Lula chega a 46% dos votos válidos e mira primeiro turno contra Flávio Bolsonaro

Pela conta atual do Datafolha, faltam cerca de 3,9 pontos em votos válidos para o petista fechar a eleição já no dia 4 de outubro

Lula (PT) abriu 10 pontos sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no cenário principal do Datafolha divulgado neste sábado (20), chegou a 41% no total da amostra e, quando a conta é convertida para votos válidos estimados, aparece com cerca de 46,1%; o número ainda não fecha a eleição no primeiro turno, mas desloca a disputa nacional e acende efeito direto nos estados, inclusive no Paraná, onde Requião Filho (PDT) tenta garantir vaga no segundo turno contra Sergio Moro (PL).

A pesquisa mostra Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 31%. Depois aparecem Ronaldo Caiado (PSD) com 3%, Renan Santos (Missão) com 3%, Romeu Zema (Novo) com 2%, Aécio Neves (PSDB) com 2%, Samara Martins (UP) com 2%, Augusto Cury (Avante) com 2%, Joaquim Barbosa (DC) com 1%, Cabo Daciolo (Mobiliza) com 1% e Rui Costa Pimenta (PCO) com 1%. Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB) não pontuaram. Brancos e nulos somam 7%, e 4% dizem não saber.

A conta dos votos válidos muda a leitura bruta da pesquisa. Ao retirar brancos, nulos e indecisos da simulação, porque esses votos não entram na conta final da urna, Lula passa de 41% do total da amostra para aproximadamente 46,1% dos votos válidos estimados. Flávio Bolsonaro vai a cerca de 34,8%. Os demais nomes, juntos, somam perto de 19,1%.

Isso significa que Lula ainda não está matematicamente eleito no primeiro turno pela fotografia do Datafolha. Para vencer de saída, o presidente precisa superar 50% dos votos válidos. Pela conta atual, faltam cerca de 3,9 pontos em votos válidos. Na linguagem da amostra total, o petista aparece com 41 pontos, enquanto todos os adversários somados chegam a 48. A diferença contra o bloco adversário é de 7 pontos.

A consequência política é mais importante do que a aritmética fria. Se Lula crescer apenas sobre indecisos, brancos e nulos, precisará se aproximar de 48% no total da amostra para superar a soma dos adversários. Se crescer tomando voto diretamente de Flávio Bolsonaro ou dos demais candidatos, o caminho encurta, porque cada ponto que sai do adversário e entra em Lula mexe nos dois lados da balança. Nesse caso, uma transferência líquida de cerca de 3,5 pontos já mudaria a lógica da disputa.

Não se trata, portanto, de dizer que Lula tem hoje eleição resolvida. A pesquisa não permite calcular probabilidade real de vitória no primeiro turno sem acesso à base completa, cruzamentos, distribuição regional detalhada e simulações estatísticas. O que o Datafolha permite afirmar é mais preciso: Lula está abaixo da linha de fechamento, mas já entrou na zona em que qualquer avanço sobre indecisos, brancos, nulos ou candidaturas menores pode transformar a eleição em plebiscito de primeiro turno.

O segundo turno nacional também ficou estável. O Datafolha mostra Lula com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro. O dado mantém a eleição apertada numa eventual etapa final, mas também confirma que o senador do PL não conseguiu, até aqui, apagar a vantagem aberta pelo petista depois do escândalo Dark Horse, ligado ao pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar filme sobre Jair Bolsonaro.

A estabilidade, no entanto, tem dois lados. Para Flávio Bolsonaro, estancar a queda é sinal de sobrevivência. Para Lula, não ampliar vantagem após o desgaste do adversário mostra limite de crescimento imediato. A operação da Polícia Federal contra Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, ainda foi captada apenas parcialmente pelo levantamento, feito na quarta-feira (17) e na quinta-feira (18). O caso Master, antes concentrado em Flávio Bolsonaro, passou a contaminar também o entorno governista.

Nos estados, a leitura do Datafolha é direta: se Lula se aproximar da vitória no primeiro turno, governadores e candidatos alinhados ao presidente ganham uma segunda ajuda de campanha. A disputa deixa de ser apenas estadual e passa a carregar a pergunta sobre quem herdará o palanque presidencial, a máquina de mobilização e a narrativa de vitória contra o bolsonarismo.

O Paraná é o laboratório mais sensível desse movimento. Sergio Moro lidera a disputa pelo governo estadual nas pesquisas já publicadas, mas Requião Filho aparece como o nome progressista mais competitivo para ocupar a vaga no segundo turno. O IRG/DataRatinho de 15 de junho mostrou Moro com 38,2%, Requião Filho com 18,6%, Sandro Alex (PSD) com 14,4% e Rafael Greca (MDB) com 11,7% no cenário estimulado sem apoios.

A disputa paranaense não está encerrada porque Moro lidera abaixo de 40% nesse recorte, enquanto Requião Filho, Sandro Alex e Greca ainda disputam a reorganização do eleitorado não bolsonarista. O dado decisivo é que Requião Filho mantém estabilidade no segundo posto, mas precisa transformar resistência em crescimento. Sandro Alex cresce com a força de Ratinho Junior (PSD). Greca perdeu gordura. Moro segue na frente, mas ainda depende da fragmentação dos adversários.

O efeito Lula pode mudar essa equação. No cenário com apoios explicitados pelo IRG, Requião Filho sobe para 20,8% quando vinculado ao presidente Lula. Não é salto suficiente para derrotar Moro no segundo turno simulado, mas é combustível para a etapa anterior: consolidar o pedetista como o nome capaz de impedir que a eleição estadual vire uma disputa entre o bolsonarismo de Moro e o continuísmo do Palácio Iguaçu.

Se Lula vencer a eleição presidencial no primeiro turno, o segundo turno estadual no Paraná ganharia outro enredo. O presidente ficaria livre para entrar na campanha paranaense sem dividir agenda nacional com Flávio Bolsonaro. Nesse cenário, o apoio a Requião Filho teria carga simbólica e política contra Sergio Moro, o ex-juiz da Lava Jato declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal no caso do triplex e personagem central da ilegal prisão de 580 dias de Lula em Curitiba.

Essa é a faísca que o Datafolha joga sobre o mapa estadual. Uma vitória de Lula no primeiro turno não elegeria automaticamente Requião Filho, mas poderia nacionalizar o segundo turno no Paraná. Moro deixaria de enfrentar apenas um adversário local e passaria a enfrentar o presidente reeleito, o campo progressista nacional e a memória política da Lava Jato.

A direita sabe disso. Por isso, Flávio Bolsonaro precisa manter a eleição presidencial viva até o segundo turno. Se o senador do PL for derrotado de saída, candidatos bolsonaristas nos estados perdem o escudo nacional e passam a responder sozinhos por suas alianças, seus passivos e suas contradições. No Paraná, isso atingiria diretamente Moro, Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL) e o bloco que tenta apresentar a Lava Jato como capital eleitoral em 2026.

O Datafolha não entrega uma eleição definida. Entrega uma linha de tensão. Lula ainda precisa crescer para fechar no primeiro turno, mas já aparece perto da fronteira dos votos válidos. Flávio Bolsonaro segura 31%, mas não rompe o teto imposto pela rejeição e pelo caso Master. No Paraná, Requião Filho ainda precisa chegar ao segundo turno, mas a hipótese de Lula livre na etapa final tornou a eleição estadual mais explosiva para Moro.

A conta, no fim, é simples: Lula precisa transformar 46% dos válidos estimados em mais de 50%. Requião Filho precisa transformar estabilidade em passagem para o segundo turno. Moro precisa impedir que a disputa estadual vire julgamento político da Lava Jato. É nesse cruzamento entre urna nacional, memória judicial e guerra paranaense que a pesquisa Datafolha deixa de ser retrato e vira roteiro de campanha.

Acompanhe a cobertura das eleições de 2026 no Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *