte de suas condições políticas é organizada muito antes dela.
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A eleição dentro da máquina
Dez dias antes do primeiro turno, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva perdeu temporariamente o acesso a uma de suas ferramentas de publicidade no Facebook. A Meta desabilitou a conta usada para anúncios. A campanha recorreu e o serviço voltou a funcionar no mesmo dia. Até 25 de setembro, quando a Agência Brasil publicou o episódio, a empresa não havia tornado pública a regra específica que provocara o bloqueio. Em plena reta final, uma ferramenta paga de comunicação de uma candidatura presidencial ficou fora do ar por decisão de uma plataforma privada.
A suspensão, sozinha, não permite atribuir intenção política à Meta. O fato relevante é o poder material envolvido. Uma ferramenta central de campanha pode desaparecer por horas enquanto, do lado de fora, ninguém sabe se a decisão nasceu de uma denúncia, de um detector de fraude, de uma classificação automática, de uma revisão humana ou simplesmente de um erro. Na política digital, o efeito pode chegar antes da explicação.
No Instagram, o problema apareceu por outra porta. Em 22 de setembro, a Corregedoria-Geral Eleitoral determinou o processamento de uma ação contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar e Mario Frias para investigar uma possível rede coordenada de contas que utilizaria publicações em coautoria, as chamadas collabs. O Facebook recebeu ordem para preservar registros e informar titulares, administradores e possíveis conexões entre os perfis. Algumas páginas mencionadas no processo já estavam indisponíveis. O ministro responsável rejeitou parte das medidas pedidas por considerar que nem todos os vínculos haviam sido demonstrados. O mérito continua aberto.
Uma collab permite que a mesma peça atravesse audiências distintas sem depender de uma única conta. Quando isso nasce de apoio espontâneo, é mobilização política. Se houver administração comum, financiamento ou coordenação sistemática, o fenômeno ganha outra natureza. A Justiça Eleitoral tenta reconstruir justamente essa fronteira a partir de dados que estão nas mãos da plataforma.
A distância entre regra e execução apareceu também num teste conduzido pela organização Eko. Quinze anúncios eleitorais experimentais foram submetidos à Meta. Treze passaram pela primeira etapa de aprovação. Havia material produzido com inteligência artificial sem identificação adequada, uma peça com informação falsa sobre a data da eleição e outra com Donald Trump e Flávio Bolsonaro acompanhada de pedido de voto. Os anúncios partiram dos Estados Unidos. Nenhum chegou a ser exibido para usuários. A Meta respondeu que sua revisão ocorre em diferentes etapas e que uma aprovação inicial não garante a veiculação.
O teste não mostrou uma campanha irregular efetivamente distribuída. Mostrou que treze peças construídas para pressionar as barreiras conseguiram atravessar uma delas. Duas semanas antes, a empresa havia apresentado ao TSE um plano com compromissos de moderação, restrições à publicidade política e identificação de conteúdo produzido ou alterado por inteligência artificial.
Um envolve a interrupção de publicidade. Outro, uma rede sob investigação. O terceiro, uma falha identificada em teste adversarial. A força do conjunto está justamente em não fundi-los numa narrativa única.
O que eles têm em comum é mais concreto. Entre a campanha e o eleitor existe hoje uma camada capaz de autorizar, bloquear, multiplicar, classificar e reduzir circulação. Ela não substituiu a política. Passou a integrar suas condições materiais.
O que os dados provam e o que não provam
Há números que impedem qualquer explicação confortável. Entre 22 de agosto e 20 de setembro, Lula foi o candidato presidencial que mais gastou com impulsionamento na Meta. Foram cerca de R$ 4,7 milhões, contra R$ 702 mil de Flávio Bolsonaro. Em meados de setembro, a própria campanha petista registrava 5,7 milhões de interações em uma semana no Instagram, à frente dos adversários naquele intervalo. No debate sobre as bets, uma postagem de Lula concentrou mais da metade das interações observadas pelo Instituto Democracia em Xeque entre 14 e 21 de setembro.
Flávio também apareceu como alvo de operações digitais. A Agência Lupa identificou uma rede de 68 páginas no Facebook e 38 sites recém-criados que havia gasto mais de US$ 106 mil em anúncios para promover Augusto Cury e atacar adversários. Flávio Bolsonaro era o principal alvo das peças negativas encontradas. Redes coordenadas, conteúdo sintético e exploração agressiva das plataformas não pertencem a um único campo.
Esses dados não tornam as plataformas neutras. Impedem apenas que a investigação confunda resultado com causa.
Curtidas, compartilhamentos e visualizações dizem quanto um conteúdo circulou, não por que circulou daquele modo. Dinheiro, tamanho da conta, formato, assunto, horário, rede de aliados e comportamento da audiência interferem no alcance. O sistema de recomendação acrescenta outra variável, decisiva e muito menos visível. O número está na tela. O caminho que o produziu quase nunca está.
Os monitoramentos públicos disponíveis observam grandes volumes de conteúdo, interações, inteligência artificial e comportamento de redes. O Instituto Democracia em Xeque acompanha dezenas de milhares de publicações no Instagram, X, YouTube e TikTok. O MonitorA ampliou em 2026 sua coleta para as quatro plataformas com foco em violência política dirigida às candidaturas. São trabalhos essenciais, mas não reproduzem Lula e Flávio em condições experimentais idênticas para medir o que cada sistema decide recomendar.
Até 28 de setembro, esta pesquisa não localizou uma auditoria controlada do YouTube ou do TikTok capaz de demonstrar entrega deliberadamente maior para Flávio Bolsonaro do que para Lula. Também não encontrou base para afirmar o contrário. A ausência dessa auditoria é parte do problema. O poder de distribuir existe em escala; a capacidade pública de verificá-lo continua menor do que o poder que se pretende auditar.
A Portaria 463 tenta reduzir essa distância. O TSE passou a exigir que as plataformas expliquem sinais de ordenamento e recomendação, mudanças relevantes feitas durante o período eleitoral e metodologias para comparar o alcance de conteúdo político. A regulação chega ao mecanismo porque já não basta saber quem publicou. É preciso saber como a mensagem ganhou ou perdeu visibilidade.
Não há evidência pública de uma instrução escondida em algum servidor mandando eleger um candidato. A questão é mais estrutural. A propriedade dos sistemas de distribuição permite a poucas empresas organizar a visibilidade de milhões de pessoas enquanto candidatos, pesquisadores, jornalistas, Justiça Eleitoral e eleitores enxergam apenas parte do processo. Uma mensagem pode ser mantida intacta e ainda assim perder poder político. Basta mudar sua posição na fila.
Quando a plataforma entra na política de Estado
Em 15 de julho, a disputa deixou de caber na tela. O governo de Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros após uma investigação conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos. Entre os fundamentos apresentados por Washington estava o que classificou como tratamento prejudicial às empresas americanas no comércio digital. X, Meta e Google apareceram nominalmente nos documentos oficiais.
A investigação havia começado um ano antes, por determinação de Trump. Em 1º de junho de 2026, o USTR concluiu que determinadas práticas brasileiras poderiam receber resposta sob a Seção 301 da legislação comercial americana. No capítulo sobre comércio digital, o documento atacava decisões de tribunais brasileiros que obrigaram plataformas dos Estados Unidos a remover conteúdo político, suspender perfis e cumprir ordens sob pena de multas e outras sanções. Para Washington, essas medidas criavam ônus ao comércio americano.
Uma ordem judicial brasileira dirigida a uma empresa privada passou, assim, a integrar um processo de pressão comercial entre Estados. O interesse das companhias deixou de aparecer apenas em petições, associações empresariais e lobby regulatório. A forma como o Brasil exerce autoridade sobre plataformas americanas entrou formalmente na política econômica externa dos Estados Unidos.
Nada nos documentos encontrados permite dizer que a Casa Branca tenha ordenado Meta, Google ou X a favorecer Flávio Bolsonaro. O que está documentado é suficientemente grave sem esse salto. A capacidade brasileira de impor regras a empresas de tecnologia dos Estados Unidos passou a ter custo na relação bilateral.
O governo brasileiro rejeitou essa interpretação, classificou as sobretaxas como injustificadas e levou a controvérsia à Organização Mundial do Comércio. Segundo o MDIC, a tarifa de 25% passou a atingir parte das exportações brasileiras a partir de 22 de julho. Brasília e Washington mantiveram negociações posteriores sobre as medidas.
A partir daí, a propriedade tecnológica deixa de ser tema apenas empresarial. Google, Meta, X e outras plataformas administram ambientes dos quais dependem comunicação pública, campanhas eleitorais, imprensa, comércio e parcelas crescentes da vida social. Quando um país tenta impor limites a essas empresas, pode encontrar atrás delas não apenas advogados e acionistas, mas o peso econômico e diplomático do Estado onde estão sediadas.
A eleição brasileira acontece dentro dessa tensão. As plataformas precisam cumprir regras eleitorais definidas no Brasil enquanto a própria capacidade brasileira de regulá-las se tornou objeto de pressão externa. Brasília reivindica jurisdição sobre seu espaço político digital. Washington protege interesses econômicos nacionais associados às empresas que dominam esse espaço.
A estrutura dispensa a hipótese de um comando secreto. Empresas controlam meios essenciais de circulação. Estados defendem interesses nacionais. Governos disputam jurisdição. A caixa-preta do algoritmo não termina no servidor. Atrás dela estão propriedade, capital e poder de Estado.
Quem governa antes do voto
Em regiões isoladas do Maranhão, o resultado da eleição viajará pelo espaço antes de chegar aos sistemas centrais da Justiça Eleitoral. Sessenta e seis locais de votação distribuídos por 22 municípios utilizarão antenas Starlink Mini para transmitir boletins de urna depois do encerramento da votação. A presença da empresa de Elon Musk nessa etapa alimentou suspeitas num país que há anos discute urnas eletrônicas, soberania digital e poder político das plataformas.
A arquitetura técnica, porém, impõe um limite claro à suspeita. A Starlink fornece o enlace de comunicação. Ela não entra na urna nem produz o resultado enviado. As urnas permanecem desconectadas de redes externas. Encerrada a votação, o equipamento gera o Boletim de Urna antes da transmissão. Os arquivos recebidos pela totalização passam por verificações de assinatura digital e integridade, e o boletim impresso na seção pode ser confrontado com o que chega ao sistema. A regulamentação prevê ainda reimpressão do boletim, verificação de assinaturas e recontagem pelo Registro Digital do Voto.
Não encontramos fundamento técnico para afirmar que controlar o enlace de satélite permita simplesmente trocar votos durante o percurso. A questão relevante está em outro lugar. Um país continental recorre a infraestrutura estrangeira para conectar partes do próprio processo eleitoral porque determinadas regiões continuam dependentes de redes que não controla. É um problema de dependência tecnológica, não uma prova de adulteração do voto.
O poder tecnológico costuma ser menos espetacular do que a imagem de uma fraude instantânea. Ele aparece na administração das passagens obrigatórias. Informação, comunicação e dados circulam por sistemas que classificam conteúdos, recomendam perfis, vendem publicidade, detectam infrações e suspendem contas. É ali, muito antes da apuração, que se organiza uma parte do ambiente político em que cada eleitor viverá a campanha.
Diante da urna, a decisão continua pertencendo ao eleitor. Nenhum algoritmo deposita o voto em seu lugar, e nenhuma plataforma conhece todas as razões que o levaram até aquela escolha. O problema democrático começa antes. Uma parcela crescente do ambiente em que essas razões se formam depende de sistemas privados que a sociedade brasileira ainda consegue observar apenas parcialmente.
A democracia aprendeu a regular partidos, financiamento, propaganda, rádio, televisão e as próprias urnas porque as condições da disputa também fazem parte da disputa. Agora existe uma camada adicional, operada por corporações capazes de organizar o encontro entre uma mensagem e sua audiência em escala nacional.
A eleição continuará sendo decidida pelo voto. A questão que 2026 deixa diante do Brasil é quem controla tudo aquilo que acontece antes dele.
*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Publicação de: Viomundo
