Ruben Bauer Naveira: Pensando fora da caixinha

por Ruben Bauer Naveira*

Este artigo foi originalmente escrito como uma proposta para o governo brasileiro no contexto da crise global de alimentos que afetará o mundo e assim também o Brasil dentro de pouco tempo.

Em função do aumento de preços e da escassez de fertilizantes e outros insumos (defensivos agrícolas, ração animal, diesel, transporte etc.) necessários à produção de alimentos, devido ao bloqueio ao Estreito de Ormuz em razão da guerra contra o Irã, e ainda por conta da anomalia climática que está sendo chamada de “Super El Niño”, a produção de alimentos acabará reduzida a ponto de possivelmente vir a provocar fomes pelo mundo.

Todo esse processo se encontra pormenorizado no artigo “O Brasil na Crise Global de Alimentos”.

Não obstante a presente proposta ter sido formulada com esta finalidade específica, ela é aplicável a qualquer situação com elevadas complexidade e incerteza.

A escassez de pensamento sistêmico

Os homens navegam em meio às complexidades do mundo buscando… simplificá-las. Eles assim o fazem para, dessas simplificações, extrair previsibilidade.

Assim, diante de algum todo que se lhes afigure complexo, eles procedem a recortes de partes desse todo para estudá-las isoladamente, desconsiderando como desprezíveis ou marginais os efeitos das interações entre cada parte e o restante do todo. Na análise de cada parte, eles buscam então identificar relações lineares de causa-e-efeito, para delas colher a cobiçada previsibilidade.

Sob circunstâncias normais (leia-se “minimamente estáveis”), e tolerada alguma margem de erro, isso funciona satisfatoriamente, e a complexidade do mundo pode assim ser manejada como se simples (ou menos complexa) fosse. Desta forma, um agricultor aplica uma quantidade X de fertilizante dentro da janela Y de tempo no ano para colher uma safra W com uma expectativa de lucro Z quando da comercialização. E assim caminha a humanidade: causa-e-efeito, pensamento linear.

Bons pensadores lineares, no mais das vezes especialistas em vez de generalistas, são socialmente valorizados, e atingem os mais altos postos nas empresas e nos governos. A capacidade de produzir previsibilidade produz também resultados, que produz recompensas.

O mundo, porém, desde sempre complexo, eventualmente se reconfigura por modos que não mais admitem simplificação – como no caso que estamos tratando agora, da iminência de uma crise de alimentos. Não é que o mundo tenha se tornado complexo (isso ele sempre foi), é que o grau de complexidade passa a ser tal que faz colapsar as capacidades humanas de previsibilidade que acabam então rebaixadas a crenças ilusórias, como por exemplo as atuais expectativas por uma “normalização” (retorno aos níveis pré-guerra) do volume de exportações pelos países do Golfo Pérsico.

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E, sem previsibilidade, as pessoas (e as empresas, os governos, as sociedades) ficam como que cegas.

Em Ciência, a Teoria dos Sistemas Complexos (ou Teoria da Complexidade) há muito advoga que para sistemas complexos não há previsibilidade possível (porque não há descrição matemática possível para as relações entre causas e efeitos em meio a uma multiplicidade de variáveis interdependentes), mas há, em seu lugar, um novo objetivo científico alcançável – a capacidade de compreensão (qualitativa ao invés de quantitativa), relativamente aos padrões de comportamento do sistema complexo como um todo.

Sob circunstâncias “normais” (minimamente estáveis), seria razoável tomar-se por unidade de estudo, isoladamente, o sistema das cadeias de suprimento da produção de alimentos? Sim. É claro que essas cadeias se encontram sujeitas a externalidades, como por exemplo a oferta de crédito e seguro (sistema financeiro), os custos de transporte e fretes, ou a ingerência por parte dos governos.

Em um ambiente de normalidade a influência de tudo isso é relativamente pouca, porém a partir de agora os choques se propagarão até impactarem o sistema financeiro global (é só uma questão de tempo), o custo e a oferta de transportes variarão bastante, e os governos intervirão na atividade econômica, dentre outras discricionariedades retendo insumos que de outra forma seriam exportados (açambarcamento) ou mesmo confiscando insumos destinados a terceiros.

Assim, a unidade de estudo quanto às questões de segurança alimentar da população deve passar a ser o sistema econômico global em sua totalidade, o que significa… nada de previsibilidade.

Contudo, os tomadores de decisão nas empresas e nos governos aferrar-se-ão, por inércia, a qualquer resíduo de previsibilidade que ainda acreditem seja possível auferir. Seus instrumentos: mesas de risco, salas de situação, gabinetes de crise.

Sem desmerecer a importância de tais instrumentos, sem dúvida necessários, a atitude fundamental, porém, precisará ser a de abandonar a previsibilidade (pelo menos até que o mundo volte a se estabilizar minimamente, uma vez ultrapassado o pior da crise de alimentos) e passar a buscar a compreensão quanto a padrões de comportamento (no caso, do sistema econômico mundial). Para tanto, o instrumento por excelência é o pensamento sistêmico, em lugar do pensamento linear.

Pensadores sistêmicos, no mais das vezes generalistas em vez de especialistas, constroem compreensão quanto a padrões de comportamento discernindo correlações entre eventos aparentemente desconexos, ao invés de procurar por relações diretas entre causas e efeitos.

Um exemplo de pensador sistêmico é Craig Tindale, que produziu um detalhamento dos choques em cascata na economia global decorrentes do bloqueio de Ormuz, dentre outros trabalhos como este sobre as vulnerabilidades da economia dos EUA.

Especificamente quanto à crise global de alimentos, Tindale organizou a sua compreensão quanto ao padrão de comportamento do sistema agroalimentar em crise em uma série de diagramas, de modo a torná-la mais inteligível a pensadores lineares.

Outro relevante pensador sistêmico é o economista Michael Hudson, cujos textos e vídeos eu recomendo com ênfase a quem queira compreender as implicações desta crise sobre o sistema financeiro global (veja por exemplo aqui e aqui).

Para geopolítica, pensadores sistêmicos essenciais são Arnaud Bertrand, Emmanuel Todd e Alastair Crooke.

Em função do condicionamento geral humano, pensadores sistêmicos são raros relativamente aos pensadores lineares, e mais raros ainda nos níveis dirigentes. A solução portanto não pode ser a de localizar pensadores sistêmicos para então empoderá-los, mas sim a de construir pensamento sistêmico a partir da melhor base de pensamento linear existente – será essa a principal proposta deste texto.

Uma ilustração da falência do pensamento linear sob condições de elevada complexidade está nas decisões que têm sido adotadas pelo governo dos Estados Unidos, as quais acabaram por levar a si próprios e ao resto do mundo ao atual estado de coisas.

Os EUA são autossuficientes em petróleo, e assim seus dirigentes consideraram que estariam imunes a um choque de oferta (chegou-se a insistir que o bloqueio de Ormuz seria um problema “para o resto do mundo”, mas não para os EUA). A figura abaixo (fonte) ilustra a deficiência desse pensamento:

Menos de três meses após o bloqueio, as cadeias de suprimentos de lubrificantes nos EUA começam a dar sinais de colapso (conforme aqui, aqui e aqui), algo impossível de ter sido previsto em termos lineares, mas que poderia ter sido compreendido (e em alguma medida antecipado) em termos sistêmicos.

E quais seriam os desdobramentos de um tal colapso? Lubrificantes são necessários não apenas para os automóveis (bem como para as máquinas agrícolas…), como óleo de motor ou fluidos para a transmissão e os freios, mas também para controles de aeronaves, elevadores industriais, cilindros hidráulicos, escavadeiras e muito mais.

No que diz respeito aos alimentos, uma escassez para a população poderá não necessariamente advir de descontinuidades na produção mas na distribuição, uma vez que a escassez de lubrificantes pode levar a uma redução na capacidade de operação das empilhadeiras, essenciais às atividades de distribuição de alimentos.

Uma outra ilustração da limitação do pensamento linear nos EUA foi a ideia de que se chegaria por algum modo a reabrir Ormuz de modo a retomar alguma normalidade no mundo em tempo hábil para se evitar choques econômicos maiores.

Foi com base nessa crença que os EUA passaram a exportar a preço baixo para o restante do mundo petróleo e gás das suas reservas estratégicas, de modo a “segurar” os preços internacionais e assim evitar que os consumidores americanos sentissem o aumento dos combustíveis nos postos de gasolina às vésperas das eleições de meio de mandato (e, ao suprirem o resto do mundo, os EUA acabaram induzindo também os demais países a subestimar os riscos da crise global).

Pois Ormuz pode ainda levar algum tempo para reabrir e dificilmente retornará aos níveis pré-guerra, porém os EUA já puseram a perder a sua “rede de proteção” contra choques de oferta, o que agora os deixa numa posição muito mais vulnerável (assista a este vídeo do minuto 13”45’ ao minuto 19”50’; veja também aqui).

Não se pode deixar de mencionar a pior de todas as decisões tomadas pelos EUA com base no pensamento linear: a suposição de que uma eliminação física do líder supremo Ali Khamenei juntamente com as principais lideranças civis e militares do Irã, seguida de uma campanha ininterrupta de bombardeios massivos ao longo de semanas, conduziria necessariamente à queda do regime e à rendição do país.

Uma proposta

Para dar conta de acompanhar a evolução da crise, de antecipar problemas futuros e de descortinar possíveis iniciativas, a par das ferramentas tradicionais (que deverão ser empregadas) como mesas de risco, salas de situação e gabinetes de crise, explanei aqui que se deva agregar alguma capacidade de pensamento sistêmico.

Em termos concretos, isso não significa pinçar e empoderar pensadores sistêmicos (não que isso não possa ser feito também), mas sim construir um pensamento sistêmico consistente e coerente a partir da miríade de pensamentos lineares, cada um deles limitado porém altamente especializado, existente.

A ferramenta para isso será a metodologia dos Grupos de Diálogo, criada pelo físico quântico David Bohm (1917-1992) há mais de quarenta anos, e que desde então jamais pôde se disseminar. Justamente por isso procederei primeiro a uma necessária contextualização, para somente então formular a proposta.

A física quântica se debruça sobre o comportamento das partículas subatômicas, as menores porções de que toda matéria é composta, e que podem ser descritas tanto como matéria quanto como energia.

Dentre as descobertas da física quântica está a de que os comportamentos de partículas (microscópicas) afastadas entre si por distâncias macroscópicas podem afetar-se mutuamente (princípio da não-localidade).

Como este é um conceito absolutamente contraintuitivo (como assim, partículas “conversarem” à distância?), exemplifico com um experimento documentado neste vídeo, o de um cão doméstico que invariavelmente “descobria” o momento em que sua dona, mesmo a quilômetros de distância, tomava a decisão de voltar para casa.

Bohm desenvolveu o conceito de “Totalidade” (Wholeness), pelo qual todas as partículas subatômicas do Universo encontram-se interrelacionadas, compondo um todo coerente e integrado.

Este nível de realidade seria a “ordem implicada” (ou seja, subjacente) microscópica, em contraposição à “ordem explicada” macroscópica que é aquela a que temos acesso por meio dos nossos cinco sentidos, composta por elementos separados uns dos outros (bichos, árvores, pedras, utensílios e demais objetos, estrelas, nós mesmos) e que seriam assim dotados de autonomia porém de modo relativo à Totalidade (a ordem explicada subordinada à ordem implicada), bem como de existência temporária (até estrelas morrem, momento em que as partículas que as compõem, até então organizadas em forma de “estrela”, se redissolvem na Totalidade – como tudo o mais, quando morre ou acaba).

Bohm concebeu então os estados mentais, como o pensamento ou o conhecimento, como também compostos por partículas subatômicas tanto quanto os seres ou objetos físicos (lembrando que partículas são tanto energia quanto matéria), e assim também partes da coerência da Totalidade.

Ele dedicou as suas últimas décadas de vida a conceber meios para reconectar os pensamentos e conhecimentos individuais ao que seria uma consciência coletiva da humanidade, postulando que todos os problemas humanos seriam causados pela noção equivocada de que seríamos separados uns dos outros, ou seja, por confundirmos as nossas autonomias relativas à Totalidade com uma separação real.

Ele chegou então ao processo a que denominou “diálogo” (mas que não guarda correspondência com aquilo que nosso senso comum entende por dialogar, que é meramente conversar), um procedimento de “treino” sucessivo e disciplinado de nossas mentes para conectá-las a um fluxo de pensamento coletivo.

Esse pensamento coletivo não tem como ser previsto, ele surgirá como que por conta própria (no jargão da Teoria da Complexidade, trata-se de uma “propriedade emergente do todo”, todo este que no caso será o grupo de pessoas praticando o diálogo).

Em um grupo (de no mínimo 20 e no máximo 40 pessoas, por razões metodológicas) esse treino é efetuado por todos do grupo em encontros regulares (Bohm sugere que sejam semanais ou quinzenais) segundo orientações metodológicas específicas, até que o pensamento individual de cada participante torne-se conectado ao fluxo de pensamento coletivo daquele grupo (porque todos os outros no grupo estão passando pelo mesmo processo).

Tem-se aí as duas razões pelas quais a metodologia nunca pôde se estabelecer.

A primeira é que o processo não é intensivo apenas em termos da energia psíquica que cada participante precisará mobilizar (por isso se diz que o “treino” requer disciplina – o processo é comumente descrito como árduo pelos que dele participam), ele é intensivo também no tempo que será necessário despender (Bohm estima em torno de um ano para o grupo vir a colher os melhores resultados), porém o mundo atual exige resultados a serem obtidos o mais rapidamente possível; se houvesse paciência para aguardar até que os frutos do diálogo adviessem, se constataria a qualidade muito superior desses resultados – mas, como o pensamento coletivo pertence ao campo da ordem implicada, o mundo não aceita que ele não esteja disponível para manuseio nos termos da ordem explicada.

A segunda razão é ainda mais preponderante: o pensamento coletivo, com toda a sua magnitude e seu potencial, somente “aparece” aos participantes do grupo, não a quem esteja fora dele. Neste caso da crise global de alimentos, um grupo de diálogo certamente chegará (no devido tempo) a proposições de valor extraordinário, porém aquele “cliente” (a alta autoridade a quem caberá decidir), se não fizer parte do grupo, avaliará (e julgará) cada proposição do grupo com base nos parâmetros do seu pensamento linear próprio, e assim poderá não dar conta de alcançar todo o potencial das proposições.

Bohm concebeu o diálogo como capaz de solucionar todos os problemas humanos, e foi justamente aquele o qual seja talvez o mais insolúvel de todos eles – e que está na gênese da atual guerra contra o Irã – que esteve mais próximo de vir a ser solucionado por meio da sua metodologia: o conflito entre israelenses e palestinos.

Entre os anos de 1992 e 1993, uma delegação de negociadores israelenses e outra de palestinos, ambas com cerca vinte membros cada, reuniram-se secretamente em regime de grupo de diálogo em Oslo, capital da Noruega, e chegaram aos termos de um acordo de paz, finalmente assinado a 13 de setembro de 1993 em Washington na Casa Branca pelo primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e pelo líder palestino Yasser Arafat.

Porém, o pensamento coletivo a que chegara o grupo de negociadores, o qual abarcava a paz e a coexistência entre os dois povos, mesmo endossado pelos respectivos líderes não pôde ser alcançado por todos aqueles que não participaram do processo, e vieram a sabotá-lo até que colapsasse (Rabin e Arafat acabaram assassinados, Rabin a tiros de forma facilitada pela sua segurança, e Arafat envenenado).

O caso dos Acordos de Oslo, bem como outros em que a metodologia foi também empregada como os processos de conciliação nacional na África do Sul e na Guatemala, demonstram como os grupos de diálogo são especialmente indicados para situações de conflito.

Todo conflito entre os pensamentos e ideias manifestados naquilo que seja dito pelos participantes será rica matéria-prima para o processo do diálogo, afinal conflito é inerente à condição humana.

Qualquer nova realidade pós-conflito não terá como advir ao nível das partes do todo (o das pessoas cujas ideias conflitam), ela somente poderá emergir como pensamento coletivo do grupo, ou seja, ao nível do todo. É exatamente por isso que o processo requer tempo.

O diálogo é também particularmente indicado para o tratamento de problemas complexos (como a crise global de alimentos) porque estes são necessariamente considerados de formas diferentes pelas diferentes pessoas envolvidas, e assim os inevitáveis choques entre essas múltiplas perspectivas representam também conflito, mesmo que inexistam animosidades de natureza pessoal.

O processo do diálogo pode se mostrar árduo especialmente nas suas fases iniciais, porém com o tempo ele se torna extremamente gratificante, à medida que o grupo desenvolve uma inteligência coletiva – algo que será também uma experiência inédita para os participantes.

O diálogo assume ritmos e velocidades inesperados, as conversas se tornam mais sutis e brotam insights coletivos: o todo organiza as partes. O pensamento coletivo emergente será necessariamente sistêmico, ainda que os pensamentos individuais dos participantes prossigam sendo lineares.

Uma explicação bem mais detalhada dos grupos de diálogo, a qual recomendo e peço a leitura, está no terceiro capítulo (da página 116 à página 141) do meu livro Uma Nova Utopia para o Brasil, o qual pode ser baixado aqui gratuitamente.

No que diz respeito à crise global de alimentos, o que proponho é o seguinte:

– Uma alta autoridade do governo (preferencialmente um Ministro de Estado) diretamente envolvida com a problemática dessa crise, precisará assumir a importância e a necessidade de composição de um ou mais grupos de diálogo para um acompanhamento da evolução da crise no Brasil e no mundo, para uma antecipação de situações futuras, e para a proposição de alternativas e soluções inovadoras; preferencialmente, essa autoridade deverá ela própria fazer parte do grupo mas, caso isso não seja possível, ela deverá estar ciente das premissas do processo de diálogo, e de acordo com as mesmas;

– O(s) grupo(s) deverão ser compostos preferencialmente pelo “teto” (quarenta pessoas), com apenas dois requisitos: estar em condições de aportar conhecimento e/ou experiência relevantes para a questão (a crise global de alimentos, e o Brasil nela), e comprometer-se com o processo, ciente de que o mesmo demandará tempo até começar a produzir resultados (se a minha experiência ao longo de vinte anos como facilitador de grupos de diálogo me mostrou algo foi que pessoas incapazes tanto de relaxar o controle que elas acreditam poder exercer sobre o tempo, quanto de, ao contrário, permitir-se deixar o tempo agir sobre elas, acabarão por se mostrar também incapazes de suportar o processo do diálogo pelo tempo necessário a auferir seus resultados);

– Em termos da bagagem de conhecimentos/experiências, esta poderá ser bastante diversificada (a diversidade é uma importante matéria-prima para o processo de diálogo). Sem a pretensão de esgotá-la é possível citar, dentre os diversos ramos de conhecimento: agricultura; pecuária; agronomia; agronegócio; agroindústria; agricultura familiar; agroecologia; reforma agrária; assentamentos; logística; importação; exportação; relações internacionais; diplomacia; segurança alimentar; programas sociais; saúde pública; vigilância sanitária; solos; águas; meio ambiente; reflorestamento; mudança climática; meteorologia; sensoriamento remoto; biotecnologia; distribuição; transporte (rodoviário, marítimo, aéreo e outros); crédito rural; seguro agrícola; defesa da concorrência; regulação; sistema financeiro; fertilizantes; defensivos; sementes; ração animal; implementos agrícolas; irrigação; mineração e metalurgia; petróleo e gás.

– Já em termos de alinhamento político, ideológico ou de interesses entre os participantes, quanto menor melhor – como dito, o conflito é também uma importante matéria-prima para o processo de diálogo, além do que todas as posições e interesses existentes fazem parte da vida brasileira e devem assim ser considerados;

– A periodicidade usual para os encontros do grupo (as sessões de diálogo) é a semanal, porque esse intervalo entre as sessões permite às experiências vividas de diálogo “assentar” entre uma sessão e outra; no entanto, dada a premência de tempo (a crise não vai esperar pelo diálogo), pode-se estabelecer uma periodicidade de duas sessões por semana (não mais);

– Da mesma forma, para o grupo “arrancar” mais rapidamente, pode-se proceder a uma oficina (workshop) inicial, preferencialmente em regime de imersão (confinamento) de até cinco dias, com condução por facilitador;

– Afora a eventualidade dessa oficina de “arranque” (que é opcional, tão somente para acelerar o início do processo), não é necessária a contratação de um facilitador. Bohm concebeu a metodologia para que pudesse ser universalizada, e assim o eventual papel de um facilitador é tão somente o de exortar as pessoas a manter a disciplina requerida, bem como procurar tornar-se dispensável o mais rapidamente possível, com o grupo adquirindo a capacidade de caminhar sozinho; no mencionado (acima) capítulo do meu livro, há um anexo com instruções do tipo faça-você-mesmo, pelas quais qualquer pessoa pode se auto-habilitar a facilitar um grupo de diálogo;

– Se haverá um único grupo ou mais dependerá da possibilidade de as pessoas que não são de Brasília (ou São Paulo?) se deslocarem até lá, o que acarretará para estas um significativo dispêndio adicional de tempo; deverá assim ser avaliada a conveniência da instalação de mais de um grupo, em cidades diferentes.

O grupo de diálogo não é uma panaceia para resolver no Brasil a crise global de alimentos. Haverá menos alimentos no mundo para a mesma população, logo, haverá fome, dor e sofrimento.

O grupo de diálogo, se vier a ser implantado, virá suprir a lacuna das incapacidades quanto: a se chegar a uma leitura minimamente acurada da realidade futura a partir do conjunto de todos os dados, informações, conhecimentos e experiências disponíveis; quanto a fazer evoluir essa leitura de modo tempestivo; e quanto a conceber a partir dela as soluções possíveis e necessárias.

*Ruben Bauer Naveira é concursado do poder executivo federal como Analista Técnico de Justiça e Defesa (aguardando chamamento). Autor também do estudo O Pós-Guerra Nuclear no Brasil: Ou juntos, ou nada.

Publicação de: Viomundo

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