Médicos negacionistas inventam ‘razões” para não tomar vacina

Foto: Lennart Preiss/AFP

Um canal no Telegram divulga uma lista de médicos que emitem “declarações de isenção” da vacina contra a covid-19 com base em doenças que não aparecem nas contraindicações feitas pelo Ministério da Saúde e pelos fabricantes dos imunizantes. O serviço é oferecido pelo menos desde outubro de 2021.

A divulgação ocorre em um canal chamado “Médicos pela Vida”, mesmo nome de um movimento que ficou conhecido pela defesa pública do chamado “tratamento precoce”. O movimento Médicos pela Vida, no entanto, disse ao UOL não ter relação com o canal e que mantém um outro chamado “Médicos Pela Vida C19 Oficial”.

Até a tarde de sexta (4), pouco mais de 100 mil pessoas estavam inscritas no canal Médicos Pela Vida. Lá, está disponível desde 18 de outubro uma lista de 23 condições médicas (veja aqui) que supostamente garantiriam a isenção da vacinação, mas nenhuma delas consta das contraindicações presentes no PNO (Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19), documento do Ministério da Saúde. As bulas de cada vacina podem ser acessadas no site da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A reportagem pôde visualizar as trocas de mensagens por se tratar de um canal público. Isso quer dizer que o conteúdo pode ser visto por qualquer pessoa com acesso à internet, sem a necessidade de se tornar um membro. Portanto, não se tratam de conversas privadas.

Apesar de o conteúdo ser público, os nomes dos responsáveis pelo canal não ficam visíveis, nem há a opção de mensagem direta a eles. O UOL entrou em contato com o Ministério da Saúde, o CFM (Conselho Federal de Medicina) e o Telegram e relatou a prática, mas não recebeu nenhuma resposta.

O presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), Juarez Cunha, disse ao UOL que a lista “não tem fundamento nenhum”.

“A maioria desses quadros relatados são os que predispõem a covid mais grave, que são as chamadas comorbidades. Quando a gente fala em quadros agudos, a gente fala como regras gerais para outras vacinas. Por exemplo, uma pessoa que está com uma pneumonia, uma febre, tem que esperar a doença regredir. Essa lista é de pessoas com doenças crônicas, não consideradas como quadro agudo”, afirmou.

A diabetes tipo 1, por exemplo, aparece na lista do canal do Telegram como uma condição que garantiria a “isenção”, mas a diabetes mellitus — termo que abrange a diabetes tipo 1 — está no PNO entre as comorbidades cujos portadores devem ter prioridade na vacinação contra o coronavírus.

A esclerose múltipla e doenças degenerativas do sistema nervoso, de forma geral, também estão entre as prioridades do plano do Ministério da Saúde, mas aparecem no rol de “isenções” do canal do Telegram.

Outra doença que aparece na lista do canal é a insuficiência venosa crônica. O presidente da SBACV-SP (Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular – São Paulo), Fábio Rossi, explicou ao UOL que não há contraindicação à vacina contra a covid para pacientes com esta condição. Ao contrário, este é outro público para o qual a imunização contra a doença é importante.

Segundo Rossi, estudos já mostraram que o coronavírus “causa um processo inflamatório exagerado” e, como existe uma correlação entre o sistema inflamatório e o sistema de coagulação sanguíneo, há um aumento do risco de trombose venosa profunda e embolia pulmonar para quem contrai a covid.

“A vacina nos protege das formas mais graves da doença. Dessa forma, ela protege da trombose, da embolia pulmonar”, disse. “Esse paciente que tem mais risco, se ele contrair a covid, é maior a chance de ele ter trombose e embolia pulmonar”, disse.

Daniel Mansur, professor de imunologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), lembrou que as contraindicações são específicas e variam de acordo com o imunizante. “Quem não pode tomar, está indicado na bula de cada vacina, disponível no site do Ministério da Saúde”, disse.

As vacinas contra a covid são comprovadamente eficazes e seguras, e reduzem as chances de mortes e casos graves da doença. A imunidade proporcionada pelas vacinas é mais segura que a oferecida pelas infecções naturais. Tanto as farmacêuticas quanto a Anvisa, Ministério da Saúde e secretarias estaduais de Saúde monitoram informações sobre efeitos adversos raros.

A mensagem com a lista de doenças havia sido vista, até a tarde de sexta, 117 mil vezes. Uma outra mensagem, visualizada 131 mil vezes, traz uma lista de 14 médicos apresentados como profissionais “que emitem laudos e declarações de isenção de vacinas mediante os exames comprobatórios de algumas doenças”, com os respectivos telefones e números de registros em Conselhos Regionais de Medicina.

Pelo menos dois médicos listados, José Augusto Nasser e Marcos Falcão, tiveram declarações enganosas sobre covid checadas pelo Projeto Comprova, coalizão de combate à desinformação da qual o UOL faz parte.

Outra integrante da lista, a médica Patrícia Nogueira Alves Silva, declarou abertamente não ter critérios para emitir o laudo de dispensa vacinal.

“Eu faço [laudos] para qualquer pessoa que não queira se vacinar, independente de doença preexistente ou não. Essa ‘coisa experimental’ não deveria estar nesse pé de obrigatoriedade”, disse em mensagem no canal em outubro.

Como o UOL Confere já mostrou, as vacinas não são experimentais. Os imunizantes passaram por testes e tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Para além da questão ideológica sobre a vacinação, algumas conversas entre participantes do canal mostram que a busca pela isenção é uma tentativa de driblar medidas para restringir a circulação das pessoas que optaram por não receber as doses, como a exigência da apresentação de comprovantes de imunização.

Com o laudo em mãos, alguns membros acreditam que poderão frequentar espaços públicos ou viajar.

Em uma mensagem, uma mulher questiona: “Gostaria de saber se quem tem esse laudo consegue entrar nos lugares normalmente, em que é pedido o passaporte [de vacinas]. Por exemplo: festas, cinemas, etc?”.

Outro integrante do canal propôs uma solução diferente para obter o comprovante de vacinação: “Pessoal, será que eu não consigo uma enfermeira que esteja aplicando vacina e no momento da aplicação ela espirra o líquido fora, como diversas pessoas famosas fizeram, assim eu recebo o comprovante. Entre em contato comigo.”

O UOL procurou, via e-mail ou telefone, os médicos citados na reportagem.

José Augusto Nasser disse que os pacientes atendidos por ele realizaram exames comprobatórios de suas patologias. “Portanto, seria um risco muito grande para eles receberem as injeções genéticas experimentais”, disse.

Marcos Falcão não comentou sua inclusão na lista de médicos que emitem laudos de isenção de vacina e disse que enviaria uma notificação extrajudicial caso seu nome fosse mencionado, apesar de o UOL tê-lo procurado para se manifestar.

Após o UOL procurar os médicos, o canal Médicos Pela Vida publicou uma carta aberta em que afirma que checadores de fatos “e outros agentes pró-vacinas financiados pela velha mídia” prejudicam “milhares de outras pessoas através da prostituição intelectual”.

“Nós, por outro lado, cidadãos de uma nação justa e livre, acreditamos que cada cidadão brasileiro possui o direito de ter toda informação possível sobre aquilo que afeta sua saúde, bem como de escolher qual medicamento injetar em seu próprio corpo”, diz o texto.

A reportagem também tentou contato por telefone com a médica Patrícia Nogueira Alves Silva na tarde de sexta (28), mas as ligações caíram na caixa postal. Não foi encontrado um email da profissional.

Uol

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