Os democratas venceram as primeiras disputas das eleições de meio mandato nos Estados Unidos e o controle do Congresso seguia indefinido na noite desta terça-feira, 3 de novembro. A boca de urna da Associated Press apontou a economia e o estado da democracia como os temas decisivos, e a reprovação ao desempenho de Donald Trump apareceu majoritária. É esse conjunto, e não o placar final, que interessa ao Brasil.
A leitura mais direta é de desgaste. Um presidente que entra na reta final do mandato com reprovação majoritária e perde cadeiras no Congresso tem menos espaço para sustentar uma agenda externa de confronto. A guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro, e a alta dos combustíveis entraram na conta do eleitor americano, segundo a mesma boca de urna. Trump reagiu anunciando o fim da ajuda militar anual de 3,8 bilhões de dólares a Israel, gesto que o Blog do Esmael noticiou às 21h13 desta terça-feira.
Para o governo Luiz Inácio Lula da Silva, o cálculo é de tempo. O tarifaço americano sobre produtos brasileiros foi imposto por decisão do Executivo, mas a Constituição dos Estados Unidos dá ao Congresso a competência sobre o comércio exterior. Um Legislativo com maioria adversária ao presidente reduz a margem para novas rodadas de tarifas e aumenta o custo político de mantê-las. A leitura possível é que a pressão comercial perde força quando o presidente americano precisa de votos domésticos.
Há um segundo efeito, menos visível e mais imediato: o caso de Flávio Bolsonaro. O senador (PL-RJ) está nos Estados Unidos desde a semana passada, depois de perder a eleição presidencial para Lula. Até a noite desta terça-feira, ele contava com autorização de permanência temporária, e não com o reconhecimento formal de asilo político. Trump declarou que o senador pode ficar no país pelo tempo que quiser, mas não concedeu asilo e disse não ter planos de encontrá-lo.
Segundo relatos publicados, o grupo próximo ao senador esperava mais: a retomada das sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e a formalização do asilo. Nenhuma das duas coisas veio. A frustração cresceu quando Trump afirmou manter boa relação com Lula, o adversário que derrotou Flávio Bolsonaro.
A explicação está na própria eleição americana. Um presidente em disputa de meio mandato não tem incentivo para abrir uma frente de conflito com o Brasil na véspera da votação, e menos ainda para transformar um senador estrangeiro em bandeira. O custo de um atrito com Brasília apareceria no preço dos alimentos e dos combustíveis, exatamente onde o eleitor americano diz que dói.
O senador também jogou com o calendário do Congresso brasileiro. Ele registrou presença remota na sessão que votou a PEC da Segurança Pública, segundo registro do Blog do Esmael, e precisou da autorização de Alcolumbre para habilitar um novo número de telefone e conseguir votar. O gesto mostra que a fuga para o exterior não interrompeu o mandato, mas escancarou a dependência de um acordo político com o presidente do Senado.
Para Lula, o saldo da noite americana é ambíguo, e é bom que se diga. Um Congresso americano hostil a Trump não necessariamente será amigável ao Brasil, e não há razão para supor que um Legislativo dividido seja mais generoso com produtos brasileiros. A diferença é que, com o Legislativo dividido, a negociação volta a ser possível e deixa de depender de um único interlocutor na Casa Branca.
O que a noite desta terça-feira entrega, por enquanto, é uma fotografia incompleta. A Câmara dos Representantes e o Senado americanos seguem sem maioria definida, e os distritos decisivos só devem fechar a contagem na madrugada. Mas a direção já aparece: o eleitor americano votou contra o presidente, e o mundo que orbita Washington vai recalcular preços, alianças e apostas pessoais a partir disso.
A aposta de Flávio Bolsonaro em Washington era a de que o alinhamento com Trump renderia proteção. O resultado parcial desta terça-feira sugere o contrário: rendeu permanência temporária, nenhum encontro e uma promessa de asilo que não veio. Para o senador, o relógio do mandato corre até fevereiro de 2027. Para Lula, o relógio do tarifaço ganhou uma folga que ninguém havia calculado.
Esta análise foi publicada pelo Blog do Esmael em 3 de novembro de 2026.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
