Pesquisas invertem liderança e dividem o voto por renda

Duas pesquisas nacionais divulgadas em 8 de julho de 2026 colocaram adversários diferentes na liderança numérica do segundo turno. O Meio/Ideia marcou 45% para Lula e 40% para Flávio Bolsonaro. O Gerp registrou 45% para Flávio Bolsonaro e 42% para Lula. A contradição aparente não permite escolher um resultado nem calcular uma média simples: amostras, critérios de seleção e ponderações diferentes produziram dois retratos da mesma disputa.

A íntegra da rodada atual do Gerp, que faltava ao clipping inicial, confirma que os dois levantamentos foram realizados praticamente no mesmo período, mas seguiram desenhos amostrais distintos.

O Meio/Ideia entrevistou 1.500 eleitores por telefone, de 3 a 6 de julho, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-05628/2026. Lula apareceu com 45%, Flávio Bolsonaro com 40%, votos brancos ou nulos somaram 10,5% e 4,5% não souberam responder.

O Gerp ouviu 2 mil eleitores de 3 a 7 de julho, com margem de 2,2 pontos e confiança de 95%. A pesquisa BR-03067/2026 utilizou entrevistas assistidas pelo sistema GerpCati remoto e amostragem por cotas de sexo, idade, escolaridade, renda e região, posteriormente ponderada. Flávio Bolsonaro teve 45%, Lula marcou 42%, 9% rejeitaram os dois nomes e 4% não responderam.

As duas pesquisas não mediram dois países completamente diferentes. Elas localizaram divisões semelhantes por renda, gênero, religião e região. A mudança da liderança nacional ocorre onde as vantagens são menores e onde pequenas diferenças na composição ou na ponderação da amostra alteram o resultado agregado.

A renda fornece a concordância mais importante. No Meio/Ideia, Lula alcança 58,8% entre quem recebe até um salário mínimo, contra 28,4% de Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores com renda superior a cinco salários mínimos, o resultado se inverte: Flávio Bolsonaro registra 47,9% e Lula, 37,6%.

O Gerp encontrou o mesmo movimento, embora tenha dividido a renda em mais faixas. Lula marca 51% entre os eleitores com renda de até um salário mínimo, diante de 31% de Flávio Bolsonaro. Acima de cinco salários, o senador abre vantagem: chega a 57% nas faixas de cinco a dez e de dez a vinte salários, além de 73% entre quem recebe mais de vinte salários.

O conflito aparece no miolo. O Meio/Ideia dá a Flávio Bolsonaro 45% entre um e três salários, mas coloca Lula numericamente à frente por 42,3% a 39,3% entre três e cinco salários. O Gerp separa essas faixas de outra maneira e registra Flávio Bolsonaro com 43% entre um e dois salários e 50% entre dois e cinco, contra 40% e 42% de Lula, respectivamente. A diferença impede uma comparação direta sem considerar os intervalos adotados por cada instituto.

O gênero também aponta na mesma direção. No Meio/Ideia, Flávio Bolsonaro lidera entre homens por 46,3% a 39,2%, enquanto Lula vence entre mulheres por 50,4% a 34,2%. No Gerp, o senador obtém 51% dos homens contra 40% de Lula; entre as mulheres, Lula marca 43% e Flávio Bolsonaro, 40%. Os institutos concordam sobre a direção, mas divergem sobre o tamanho da vantagem feminina do presidente.

A divisão religiosa também se repete. O Meio/Ideia registra Lula com 55,2% entre católicos e Flávio Bolsonaro com 31,9%. Entre evangélicos, Flávio Bolsonaro alcança 61,1% e Lula, 18,7%. O Gerp apresenta Lula à frente entre católicos por 47% a 42% e Flávio Bolsonaro vencendo entre evangélicos por 59% a 25%.

No mapa regional, há três consensos: Lula domina o Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro lidera no Norte e no Sul. A divergência está no Centro-Oeste e no Sudeste. O Meio/Ideia coloca Lula à frente no Centro-Oeste por 46,7% a 38,3% e no Sudeste por 45,5% a 43,4%. O Gerp registra Flávio Bolsonaro com 49% no Centro-Oeste, contra 33% de Lula, e com 44% no Sudeste, diante de 41% do presidente.

A economia ajuda a explicar por que a vantagem de Lula entre os mais pobres não garante uma liderança uniforme. No Meio/Ideia, 43,5% classificam a atuação econômica do governo como ruim ou péssima, enquanto 29% a consideram ótima ou boa. O presidente preserva apoio expressivo na base da pirâmide, mas enfrenta uma avaliação econômica negativa no conjunto do eleitorado.

O Gerp não apresenta uma pergunta específica com a mesma formulação sobre a economia. O instituto registra desaprovação de 50% ao trabalho da Presidência, contra aprovação de 41%, e mostra que essa desaprovação cresce nas faixas de renda mais altas. Comparar esses dados com a avaliação econômica do Meio/Ideia exige cautela, porque as perguntas medem objetos diferentes.

A conclusão segura não é que um instituto “acertou” e o outro “errou”. Os dois levantamentos mostram uma eleição polarizada, com aproximadamente 13% a 15% fora da escolha direta entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mostram também que renda, religião, gênero e território poderão decidir qual composição social chegará às urnas em outubro.

Uma campanha pode escolher a manchete que mais lhe favorece. O eleitor precisa do quadro completo: as duas lideranças são numéricas, pertencem a pesquisas diferentes e escondem uma disputa mais estável do que o placar nacional sugere. Lula depende de ampliar a vantagem entre mulheres, pobres e nordestinos. Flávio Bolsonaro precisa preservar homens, evangélicos, rendas altas e o eleitorado do Sul. O centro da eleição está nos grupos em que nenhuma dessas coalizões alcançou domínio consistente.

Acompanhe no Blog do Esmael a comparação das próximas pesquisas e as mudanças entre renda, religião, gênero e regiões do país.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *