O ex-governador Roberto Requião (PDT), pré-candidato à Câmara dos Deputados, voltou ao palanque no sábado (30), em Curitiba, com a língua afiada contra Sergio Moro (PL) e a direita bolsonarista, no lançamento das pré-candidaturas de Requião Filho (PDT) ao governo do Paraná e de Gleisi Hoffmann (PT) ao Senado.
Aos 85 anos, Requião abriu o ato progressista sem discurso protocolar. O velho de guerra amarrou soberania nacional, defesa das empresas públicas, crítica aos bancos, jornada de trabalho e o passivo político da Lava Jato no Paraná.
O trecho mais duro veio quando o ex-governador revisitou sua antiga simpatia por Sergio Moro. Requião disse ter levado o então juiz duas vezes ao Senado, quando presidia a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por acreditar que ele combatia corruptos.
“Eu me encantei com Sergio Moro”, afirmou Requião, antes de virar a lâmina. Segundo ele, o encanto acabou quando percebeu que Moro, na Lava Jato, estava “em acordo com a CIA e o FBI norte-americano para quebrar empresas brasileiras”.
A acusação foi feita como declaração política de palanque. Requião afirmou que a Lava Jato “conseguiu a devolução de 60 milhões”, mas deixou “mais de 4 milhões de trabalhadores brasileiros” desempregados. “Isso é um horror”, disse.
O ex-governador também trouxe ao discurso o caso das contas CC5 em Foz do Iguaçu. Segundo Requião, ainda no governo estadual, recebeu de um dirigente do Banco do Estado do Paraná a informação de que até dono de barraca de cachorro-quente enviava bilhões de reais ao exterior.
Requião disse ter acionado a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Em seguida, mirou Moro de novo. “O Moro foi o juiz. Quem está na cadeia por isso até agora? Rigorosamente ninguém”, declarou.
A fala colocou Moro no centro da disputa paranaense de 2026. O ex-juiz tenta chegar ao Palácio Iguaçu pelo PL, amparado pela memória da Lava Jato em Curitiba. Requião, do outro lado, tenta transformar essa memória em cobrança sobre soberania, emprego e destruição de empresas nacionais.
O discurso também mirou a ofensiva de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos Estados Unidos. Sem fazer uma fala isolada sobre o senador, Requião ligou a defesa de Requião Filho e Gleisi à soberania brasileira, em contraste com a pressão da direita para submeter a segurança pública nacional à agenda de Washington.
Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido ao presidente Donald Trump que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fossem classificados como organizações terroristas. Para Requião, a disputa central passa pela defesa do Brasil contra a interferência dos Estados Unidos.
O ex-governador também atacou o poder dos bancos. Citou os juros do cartão de crédito no Brasil, comparou com Paraguai e Estados Unidos e defendeu o PIX contra o que chamou de desejo dos grandes bancos de se apropriar da economia popular.
No Paraná, Requião puxou o debate para a Copel, a Sanepar e a escola pública. Defendeu a reestatização da Copel, a manutenção da Sanepar sob controle público e criticou a privatização das escolas estaduais.
A fala bateu diretamente na vitrine do governo Ratinho Junior (PSD). Ao dizer que o Paraná precisa governar “para as pessoas e não para grupos econômicos”, Requião apontou para o eixo da campanha de Requião Filho contra Sandro Alex (PSD), pré-candidato apoiado pelo Palácio Iguaçu.
Requião também defendeu a jornada de 40 horas semanais. Chamou a plateia ao gesto político, pediu que levantassem a mão os apoiadores da proposta e vinculou a pauta ao direito de trabalhadores viverem mais tempo com suas famílias.
O discurso teve memória pessoal, ataque frontal e recado eleitoral. Requião lembrou a disputa contra Jaime Lerner pela Prefeitura de Curitiba, disse que começou com 2% nas pesquisas e terminou eleito com apoio popular.
A lembrança serviu para animar a militância progressista. O ex-governador disse que a presença de milhares de pessoas no ato mostrava força em defesa da soberania, das empresas públicas e dos trabalhadores.
A eleição de 2026 no Paraná ganhou, com Requião, uma senha antiga e incômoda para Moro: a Lava Jato deixou de ser troféu automático da direita e voltou a ser cobrada como ferida aberta na economia, na política e na soberania brasileira.
As acusações contra Sergio Moro são registradas como declaração de Roberto Requião no palanque. O Blog do Esmael registrará eventual manifestação do senador sobre a fala.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
