Ratinho Junior, governador do Paraná pelo PSD, chega a 5 de julho de 2026 sem poder disputar terceiro mandato consecutivo, sem ter deixado o cargo em abril para concorrer ao Senado ou à Presidência e sem a principal moeda de troca do ano eleitoral: a celebração de novos convênios com prefeituras. A consequência política é direta: o Palácio Iguaçu entra no inverno com menos caneta, menos fila e mais dúvida sobre a sucessão governista.
O relógio começou a fazer tic-tac para Ratinho Junior antes do barulho das convenções partidárias. Pela Constituição, governador reeleito só pode exercer dois mandatos consecutivos. Para disputar outro cargo em 2026, teria de renunciar seis meses antes da eleição. Ratinho Junior não se desincompatibilizou em abril. Ficou no Palácio Iguaçu, mas ficou também preso ao calendário de fim de ciclo.
A partir de 4 de julho de 2026, três meses antes do primeiro turno, a legislação eleitoral impõe travas à máquina pública. Entre elas está a vedação a transferências voluntárias de recursos do Estado aos municípios, com exceção para obrigações formais preexistentes, obras ou serviços em andamento com cronograma definido e situações de emergência ou calamidade pública. Em linguagem de prefeito, deputado e vereador: acaba a temporada da foto com promessa nova.
É aqui que começa o ocaso político de Ratinho Junior. Não porque o mandato termina formalmente em 2026, mas porque o poder real de um governador em fim de mandato depende menos da placa na porta e mais da caneta que resolve a vida de aliados. Quando a caneta perde tinta, a fila encurta. Quando a fila encurta, o cafezinho esfria. Quando o cafezinho esfria, o mundo político passa a calcular o próximo endereço do poder.
Segundo apuração do Blog do Esmael, Ratinho Junior pretende embarcar em 27 de junho para a Disney, nos Estados Unidos, onde deve permanecer por cerca de 15 dias. A viagem ocorre justamente na reta final antes da trava eleitoral dos convênios. Quando o governador voltar à terra das araucárias, o fundúrcio administrativo das promessas municipais, em tese, já terá atravessado a data fatal.
A informação tem peso político porque a eleição estadual não será decidida apenas em pesquisas, jingles e palanques. A disputa também passa pela percepção de comando. Prefeito não gosta de apostar em canoa furada. Deputado não gosta de carregar candidato sem tração. Partido não gosta de entrar em guerra quando o general parece ter ido visitar Mickey Mouse no momento em que a tropa esperava sinal verde.
Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e na Praça 29 de Março, em Curitiba, onde parte do mundo político se encontra aos domingos pela manhã, a conversa é menos protocolar. O comentário recorrente é que o Palácio Iguaçu pode deixar para trás muitos “orçamentos em aberto”, promessas que viram empenho, empenhos que viram restos a pagar e restos a pagar que aparecem depois da foto oficial.
O Blog do Esmael já mostrou que a oposição cobra explicações sobre convênios prometidos no giro do secretariado pelos municípios e sobre execução orçamentária abaixo do anunciado. O ponto central da cobrança é simples: se o governo grava vídeo, anuncia prioridade e cria expectativa local, precisa mostrar rubrica, cronograma, empenho, liquidação e pagamento. Sem isso, o prefeito fica com a cobrança do morador e o governador fica com a imagem da promessa.
A leitura editorial é que Ratinho Junior entra em julho com dois problemas simultâneos. O primeiro é administrativo: a lei eleitoral reduz a margem para usar convênios como instrumento de articulação política. O segundo é sucessório: o candidato governista Sandro Alex (PSD) precisa provar que tem vida própria justamente quando o padrinho começa a perder capacidade de entregar favores concretos.
Essa é a pergunta que circula entre deputados, prefeitos e dirigentes partidários: se Ratinho Junior não estará na urna, se não disputará Senado, se não disputará Presidência e se já não poderá distribuir novas promessas com a mesma liberdade, por que todas as siglas que sustentaram seu governo deveriam continuar empunhando, sem hesitação, a bandeira de Sandro Alex?
A hipótese política não é pequena. O governador ainda controla a máquina, nomeações, agenda institucional, comunicação oficial e parte da bancada. Mas o poder de final de mandato é outro. Ele manda menos pelo que assina e mais pelo que ainda consegue fazer acontecer. Se as promessas municipais ficarem na planilha e não chegarem à obra, a fidelidade dos aliados tende a sair do campo da gratidão e entrar no campo do custo-benefício.
O problema de Sandro Alex é que sua candidatura depende de uma transferência de capital político que talvez chegue tarde, fraca ou contestada. Ratinho Junior teve dois mandatos para construir o sucessor. Chega ao meio de 2026 com palanque tensionado, aliados olhando para Rafael Greca (MDB), Sergio Moro (PL) tentando capturar a direita e Requião Filho (PDT) buscando se consolidar como polo progressista de segundo turno.
Nesse corredor polonês, a viagem à Disney ganha valor simbólico maior que o roteiro de férias. Nenhum governador é proibido de viajar com a família. O ponto político é outro: liderança em sucessão exige presença, cobrança, articulação e risco. Se o chefe do grupo sai de cena no momento em que a batalha entra no trecho mais duro, a ausência vira mensagem.
Ratinho Junior pode voltar ao Paraná e tentar reassumir o comando da tropa. Pode reunir prefeitos, pressionar deputados, enquadrar partidos e vender Sandro Alex como continuidade administrativa. Mas o calendário não volta. A partir de 5 de julho de 2026, a procissão política ao Palácio Iguaçu já não terá o mesmo sentido. Quem circular pelo Centro Cívico perguntará menos o que o governador promete e mais quem terá força para pagar a conta em 2027.
O ditado ouvido nos corredores resume a cena com crueldade: político em fim de mandato e com caneta vazia nem vento bate nas costas. No caso de Ratinho Junior, a frase encontra calendário, orçamento e sucessão na mesma esquina. A partir de julho, o governador que se apresentou como gestor eficiente terá de provar que seu grupo político sobrevive sem a feira dos convênios.
Ocorre que esse questionamento virá um mês antes das convenções partidárias, quando se celebram as coalizões, o que aumenta mais a dramaticidade do grupo político do governador.
O ocaso de Ratinho Junior não significa desaparecimento imediato. Significa perda progressiva de centralidade. O Palácio Iguaçu continuará iluminado, a agenda oficial continuará funcionando e a propaganda seguirá tentando vender normalidade. Mas a política percebe antes da placa cair da parede. Quando prefeitos deixam de pedir foto, deputados deixam de esperar café quente e partidos começam a fazer contas fora do gabinete, o poder já mudou de temperatura.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
