Moro transforma 37% da Quaest em aposta de vitória no 1º turno

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Sergio Moro (PL) transformou a liderança de 37% na pesquisa Quaest/RPC em argumento para tentar antecipar o desfecho da eleição para o Governo do Paraná. Em agendas realizadas em 24 e 25 de agosto, o candidato passou a defender abertamente a possibilidade de liquidar a disputa no primeiro turno e associou essa eventual vitória à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).

A declaração muda o uso político da pesquisa. Moro deixa de tratar os números apenas como fotografia eleitoral e passa a utilizá-los como instrumento de campanha para produzir uma percepção de favoritismo capaz de pressionar adversários e estimular o chamado voto útil.

“Nosso objetivo é consolidar a vitória já no primeiro turno, para que possamos, na sequência, concentrar esforços no apoio a Flávio Bolsonaro”, afirmou Moro. A lógica apresentada pelo candidato é direta: quanto antes terminar a eleição estadual, mais cedo sua campanha poderia atuar na disputa presidencial.

A Quaest, entretanto, não mediu uma eleição decidida. O levantamento divulgado em 24 de agosto mostra Moro com 37%, Requião Filho (PDT) com 21% e Sandro Alex (PSD) com 15%. Luiz França (Missão) e Tayná Miessa (UP) têm 1% cada. Os indecisos somam 18%, enquanto 7% dizem votar branco, nulo ou não comparecer.

A diferença de 16 pontos para Requião Filho e de 22 pontos para Sandro Alex dá a Moro uma vantagem relevante. O senador também aparece à frente nos dois cenários de segundo turno em que é testado: marca 51% contra 27% de Requião e 48% contra 19% de Sandro.

Mas há uma diferença entre liderar com folga e ter a eleição liquidada.

A conta de Moro

Se forem considerados apenas os candidatos que pontuaram na pesquisa estimulada, Moro reúne aproximadamente 49,3% dos votos declarados. É uma posição próxima da maioria absoluta, mas ainda não equivale aos 50% mais um dos votos válidos necessários para vencer o primeiro turno.

O problema é que 18% dos eleitores continuam indecisos.

Esse grupo não pertence a Moro. Também não pertence a Requião Filho ou Sandro Alex. São votos que ainda podem alterar a fotografia da corrida, sobretudo porque a própria pesquisa mostra uma diferença importante entre intenção e consolidação.

Segundo a Quaest, 56% dos eleitores afirmam que sua escolha é definitiva, enquanto 44% admitem que ainda podem mudar de candidato.

Isso significa que a estratégia de Moro depende menos de simplesmente manter os 37% e mais de transformar sua vantagem em uma percepção coletiva de que a eleição está praticamente definida.

É aí que entra o voto útil.

A tentativa de criar o voto útil

O raciocínio político da campanha é conhecido: quando uma candidatura passa a ser percebida como favorita, eleitores que ainda simpatizam com nomes menores podem migrar para o candidato considerado capaz de vencer.

No caso paranaense, Moro tenta ocupar exatamente esse espaço.

A pesquisa oferece material para isso. Ele lidera o primeiro turno, vence os dois adversários testados no segundo e aparece 16 pontos à frente de Requião Filho, que é o segundo colocado. Ao mesmo tempo, Sandro Alex está 22 pontos atrás do senador.

A campanha pode apresentar essa combinação como uma escolha entre manter a disputa aberta ou antecipar o resultado.

Mas existe um limite objetivo para essa narrativa: 18% dos eleitores ainda não escolheram candidato.

A própria Quaest mostra que a disputa espontânea está ainda mais distante de uma eleição definida. Quando os nomes não são apresentados, Moro aparece com 13%, Requião Filho com 7% e Sandro Alex com 4%, enquanto 73% não apontam candidato.

A distância entre os 37% da estimulada e os 13% da espontânea mostra que parte significativa da liderança depende da apresentação dos nomes aos entrevistados.

Moro ganha também uma bandeira nacional

A novidade política da fala de Moro está na ligação explícita entre a eleição estadual e a presidencial.

O senador não apresenta uma eventual vitória no Paraná apenas como objetivo administrativo ou partidário. Ele a coloca como etapa para reforçar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Essa conexão já aparece no comportamento eleitoral do estado. Na rodada anterior da Quaest, realizada em julho, Flávio tinha 42% contra 24% de Lula no primeiro turno entre os eleitores paranaenses. No novo levantamento, a disputa presidencial continua sendo um componente importante da identidade política do eleitorado estadual.

Moro, portanto, tenta transformar duas forças eleitorais em uma só narrativa: o favoritismo dele no Paraná reforçaria Flávio, e a força de Flávio ajudaria a sustentar Moro.

A operação também tem um componente estratégico. Se a eleição estadual terminar no primeiro turno, Moro poderá se apresentar como cabo eleitoral de Flávio durante a reta final da disputa presidencial.

Requião e Sandro precisam impedir a eleição psicológica

O efeito mais importante da estratégia de Moro pode ocorrer antes mesmo de qualquer transferência efetiva de votos.

Uma eleição pode começar a ser decidida pelo ambiente de expectativa criado em torno dela. Se o eleitor acreditar que um candidato já ganhou, candidatos adversários passam a enfrentar uma dificuldade adicional: convencer o eleitor de que ainda existe uma disputa real.

É esse efeito que Requião Filho e Sandro Alex precisam combater.

Requião tem 21%, seis pontos acima de Sandro. Os dois, entretanto, estão em posições diferentes. O candidato do PDT precisa mostrar capacidade de reduzir a distância para Moro. Sandro, além disso, precisa superar Requião e convencer o eleitorado de que a aprovação do governo Ratinho Junior pode ser convertida em voto para sua candidatura.

A Quaest mostra que o governo Ratinho mantém 79% de aprovação, enquanto 68% avaliam positivamente a gestão estadual. Mesmo assim, Sandro aparece com 15% na disputa pelo governo.

Isso cria um segundo conflito eleitoral: Moro tenta transformar sua liderança em voto útil, enquanto os adversários precisam transformar capital político próprio ou de seus padrinhos em crescimento efetivo.

A eleição ainda não acabou

A liderança de Moro é fato. A possibilidade de vitória no primeiro turno também existe.

O que ainda não é fato é que o Paraná esteja caminhando inevitavelmente para esse desfecho.

A pesquisa foi realizada pela Quaest entre 20 e 23 de agosto, com 804 eleitores, margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela RPC, afiliada da Globo no Paraná, e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número PR-05388/2026.

Moro tem uma vantagem suficiente para tentar impor o tema do primeiro turno à campanha. Ainda precisa, porém, converter 37% em maioria dos votos válidos.

A diferença é decisiva.

O senador já começou a disputar não apenas votos, mas a percepção de que sua vitória seria o resultado natural da eleição. Se essa percepção se espalhar, o voto útil pode acelerar sua candidatura. Se os adversários conseguirem impedir essa cristalização e capturar parte dos 18% indecisos e dos eleitores que admitem mudar de voto, a eleição continuará aberta.

Por enquanto, Moro lidera a corrida. A disputa pelo primeiro turno, porém, está começando a ser travada também no terreno da expectativa.

Acompanhe no Blog do Esmael a evolução das pesquisas e os movimentos das campanhas para o Governo do Paraná e o Senado.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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