O primeiro turno não surpreendeu apenas pelos números. Ele expôs o tamanho da direita que muitos de nós não conseguimos enxergar, a fragilidade de algumas explicações confortáveis e o esgotamento de uma política que imagina bastar comunicar melhor o que já pensa e faz. Faltam poucos dias para o segundo turno. É pouco tempo. E justamente por isso o balanço precisa começar agora
Por Geandro Ferreira Pinheiro*, no Substack
Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar
Paulinho da Viola, Argumento
Em texto anterior, procurei sustentar que havia algo de enganoso na estreiteza da cena eleitoral de 2026. Não porque aquilo que aparecia na campanha fosse falso ou irrelevante, mas porque era insuficiente para apreender os conflitos que atravessavam o país. Segurança, trabalho, soberania, financeirização, fundo público, relações entre capital e Estado, crise das instituições e desigualdade chegavam à disputa eleitoral filtrados, deslocados e reorganizados por uma pauta que frequentemente convertia conflitos sociais em controvérsias morais ou em problemas aparentemente técnicos. Havia luta de classes em tudo aquilo, mas quase nunca era assim que ela aparecia. O Brasil real estava atravessado por questões substantivas que não cabiam na eleição.
O resultado do primeiro turno não desmente essa hipótese. Obriga, na verdade, a levá-la mais a sério e acrescenta uma dificuldade que, antes da abertura das urnas, não poderia aparecer com a mesma nitidez. Se o Brasil não cabia na eleição, uma parte importante dele também não estava cabendo nas análises que produzíamos sobre ela. A questão já não é só saber o que a cena eleitoral ocultava ou deformava. É também interrogar o que nós mesmos não conseguimos enxergar suficientemente na sociedade que chegava às urnas. Esse balanço importa não apenas para compreender melhor o que aconteceu, mas sobretudo porque a qualidade desse balanço condiciona nossa capacidade de agir diante da realidade que se abre agora. Se não reconhecemos adequadamente as forças em movimento, suas bases sociais, suas formas de organização e os sentidos que produzem, corremos o risco de responder à conjuntura concreta com estratégias construídas para uma realidade que imaginávamos existir. Como advertiu Goya, el sueño de la razón produce monstruos.
O domingo deixou bastante material para essa reflexão. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, cerca de 56,1 milhões de votos, enquanto Lula recebeu 45,16%, aproximadamente 53,9 milhões. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro. A mudança, porém, não se restringe à disputa presidencial. O PL elegeu 121 deputados federais e será a maior bancada da Câmara, enquanto a Federação PT-PCdoB-PV terá 88 cadeiras. No Senado, o PL elegeu 19 das 54 vagas em disputa e deverá começar 2027 com 28 senadores, também a maior bancada da Casa.
Esses números ganham significado ainda maior quando se considera a possibilidade de composição do PL com o Partido Novo e com parcelas expressivas de outros partidos da direita tradicional e liberal-conservadora. Isso não constitui automaticamente um bloco homogêneo, visto que essas forças possuem interesses, bases regionais e comportamentos parlamentares distintos, mas amplia consideravelmente a capacidade de formação de maiorias em torno de agendas de redução ou reorientação de políticas sociais, mudanças constitucionais e rearranjos nas formas de proteção estatal às populações de menor renda. A luta de classes, afinal, não desaparece quando entra no Parlamento. Ela assume também a forma de disputa sobre orçamento, direitos, desenho das políticas públicas e capacidade de ação do Estado. A nova composição do Senado acrescenta ainda outra dimensão, porque é a essa Casa que a Constituição atribui o julgamento de ministros do Supremo Tribunal Federal por crimes de responsabilidade. Há inúmeras representações dessa natureza em tramitação, atualmente paralisadas. Uma correlação mais favorável às forças que vêm defendendo esse tipo de iniciativa pode ampliar tensões entre Senado e STF e tornar conflitos institucionais parte importante da próxima legislatura, embora qualquer desfecho dependa das coalizões concretas que se formem e dos procedimentos constitucionais aplicáveis.
Ainda não sabemos quem ocupará a Presidência a partir de janeiro, mas já sabemos muito mais sobre o país e sobre a correlação institucional na qual qualquer presidente terá de governar.
O aturdimento coletivo provocado pelo resultado é, ele próprio, um dado que merece interpretação. As pesquisas, sozinhas, não explicam tamanha surpresa. As últimas medições já indicavam uma disputa muito apertada e registravam uma tendência de crescimento de Bolsonaro. O problema parece estar em outro lugar. Parte importante das leituras políticas não dimensionou suficientemente a extensão social, territorial e institucional da direita. Quando se observam conjuntamente o resultado presidencial, a composição da Câmara e, sobretudo, o novo Senado, o que aparece é uma força política com capacidade de organização, capilaridade social e crescente expressão institucional. Reduzir esse fenômeno a um erro de campanha, a uma conjuntura episódica ou apenas ao peso do antipetismo contorna justamente a dificuldade que o resultado nos impõe, a de compreender o que não fomos capazes de enxergar, com suficiente nitidez, a realidade e o cotidiano das populações antes das urnas.
É nesse ponto que vale recuperar a velha advertência de Palmiro Togliatti segundo a qual “quem erra na análise, erra na ação”. O sentido da advertência não está em supor uma passagem automática entre boa teoria e boa política, mas em reconhecer que qualquer estratégia voltada à transformação social depende do máximo conhecimento possível da dinâmica concreta sobre a qual pretende atuar. Erros de análise não permanecem confinados ao terreno intelectual. Eles delimitam aquilo que consideramos possível, orientam prioridades, informam estratégias e, portanto, condicionam a própria ação. Para quem pretende intervir na realidade,conhecê-la da forma mais concreta possível não é um luxo acadêmico, mas condição para que a estratégia não se transforme em vontade projetada sobre um mundo que gostaríamos que existisse, em vez de responder ao mundo sobre o qual efetivamente precisamos agir.
Apoie o VIOMUNDO
Uma reflexão publicada por Thaís Bernardes depois do primeiro turno ajuda a deslocar o problema para um terreno mais incômodo. Antes de explicar o voto do outro por sua ignorância, manipulação ou incapacidade de reconhecer os próprios interesses, talvez seja necessário interrogar também as categorias com que temos procurado compreender essas escolhas. É a partir dessa provocação que vale buscar formas de explicar a derrota.
Há uma explicação particularmente confortável para derrotas políticas, a de que os outros simplesmente não compreenderam nossas propostas, “nossos” governos ou os efeitos concretos das políticas públicas. Às vezes a responsabilidade recai diretamente sobre o eleitor, convertido naquela figura condescendente do “pobre de direita”, expressão que, além de carregar evidente desprezo, é pobre como conceito, pois reduz a complexidade das mediações políticas à ideia de que determinada posição de classe deveria produzir automaticamente determinada escolha eleitoral. Quem vota de outro modo apareceria, assim, como alguém incapaz de reconhecer racionalmente os próprios interesses. Outras vezes, a explicação parece mais sofisticada e o problema é deslocado para a comunicação, para as fake news, para as igrejas, para as redes sociais, para as Big Techs ou para a capacidade superior da direita de manipular informações e afetos. Todos esses elementos existem e precisam ser investigados, mas há algo comum às duas explicações. Em ambas, aquilo que pensamos e fazemos permanece essencialmente correto. O defeito estaria na recepção, ou porque o outro não compreende, ou porque não conseguimos transmitir suficientemente bem aquilo que ele deveria compreender.
É por isso que tantas análises produzidas no campo progressista e governista, mesmo diante do resultado do primeiro turno, continuam procurando a resposta numa combinação de catequese e aperfeiçoamento técnico da comunicação. Parte-se da premissa de que os resultados das políticas públicas constituiriam evidências objetivas suficientemente fortes para produzir determinada escolha eleitoral, não fossem a desinformação, a religião, o ressentimento ou uma comunicação ineficiente. A esperança num “vira-voto” aparece, então, muitas vezes como expectativa de que uma mensagem mais clara, mais segmentada ou mais eficiente consiga finalmente reconduzir o eleitor à decisão considerada racional. O risco é permanecer olhando o país a partir do alpendre, observando de longe uma realidade que se imagina já conhecer e perguntando por que aqueles que vivem nela não chegam às mesmas conclusões de quem a interpreta de fora.
Há nisso uma concepção profundamente iluminista da política, para a qual o conhecimento correto já estaria constituído e o problema fundamental seria fazê-lo chegar à consciência dos que ainda não o possuem. “Ó Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem!” É curioso que essa lógica sobreviva justamente num campo político que tanto reivindica Paulo Freire. A crítica freireana à educação bancária deveria servir também para a política. Não se constrói consciência depositando verdades prontas em sujeitos tratados como recipientes vazios. Conhecimento se produz no encontro entre saberes, experiências e condições concretas de existência. Exige escuta, diálogo e disposição para que aquele que pretende transformar a realidade seja também transformado pelo conhecimento que encontra nela. Se depois de uma derrota dessa dimensão nossa conclusão for apenas que precisamos explicar melhor aquilo que já pensávamos antes dela, não teremos feito balanço algum. O resultado de domingo deveria, no mínimo, perturbar essa segurança.
Classe, raça, religião ou condição econômica tampouco produzem votos de forma automática. Ser trabalhador não significa que toda a identidade política se construa a partir da relação entre capital e trabalho. Ser negro não produz por si só pertencimento a um campo político. A experiência social concreta é atravessada simultaneamente por salário, religião, família, medo da violência, território, expectativas de ascensão, consumo, ressentimentos, valores, afetos e projetos de futuro. Isso torna a análise mais exigente. Talvez o ponto decisivo seja menos perguntar como tantas pessoas puderam escolher esse caminho e mais compreender por que determinadas experiências, valores e inseguranças estão sendo organizados politicamente pela direita com muito mais eficácia. O fato de políticas públicas produzirem benefícios materiais não garante, por si só, identificação política com quem as promove. Entre a experiência concreta e sua tradução eleitoral há disputa de sentido, pertencimento e projeto de futuro, e é justamente aí que parte da esquerda parece ter perdido capacidade de interlocução. A luta de classes não comparece à urna em estado puro, trazendo uma etiqueta com seu nome.
É nesse ponto que a dimensão dos afetos ganha peso, não como explicação totalizante, mas como uma engrenagem frequentemente subestimada. Uma hipótese levantada a partir de conversas prolongadas com eleitores bolsonaristas chama atenção para a vingança e o ressentimento como elementos presentes em parte dessa adesão. Para alguns, a derrota de 2022 e os acontecimentos posteriores envolvendo Jair Bolsonaro foram vividos não apenas como uma derrota eleitoral ou como aplicação de decisões judiciais, mas como perseguição, humilhação e tentativa de expulsão de seu grupo do espaço legítimo da política. Nessa experiência subjetiva, votar pode adquirir também o sentido de reparação ou revanche. Demonstrar que aqueles que se julgavam derrotados continuam presentes e são capazes de produzir frustração no campo adversário. O ponto não é generalizar esse afeto para dezenas de milhões de pessoas, mas perceber que a política não mobiliza apenas interesses econômicos formulados conscientemente. Organiza também experiências de reconhecimento, humilhação, orgulho e pertencimento.
Essa dimensão ajuda a compreender por que a relação entre religião e política não pode ser reduzida à denúncia da manipulação. Há uma frase muito usada segundo a qual “a igreja vai onde o Estado não chega”, que é demasiadamente simplificadora, já que o Estado está presente nas periferias por meio da escola, da unidade de saúde, da assistência, dos benefícios sociais, do transporte e também, de maneira contraditória, por seus aparelhos repressivos. A pergunta mais interessante é outra. Quem está cotidianamente presente, conhece as pessoas pelo nome, participa de seus dramas, organiza redes de ajuda, oferece uma narrativa para o sofrimento e produz pertencimento? Essa presença poderia também ser construída por um agente comunitário de saúde, por agentes populares, por ações comunitárias desenvolvidas por escolas ou por um CRAS, isto é, por iniciativas estatais com inserção territorial. Mas, em geral, essas formas de presença não se organizam com a mesma capacidade de mobilização, vínculo e construção de coletividade. Uma igreja, por sua vez, pode difundir valores conservadores e participar de mobilizações eleitorais, mas sua eficácia não se explica apenas pelo conteúdo doutrinário. Ela pode ser também comunidade, rede de proteção e espaço de reconhecimento num cotidiano marcado pela precariedade.
Uma das dificuldades de parte do campo progressista está em ter confundido presença estatal com presença política. Políticas públicas transformam materialmente a vida e são indispensáveis à garantia de direitos, mas não produzem automaticamente sujeitos políticos. Uma pessoa pode valorizar o SUS, depender de uma escola pública ou receber transferência de renda e interpretar sua própria trajetória por meio da família, da fé, do esforço individual ou do empreendedorismo. Não há “ingratidão” sociológica nisso. Há mediações que precisam ser compreendidas. Falar sobre trabalhadores não é o mesmo que construir vínculos com trabalhadores reais, com suas contradições, linguagens e formas de vida. Tampouco os benefícios materiais produzidos por políticas públicas se convertem automaticamente em identificação política com quem as promove.
A crítica precisa avançar um passo adiante. O problema ultrapassa a incapacidade de transformar políticas públicas em identificação política, a perda de presença social e a insuficiência da comunicação. Há também uma disputa sobre o futuro. Parte importante do campo progressista continua falando a partir de conquistas indispensáveis das últimas décadas, como ampliação de direitos, políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, expansão educacional, fortalecimento do SUS, conquistas que precisam ser defendidas justamente porque permanecem sob ameaça. Mas defendê-las não resolve, por si só, a necessidade de produzir respostas novas para uma sociedade que também mudou. Conquistas podem tornar-se parte ordinária da vida, ser percebidas como insuficientes ou deixar de constituir, isoladamente, uma promessa capaz de organizar expectativas sobre o futuro.
Enquanto isso, diferentes correntes da direita construíram capilaridade em espaços nos quais o campo progressista perdeu presença ou passou a atuar de maneira predominantemente institucional. Igrejas, redes digitais, comunidades de empreendedorismo, circuitos de consumo e novas formas de sociabilidade passaram a organizar experiências de fé, família, segurança, prosperidade, autonomia individual e expectativa de ascensão. Essas experiências foram amalgamadas numa narrativa relativamente coerente sobre como viver e como melhorar de vida. Há nesse processo uma profunda reconfiguração político-cultural da sociedade brasileira, com efeitos sobre o próprio senso comum e sobre a correlação de forças, transformação essa que já foi definida como uma “revolução cultural radical” da extrema direita. Há aí, em sentido gramsciano, uma disputa pela hegemonia, pela capacidade de transformar uma concepção de mundo em referências através das quais parcelas da sociedade interpretam a própria experiência. Essa transformação não é homogênea nem está concluída. A direita aperfeiçoou sua comunicação eleitoral. Desenvolveu tecnologias de comunicação, redes de pertencimento e formas de presença capazes de transformar experiências dispersas em identidade política, construindo linguagens e interpretações da vida cotidiana que conferem sentido político a essas experiências. Sua força combina eficácia comunicacional e difusão de valores conservadores, com a capacidade de oferecer uma leitura do presente e uma promessa de futuro reconhecíveis por parcelas expressivas da sociedade.
Seria simplificador dizer que a direita apenas ocupou um vazio deixado pela esquerda. A direita não apenas ocupou um vazio político, mas ajudou a produzi-lo e, ao mesmo tempo, construiu dentro dele novas formas de pertencimento. Esse espaço foi aberto também pela perda de vínculos sociais, pela institucionalização de antigas formas de organização e pela dificuldade do campo progressista de renovar linguagens, práticas e horizontes, mas sua produção não pode ser explicada apenas por nossas ausências. A ofensiva da direita também atuou sobre o terreno social, deslocando referências, deslegitimando formas de mediação coletiva, reorganizando percepções sobre Estado, direitos, trabalho e mérito e oferecendo novas linguagens para experiências de insegurança, frustração e expectativa de ascensão. Ao mesmo tempo, desenvolveu tecnologias de comunicação, redes de pertencimento e formas de presença capazes de transformar experiências dispersas em identidade política. O que aparece hoje nas urnas é, em alguma medida, resultado desse duplo movimento de desorganização de referências anteriores e construção ativa de novas formas de identificação e sentido.
Enfrentar politicamente essa construção exige, portanto, mais do que refutá-la ou comunicar melhor políticas existentes. Exige compreender como esse trabalho foi realizado e produzir, a partir das contradições e necessidades concretas da vida social, outro horizonte de transformação que também possa ser vivido como possibilidade.
Safatle, em A ameaça interna, oferece uma contribuição útil a essa discussão ao recusar a interpretação da adesão à extrema direita como simples irracionalidade, regressão ou patologia individual. Sua hipótese é mais incômoda. Determinadas formas autoritárias podem ser compreendidas como possibilidades produzidas no interior da própria sociabilidade liberal e, mais especificamente, das formas de subjetivação engendradas pelo neoliberalismo. A concorrência generalizada, a centralidade do indivíduo e a transformação da vida social numa disputa permanente não seriam apenas o ambiente em que a extrema direita prospera. Ajudariam a produzir sujeitos para os quais determinadas respostas autoritárias podem adquirir coerência.
Não é necessário, para aproveitar essa contribuição, aderir integralmente à sua formulação dos “novos fascismos globais” ou à extensão que atribui ao conceito de fascismo. O que interessa aqui é levar a sério a hipótese de que a adesão à direita não nasce fora das relações sociais existentes nem pode ser explicada apenas por desinformação, ressentimento ou manipulação. Essas dimensões precisam ser reconduzidas às condições materiais e às formas de sociabilidade que as produzem. Às relações de classe, às organizações, aos aparelhos de Estado, às igrejas, às empresas e às condições históricas determinadas em que a disputa política se realiza.
Ela também impede uma leitura excessivamente doméstica do que ocorreu no primeiro turno. Antipetismo, bolsonarismo e as particularidades da formação política brasileira são determinações indispensáveis, mas não suficientes. A ascensão de direitas radicais em diferentes sociedades não pode ser explicada apenas por fatores brasileiros ou por uma sucessão de acidentes eleitorais em lugares e formações sociais as mais distintas. A recorrência de formas autoritárias de política em sociedades muito díspares indica processos mais amplos, ainda que assumam configurações nacionais específicas. O desafio é justamente não substituir a análise concreta do Brasil por uma teoria geral do fascismo, mas tampouco imaginar que aquilo que ocorre aqui possa ser compreendido isoladamente das transformações econômicas, sociais e políticas que atravessam o capitalismo contemporâneo.
O aparente paradoxo econômico brasileiro recoloca o problema. O país chegou ao primeiro turno com desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em agosto, ocupação em patamar recorde e melhora de indicadores de renda, ao mesmo tempo em que convivia com informalidade elevada, endividamento e uma Selic ainda em 13,75% ao ano. Não há passagem automática entre melhora de indicadores agregados e comportamento político. A economia vivida não é a tabela do IBGE. Ela aparece como salário, aluguel, dívida, tempo de transporte, insegurança, acesso a serviços e expectativa sobre o futuro. Além disso, essa experiência nunca fala por si. É interpretada em redes familiares, religiosas, midiáticas, políticas e comunitárias que disputam o sentido do que está sendo vivido.
É justamente aqui que reaparece o fio de prata com nosso texto anterior às eleições. Se a eleição desse ano filtrou e reorganizou conflitos sociais substantivos contemporâneos, o primeiro turno mostrou que também precisamos compreender melhor os filtros por meio dos quais as próprias classes vivem e interpretam esses conflitos. Essa constatação não dissolve a materialidade econômica na cultura ou nos afetos. Ao contrário, exige compreender como condições materiais se convertem, ou não, em consciência e ação política e por quais mediações interesses, experiências e identidades são organizados. A posição objetiva de classe não contém antecipadamente sua expressão política. É preciso reconstruir concretamente o processo pelo qual ela se relaciona com outras dimensões da experiência social e adquire sentido político.
Há ainda um passo além da tese do artigo anterior. Se a cena eleitoral filtra, desloca e reorganiza conflitos sociais que a excedem, o resultado das urnas tampouco inaugura uma realidade do zero. A eleição reorganiza uma correlação de forças formada antes dela e que continuará operando depois de 25 de outubro. O primeiro turno já modificou essa correlação ao produzir uma nova composição do Congresso, mas não criou as relações econômicas, as regras fiscais, a estrutura tributária, o poder do capital financeiro, a inserção internacional do país ou as capacidades acumuladas e perdidas pelo Estado. O próximo presidente governará dentro dessa materialidade, ainda que a orientação do Executivo faça diferença real sobre políticas, prioridades e formas de utilização dos instrumentos estatais. O resultado das urnas não substitui essas determinações, contudo modifica as condições políticas em que serão disputadas.
A disputa pelo fundo público é uma expressão particularmente nítida dessa continuidade. O projeto orçamentário de 2027 prevê R$ 272,2 bilhões para a saúde, exatamente o piso constitucional calculado para a área, num ambiente em que a política fiscal, os juros e uma capacidade parlamentar ampliada de interferir na alocação de recursos condicionam a margem de ação do Executivo. Importa saber quanto recurso existe, como ele será distribuído, quais prioridades prevalecerão e que interesses terão maior capacidade de incidir sobre sua utilização.
No SUS, a disputa não se resume a saber se haverá mais ou menos dinheiro. O financiamento é decisivo, mas a pergunta estratégica é que sistema está sendo materialmente construído. O programa Agora Tem Especialistas, por exemplo, enfrenta um problema real de filas e insuficiência da atenção especializada, utilizando também a capacidade instalada de instituições privadas e filantrópicas. O Ministério da Saúde informa mais de 600 mil procedimentos contratados e cerca de R$ 1 bilhão formalizado em créditos financeiros com 259 instituições. A resposta pode ampliar rapidamente o acesso e, simultaneamente, suscitar uma questão estrutural. Depois de enfrentada a urgência, que capacidade permanece pública e que divisão de trabalho entre Estado e setor privado se consolida?
Numa ordem internacional marcada por conflitos, tensões comerciais, reorganização de cadeias produtivas e disputa tecnológica, medicamentos, vacinas, diagnósticos, dados, laboratórios e plataformas digitais aparecem cada vez mais claramente como dimensões da soberania e da capacidade estatal. A recente agenda dos BRICS, por exemplo, enfatiza institutos nacionais de saúde pública, produção local de produtos médicos, redes laboratoriais, vacinas, capacidade tecnológica e cooperação entre instituições públicas, num momento em que o financiamento internacional da saúde sofre forte retração. Para o Brasil, isso recoloca uma questão estratégica. Soberania sanitária depende de capacidade pública para pesquisar, produzir, formar, planejar, regular, contratar, cooperar internacionalmente e responder às necessidades do SUS. Conhecimento e infraestrutura, sozinhos, não bastam. É preciso preservar no Estado capacidade efetiva de decidir e agir diante de necessidades às quais o mercado, por si só, não necessariamente responderá.
O primeiro turno recoloca essa discussão sobre capacidade pública. Instituições não existem fora da sociedade que precisa sustentá-las. Defender capacidades estatais supõe compreender as relações sociais dentro das quais elas adquirem legitimidade, apoio e sentido. A mesma distância em relação à sociedade que permite imaginar que políticas públicas produzirão automaticamente identidade política pode levar instituições a falar para uma sociedade abstrata, diferente daquela que efetivamente existe nos territórios. Conhecer o país não é uma etapa exterior à capacidade de agir sobre ele.
Os vinte dias até o segundo turno têm evidente importância eleitoral, mas seria um erro imaginar que neles se resolverá um problema que o primeiro turno apenas tornou mais visível. A distância entre presença institucional e presença social, entre oferecer uma política pública e produzir pertencimento, entre defender interesses de trabalhadores e ser reconhecido por eles como expressão de um projeto coletivo, não nasceu durante a campanha. Tampouco desaparecerá com mudanças apenas comunicacionais. O resultado de domingo impõe um balanço de prazo muito mais longo sobre organização, vínculos sociais, produção de sentido e capacidade de compreender um país que mudou enquanto muitas análises continuavam esperando que ele se comportasse segundo modelos conhecidos.
O pessimismo da razão pode recuperar aqui seu conteúdo, desde que não seja confundido com fatalismo. Ele exige reconhecer uma correlação de forças mais adversa do que imaginávamos, a capilaridade social e institucional de forças que subestimamos e a insuficiência de algumas de nossas próprias formas de compreender o país, abandonando explicações que transformam milhões de pessoas numa massa indistinta de ignorantes ou manipulados. Mas reconhecer o real não significa contemplá-lo como quem descreve uma tempestade da janela. O sentido da análise é precisamente descobrir, nas contradições do presente, os pontos em que ele pode ser deslocado. Se conhecer melhor a sociedade servir apenas para produzir uma explicação mais sofisticada sobre por que perdemos espaço nela, continuaremos transformando teoria em comentário. O otimismo da vontade começa justamente aí, não na crença de que desejar outra realidade basta para produzi-la, mas no reconhecimento de que relações de força são historicamente construídas e, por isso, não constituem leis naturais nem destinos imutáveis.
Há uma urgência imediata. Vinte dias não recompõem anos de perda de presença social, não reconstroem organizações populares nem produzem de uma hora para outra vínculos que deixaram de existir nem resolvem as contradições que trouxeram o país até aqui. Mas tampouco são vinte dias politicamente vazios. O segundo turno acontece dentro dessa correlação de forças e pode ser ocasião para abandonar algumas certezas, escutar mais, falar menos a partir do alpendre, reencontrar interlocutores que deixamos de compreender e recolocar no debate aquilo que a própria cena eleitoral estreitou ou deixou de tratar de modo substantivo, como trabalho, segurança, direitos, soberania, desigualdade, futuro e as condições concretas da vida cotidiana. Esse movimento não pode se limitar a uma nova técnica de comunicação destinada a fazer a mesma mensagem chegar melhor ao mesmo destinatário imaginado. Precisa ser o primeiro movimento de uma reconstrução de presença política e social.
Essa reconstrução, entretanto, não termina em 25 de outubro. Nenhum campo político recompõe força social apenas por meio de governos, políticas públicas, campanhas eleitorais ou presença nas redes. É preciso produzir e reinventar formas de organização, vínculos, espaços de convivência e elaboração coletiva, disputar interpretações sobre os problemas concretos da vida e construir formas pelas quais trabalhadores deixem de aparecer apenas como destinatários de políticas ou segmentos eleitorais e possam atuar como sujeitos políticos. Isso exige presença continuada nos territórios, locais de trabalho, escolas, serviços públicos, movimentos, sindicatos, associações e demais espaços onde a vida realmente acontece. Exige também reconhecer que religião, segurança, família, trabalho, renda, identidade e pertencimento não são distrações que afastam as pessoas de uma suposta consciência verdadeira. São dimensões pelas quais as contradições da sociedade são vividas e politicamente organizadas.
O mesmo vale para o Estado. Defender políticas sociais sem disputar as capacidades que permitem realizá-las é deixar intacta uma parte decisiva do problema. SUS, ciência, educação, direitos do trabalho, capacidade produtiva, instituições públicas e soberania tecnológica não sobrevivem como boas ideias nem como resultado de um sequenciamento técnico e racional de aprimoramentos e inovações nas políticas sociais. Dependem de orçamento, trabalhadores, estruturas, conhecimento acumulado, organização social e correlações de força capazes de sustentá-los. A discussão sobre fundo público e capacidade estatal não é um desvio administrativo de uma análise eleitoral. Ela remete à mesma pergunta. Quais forças terão capacidade de transformar suas ideias em materialidade social e institucional?
No meu texto anterior, a pergunta final era que país seria construído pós-eleições, por quais classes e em benefício de quem. O primeiro turno não tornou essa pergunta menos importante. Obrigou apenas a reconhecer que não basta formulá-la corretamente. Para disputar o país que ainda pode ser construído, é necessário conhecer melhor aquele que já existe e reconstruir, nele, capacidade de ação coletiva. Se o Brasil não cabe na eleição, também não pode ser transformado apenas por ela.
Para compreender qualquer projeto de país, é preciso conhecer melhor aquele que já existe. Não apenas o país das pesquisas, das nossas redes ou dos ambientes em que todos compartilham o mesmo vocabulário, a tal “bolha”, nem um povo ideal que reconheceria espontaneamente aquilo que consideramos seus interesses, mas a sociedade concreta, atravessada por classes e frações de classe e, ao mesmo tempo, por fé, família, medo, esperança, pequenos negócios, precariedade, consumo, violência, solidariedade, ressentimento e desejo de reconhecimento.
Foi esse Brasil que votou no domingo e será nele que a política continuará depois de 25 de outubro. Se o primeiro texto sustentava que o Brasil não cabe na eleição, o primeiro turno revelou uma consequência ainda mais incômoda, a de que o Brasil também não tem obrigação de caber nas nossas análises. São as análises que precisam caber nele. Num sentido mais profundo do que o calendário eleitoral, o dia seguinte à eleição já começou.
Os próximos vinte dias importam porque podem definir as condições imediatas em que essa disputa continuará. O dia 25 importa, mas o dia 26 também… e os anos que virão depois dele.
O sentido menos confortável do otimismo da vontade está aí. Não esperar que a realidade confirme nossas convicções, mas conhecê-la para nos organizar e transformá-la a partir daquilo que ela efetivamente é. E isso precisa ser exercitado com um enorme senso de urgência nos próximos vinte dias. Precisamos lutar para sobreviver mais um dia, comprar tempo ao futuro e preservar condições mínimas para, nos anos seguintes, reconstruir força social, organização e poder popular que não dependam apenas de governos ou dos legados que eles deixam. É nessa tensão entre a urgência dos próximos vinte dias e a tarefa histórica que vem depois que o dia seguinte à eleição, que terminará dia 25, já começou após os resultados do primeiro turno.
*Geandro Ferreira Pinheiro é sanitarista e membro do Fórum de Trabalhadoras e Trabalhadores da Fiocruz
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
Leia mais
Reynaldo Aragon: Se Lula cair, vocês do agro brasileiro caem junto
Marcelo Zero: O cérebro político, emoções e volatilidade
Publicação de: Viomundo
